27/02/2013

O erro de Adam Smith e a Yahoo

Um tropeço do Adam Smith foi achar que o trabalho escravo seria intrinsecamente menos eficiente do que o livre. Ele escreveu na riqueza das nações:
A person who can acquire no property, can have no other interest but to eat as much, and to labour as little as possible.
O erro é que o trabalhador livre também quer aproveitar o máximo e trabalhar o mínimo que puder.* Sem supervisão, os assalariados também fazem corpo mole. Foi isso que o pessoal da Yahoo descobriu. Tinha carinha usando o tempo de trabalho para cuidar da sua nova empresa. (O CC escreve também sobre o assunto.)
Sim, eu sei que existem firmas como a Valve, sem hierarquia, patrão, horários, nem nada. Fantástico, mas certamente tudo depende da tecnologia e da função de produção. De qualquer forma, essas empresas são exceção. Para um discussão histórica do tema, ver Marglin "What do bosses do?" e a réplica do Landes "What do bosses really do?"

A propósito: falando em Teoria da Firma, que pena que o Alchian se foi. O Teorema Alchian-Allen é um dos meus favoritos.

*Em sentido análogo, a escravidão com frequência usava incentivos positivos.

19/02/2013

"Avaliação Econômica de Projetos Sociais"

Aqui e de graça!  Olha o nível: foi organizado pelo Naércio Menezes Filho e tem textos de Betânia Peixoto, Cristine C. de Xavier Pinto, Lycia Lima, Miguel  Foguel e -not least - Ricardo Paes de Barros.
Ele não substitui o Angrist and Pischke (nem é esse o objetivo), mas é essencial para quem quer aprender o jeito moderno de avaliar projetos.
Ótima dica do grande Sabino Porto!

A crítica aos randomistas e o progresso da Ciência

Saiu mais uma crítica aos randomistas. Nada muito novo; as questão são  - no fundo - as mesmas já levantadas por outros autores.
Uma crítica repetida é: "ah, bons tempos aqueles em que a Economia fazia Grandes Perguntas":
 "The larger questions once asked within the discipline, regarding the effect of alternative economic institutions and policies... for instance, and the impact of political dynamics and processes of social change, have been pushed to the background in favour of such questions as whether bed-nets dipped in insecticide should be distributed free of charge or not, or whether two schoolteachers in the classroom are much better than one."
Existe uma regularidade na ciência: quando mais desenvolvida uma Ciência menos Grandes Perguntas. Os gregos ficavam lá perguntando quais são os elementos básicos, o que é vida, o universo e tudo mais. Um físico ou um médico de hoje passam a vida tentando resolver um minúsculo problema, mas que tem solução.
"O que é preço justo"; "O que é valor?"; "Quais são as leis de distribuição?" foram preocupações iniciais da Economia. Hoje, as perguntas são menores, mas têm resposta.
Enfim, é bobagem criticar os outros por não fazerem Grandes Perguntas. Nada impede que você pergunte "Why nations fail", mas quem pergunta se vale a pena ter 1 ou 2  professores na sala de aula também tem seu valor.

18/02/2013

"BNDES e Bancos de Desenvolvimento: Industrial Policy View ou Political View?" Avelino

Uma ótima síntese da literatura empírica recente sobre o BNDES.
Ficou só faltando o livro Capitalismo de Laços e o blog do Mansueto.
PS: Para falar a verdade, os dois links que eu incluí estão fora do escopo do texto, mas são obrigatórios para discutir o assunto.

15/02/2013

Londres, Rio e São Paulo no passado




Produtividade total dos fatores: uma pergunta

Em conversa com o Ricardo Cavalcante, colega do Ipea, eu soube que as estimativas da literatura recente apontam para um  crescimento da produtividade total dos fatores no Brasil na década de 2000 bem maior do que na década anterior. Esquisito, mas é o que as análises apontam.
Pensei na seguinte hipótese: como as estimativas não consideram o capital natural e uma parte do crescimento recente nele se baseou, o cálculo da PTF acaba capturando esse fenômeno.
Pergunta para quem entende do assunto: é simples assim? Onde errei?

13/02/2013

O melhor do carnaval 2013 - Livros

"Building an entire development strategy on one cluster is as risky as assembling an investment portfolio concentrated in one or two stocks. And history shows clearly that politicians are even worse at picking winners than investment bankers are, which these days is saying a lot."

O melhor do carnaval 2013: vídeos

  • Black Mirror é talvez a melhor coisa já feita para a TV. Além-da-imaginação&ansiedade-tecnológica.
  • Se não consegue levar Downton Abbey a sério, Hunderby é a série para você. Humor barra-pesada, da mesma criadora de Nightly Night.
  • Por fim, Superman, versão hindi. 
(Tudo está disponível aqui e aqui)

07/02/2013

"The Econometric Approach to Development Planning"

Allais, Dorfman, Frisch, Haavelmo, Isard, Koopman, Leontief, Malinvaud, Morishinma, Pasinetti, Stone, Theil, Tinbergen e mais gente do mesmo calibre em um seminário no Vaticano em 1963. Que turma!
Em uma semana, dobrou o  QI acumulado dos que pisaram o Vaticano em toda a sua história.
Parte 1 e Parte 2. (Agradeço ao Bruno Cruz pela descoberta)

"Desigualdades sociais e econômicas na História"

Saiu o livro organizado pelo Tarcísio Botelho e Mark Leeuwen com os textos do seminário super bacana que eles organizaram em BH faz uns dois anos. Três econ bloggers têm textos lá: Irineu, eu (com a tradução do nosso texto publicado na RSUE) e o Thomas Kang.



06/02/2013

Allen, Murphy e Schneider "The Colonial Origins of the Divergence in the Americas: A Labour Market Approach" novamente

"Capitanias Hereditárias e desenvolvimento econômico: herança colonial sobre desigualdade e instituições" Mattos, Innocentini, Benelli

"Este trabalho tem como objetivo analisar os eventuais efeitos da herança colonial na formação dos municípios brasileiros sobre suas condições atuais de desigualdade de distribuição de terra e renda e sobre a qualidade das instituições. Em particular, empregam-se área, latitude, longitude e a data de fundação para identificar os municípios pertencentes aos territórios das Capitanias Hereditárias (CHs). Em seguida, busca-se estimar se esta característica histórica dos municípios está correlacionada com suas instituições atuais, considerando diversos controles, tais como: área proporcional da capitania; haver pertencido aos ciclos da cana e do ouro; estar no litoral; sua distância em relação a Portugal; tipo de solo; quantidade de chuva; altitude; temperatura média; e as variáveis socioeconômicas municipais. Os resultados sugerem de forma robusta que o município que pertenceu à área destinada às CHs (um aumento de um desvio-padrão) está associado a uma concentração maior de terras (Censo Agrícola de 1996), medida pelo índice de Gini (aumento de meio desvio-padrão), a menores gastos públicos locais e a menor persistência política. No entanto, não se encontrou associação robusta sobre os seguintes indicadores dos municípios brasileiros: desigualdade de renda, Produto Interno Bruto (PIB) municipal per capita, número de agências bancárias públicas, de cartórios e empresas públicas no município, nem na governança local e no acesso à justiça local."
Parabenizo o objetivo dos autores, mas  tenho sérias dúvidas sobre a interpretação dos resultados e  a própria escolha de variáveis. Mas o meu principal ponto é o seguinte: a variável-chave Indice_CH captura mais os efeitos das emancipações municipais recentes (que têm uma tremenda variação estadual) do que o legado institucional de quase cinco séculos.

05/02/2013

Federalismo à Brasileira: questões para discussão (org. Linhares, Mendes e Lassance)


Download gratuito do livro aqui. Aí vai o sumário:
  • Federalismo no Brasil: trajetória institucional e alternativas para um novo patamar de construção do estado. Lassance; 
  • Cooperação federativa: a formação de consórcios entre entes
públicos no Brasil. Linhares, Cunha 
e Ferreira;
  • A progressão do caráter federativo das relações institucionais no SUS. Nogueira;
  • Programa federal de apoio à gestão urbana municipal:
 situação e perspectivas. Pereira, Costa, Galindo, 
Balbim;
  • Território e o arranjo federativo para o desenvolvimento brasileiro: 
o caso do nordeste. Mendes;
  • Desafios contemporâneos na gestão
 das regiões metropolitanas. Balbim
, Becker, Costa, Matteo;
  • Fundo de participação dos estados: sugestão de novos critérios
 de partilha que atendam determinação do STF. Mendes;
  • Rateio do fundo de participação dos estados e do distrito federal: avaliação de impacto e de viabilidade legislativa
 das propostas aventadas. Rocha; 
  • Pesos regionais na função de bem-estar social: uma aplicação 
para o fundo de participação dos estados. Vieira
, Monasterio;
  •  A restrição orçamentária maleável na abordagem da segunda
 geração da teoria do federalismo. Boueri.
(O título do livro, tenho que registrar para a posteridade, foi do grande Mauro Oddo).

04/02/2013

Dois artigos que deveriam ser lidos e discutidos

Uma grade sacada: Litschig e Morrison exploraram a descontinuidade das faixas do FPM para estimar o efeito das transferências para os municípios sobre pobreza e educação.  Litschig e Irineu usaram a mesma estratégia e capturam efeitos de longo prazo  nos resultados educacionais.
Os resultados são muito surpreendentes. A visão hegemônica diz que apenas mais dinheiro para as prefeituras não gera melhoria dos serviços públicos.  Já eles encontram que recursos adicionais temporários para as prefeituras nos anos 80 tiveram efeitos - bem fortes - no longo prazo. Estranho, mas é o resultado.
(Ah, e eles fizeram o teste de McCrary (2008)  para o dados populacionais da década de 80 e não houve sinais de manipulação. Eu, a propósito, - em TD no prelo - encontro algo suspeito entre 1991 e 2010)