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Easterly sobre o Ha-Joon Chang

A resenha que o  William Easterly fez de um dos livros do Ha-Joon Chang é sensacional. É de 2009 e - por algum motivo - eu comi mosca. Aí vai um trecho:

Fofoca sobre o Chang. Em 2002- acho- ele apresentou em um seminário na Universidade Cambridge um paper em que dava um monte de pauladas no Banco Mundial. Não pelos motivos certos*, mas apresentando uma interpretação conspiratória do trabalho dos economistas do Banco. Para azar dele, o gigante sociólogo e gente boa Michael Woolcock estava na plateia. Na perguntas, Woolcock retrucou algo como você-me-desculpa-mas-eu-trabalho-lá-e-não-é-nada-disso. Em vez de defender o seu ponto, ele deu para trás e disse  "É..eu exagerei, nem acredito tanto assim. Foi só por retórica. " Papelão.

*Ver os trabalhos do próprio Easterly e do Lant Pritchett.


Harberger, 91 anos, professor em atividade

Sim, ele mesmo, a lenda, dará uma disciplina de tópicos de desenvolvimento econômico aqui na UCLA neste trimestre. (Infelizmente, não sei se vou assistir porque o curso colide com o horário de um dos seminários de história econômica.) Mas é emocionante saber que o senhorzinho continua na ativa.
Suas contribuições são muito importantes. Quando eu ensino Finanças Públicas na graduação, uso uma aula inteira só para convencer os alunos que o Triângulo de Harberger é algo real. Ou seja, mostro que existe um peso-morto para a economia, mesmo que o governo transfira os tributos direto para as famílias. É talvez o ponto que eu mais desejo que os alunos se lembrem de todo o curso.
Harberger publicou, em 1998, uma Letter to a Younger Generation que vale a pena ler. Um trecho já na abertura , contudo, já me deixou deprimido:
"Many of you are too young to remember, but it was not long ago that the policies pursued by many governments in Latin America, and the courses taught in most universities across the region, reflected more bad economics than good."
Pena que a maré tenha virado novamente e o populismo econômico tenha voltado na América Latina. A reflexão paulinho-da-violesca na página 2 também vale a pena.




Desenvolvimento e moradores de rua

Para acrescentar à lista do Chris Blattman de indicadores práticos  de desenvolvimento*:
"País desenvolvido: tem muita gente que não sabemos se é morador de rua mesmo ou apenas seguidor de um estilo de vida alternativo."
Vi vários caras em Los Angeles que realmente eu não tenho certeza. Alguns exemplos aqui (o primeiro é sensacional)
A propósito, aqui os direitos de propriedade dos moradores de rua são respeitados:



* Tenho orgulho de ter contribuído com os indicadores número 1 e 7. Prova.





Por que a Argentina ficou pobre?

É um dos grandes enigmas da história econômica. O novo texto abaixo faz um resumo das teses e testa uma hipótese: os períodos de boom exportador geram uma demanda por populismo:
Commodity Price Booms and Populist CyclesAn Explanation of Argentina’s Decline in the 20th Century
Emilio Ocampo
 Argentina’s economic and institutional decline has long posed a conundrum to economists and social scientists. In particular, it challenges theories that seek to explain cross-country growth differences over time. Those theories that claim that institutions have a first-order effect on growth cannot explain the persistent economic decadence of a country that in 1930 was among the most institutionally advanced in Latin America. Theories that claim that that education and growth precede inclusive institutions face a similar problem, since Argentina was one of the most educationally advanced countries in Latin America. The same can be said of theories that claim that social capital is the determinant factor that explains long-term growth. This paper emphasizes the key role played by recurrent cycles of populism in pushing the country into secular decadence and posits that, in Argentina, rising commodity prices have driven the cycles of populism. Key words: Populism, commodity cycles, Argentina, inequality, institutions, social capital, economic growth, economic decline.
A dica foi do Shikida. 

Como a maldição do petróleo ataca?

Em países com instituições ruins, o boom do petróleo aumenta os incentivos para cursar direito, administração e humanas:

Christian Ebeke, Luc Désiré Omgba, Rachid Laajaj, Oil, governance and the (mis)allocation of talent in developing countries, Journal of Development Economics, Volume 114, May 2015, Pages 126-141, ISSN 0304-3878, http://dx.doi.org/10.1016/j.jdeveco.2014.12.004. 
Abstract: This paper sheds light on the relationship between oil rent and the allocation of talent, toward rent-seeking versus more productive activities, conditional on the quality of institutions. Using a sample of 69 developing countries, we demonstrate that oil resources orient university students toward specializations that provide better future access to rents when institutions are weak. The results are robust to various specifications, datasets on governance quality and estimation methods. Oil affects the demand for each profession through a technological effect, indicating complementarity between oil and engineering, manufacturing and construction; however, it also increases the ‘size of the cake’. Therefore, when institutions are weak, oil increases the incentive to opt for professions with better access to rents (law, business, and the social sciences), rather than careers in engineering, creating a deviation from the optimal allocation between the two types of specialization. Keywords: Oil rent; Governance; Rent-seeking; Tertiary education
Talvez seja uma mera coincidência sem qualquer significado, mas acabo de ler essa notícia da Petrobras.

Corrupção= monopólio + poder discricionário - accountability

Já dizia o ótimo Klitgaard na década de 1990. É uma equação simplista, mas muito verdadeira. Ah, se certas organizações poderosas levassem isso a sério...
Sugiro fortemente Tropical Gangsters: One Man's Experience With Development And Decadence In Deepest Africa , sobre o tempo do Klitgaard como consultor do Banco Mundial e surfista na África.

O que mata os brasileiros? (E o resto do mundo)

Aqui. Esse Global Health Data Exchange é impressionante. A ótima matéria sobre o idealizador da base está no NYT e agradeço o link ao grande demógrafo Bernardo Lanza Queiroz (@blqueiroz).

Maduro na gangorra (Video)

É uma metáfora completa demais da economia da Venezuela. Triste.

O Brasil é um país fechado

...mesmo controlando para sua área, PIB, população, indústria e até quando comparado com os demais da América Latina.

The Curious Case of Brazil’s Closedness to Trade
Otaviano Canuto
Cornelius Fleischhaker
Philip Schellekens

Abstract
Although Brazil has become one of the largest economies in the world, it remains among the most closed economies as measured by the share of exports and imports in gross domestic product. This feature cannot be explained simply by the size of Brazil’s economy. Rather, it is due to an economic structure reliant on domestic value chain integration as opposed to participation in global production networking. It also reflects more generally an export base that shows lack of dynamism. Opening up and moving toward integration into global value chains could produce efficiency gains and help Brazil address its productivity and competitiveness challenges.

Quais eram os países de renda per capita média e média alta em 1957?

Cuba no mesmo grupo do Japão; e a Venezuela junto com  Dinamarca e  Reino Unido.

O Brasil estaa na média baixa, junto com Portugal e Espanha.
Fonte: North, Douglass. Growth and Welfare in the American Past. 1966. p. 5. (Os valores não são em PPP.)

O descaso pela educação no Governo Vargas

O gráfico é ótimo, mas não substitui a leitura do paper  do Thomas Kang (que é ainda melhor).

"Eu preferia que tivéssemos encontrado água" Ministro saudita do petróleo

Vendo o impacto da crise da Petrobras nas petroprefeituras, eu lembro desse trabalho bacana sobre a maldição institucional dos recursos naturais. O Brasil é mais um caso de país cujas instituições deterioram após um boom de petróleo.
 Claro que tudo seria menos  grave se  certas pessoas tivessem lido o capítulo sobre governança das estatais de petróleo de Reinventing State Capitalism e feito as mudanças.

Dr. Dawkins gostará do resultado

Mais religião, menos inovação.
Religion and Innovation by Roland Benabou, Davide Ticchi, Andrea Vindigni - #21052 (EFG PR)
Abstract: In earlier work (Benabou, Ticchi and Vindigni 2013) we uncovered a robust negative association between religiosity and patents per capita, holding across countries as well as US states, with and without controls. In this paper we turn to the individual level, examining the relationship between religiosity and a broad set of pro- or anti-innovation attitudes in all five waves of the World Values Survey (1980 to 2005). We thus relate eleven indicators of individual openness to innovation, broadly defined (e.g., attitudestoward science and technology, new versus old ideas, change, risk taking, personal agency, imagination and independence in children) to five different measures of religiosity, including beliefs and attendance. We control for all standard socio-demographics as well as country, year and denomination fixed effects. Across the fifty-two estimated specifications, greater religiosity is almost uniformly and very significantly associated to less favorable views of innovation.

http://papers.nber.org/papers/W21052?utm_campaign=ntw&utm_medium=email&utm_source=ntw

Dois ótimos livros recentes sobre desenvolvimento brasileiro

Com muito atraso, aí vão duas dicas:
Sinceramente, ambos deveriam ser literatura requerida para quem quer discutir o desenvolvimento brasileiro para valer.

Por que uns países são tão ricos e outros são tão pobres?

Foi uma boa sacada do David Landes reunir as explicações em duas categorias:
One says that we are so rich and they so poor because we are so good and they so bad; that is, we are hardworking, knowledgeable, educated, well-governed, efficacious, and productive, and they are the reverse. The other says that we are so rich and they so poor because we are so bad and they so good: we are greedy, ruthless, exploitative, aggressive, while they are weak, innocent, virtuous, abused, and vulnerable.
Eu só percebi agora que essa dicotomia também se aplica aos debates sobre pobreza e riqueza das famílias dentro de uma mesma sociedade.

McCloskey sobre o Piketty

A resenha é diversão garantida e, como sempre, é maravilhosamente bem escrita. Ela se centra em um ponto: crescimento é mais importante que redistribuição. Claro que, no limite, ela está certa, mas é bem possível que um pouco mais de redistribuição não afete, ou afete pouco, ou até contribua com o crescimento no longo prazo.
Eu não li o Piketty, então nem sei se ela está certa ou não quando escreve sobre o livro. De qualquer forma, o texto tem trechos sensacionais. O meu predileto:
Getting the accounts right and getting the sums right within the accounts is the way that most economic questions are answered. (Eu deveria seguir isso como lema)
E esse:
Remarks such as “there are still poor people” or “some people have more power than others,” though claiming the moral high-ground for the speaker, are not deep or clever. Repeating them, or nodding wisely at their repetition, or buying Piketty’s book to display on your coffee table, does not make you a good person. You are a good person if you actually help the poor. Open a business. Arrange mortgages that poor people can afford. Invent a new battery. Vote for better schools. Adopt a Pakistani orphan. Volunteer to feed people at Grace Church on Saturday mornings. Argue for a minimum income and against a minimum wage.



Mais um livro novo: Novo Regime Demográfico uma nova relação entre população e desenvolvimento? (ed. Ana Amélia Camarano)

Os craques da área de demografia brasileira estão lá. Ainda não li os artigos com o cuidado devido, mas um gráfico me chamou atenção: a evolução da sobremortalidade masculina por faixa etária entre 1980 e 2010. O gráfico indica que, em 1980,  na faixa entre 20-24 anos, morriam 228 homens para cada 100 mulheres. Em 2010, esse valor pulou para 454 homens para cada 100  mulheres mortas. É assustador o impacto da violência nas últimas décadas.


Instituições realmente importam?

Que belos posts criticando a literatura "institutions matter"! O primeiro é só sobre as regressões cross-country, o segundo sobre o Acemoglu, Johnson & Robinson e o terceiro, bem, esse ainda não saiu.

How was life? Global well-being since 1820

Sensacional publicação da OCDE com boas notícias para todos*. Para qualquer medida de bem-estar humano, a situação melhorou como nossos antepassados não poderiam imaginar. Vejam o gráfico das expectativas de vida ao nascer.  Isso convence qualquer um e os dados de altura do Baten e cia corroboram os resultados
Na publicação, descobri também a existência do site Clio Infra: reconstructing global inequality.
*Exceto ambientalistas.

Via @ZeRobertoAfonso

E se a educação não for a solução?

Em 1940, a Argentina tinha 12% de analfabetos, enquanto o Brasil ,50%. Em 1970, apenas 7% dos hermanos eram analfabetos; um número que ainda não alcançamos. (Fonte)
No fim dos anos 80, eu ouvi de um professor meu (eu acho que foi o Barros de Castro) : "E se depois da inflação acabar descobrirmos que o problema do Brasil não é esse? E se descobrirmos que nem temos o caos inflacionário como desculpa?"
A realidade mostrou que a estabilidade foi condição necessária, mas não suficiente para o país tomar jeito. Hoje existem dois entraves consensuais ao crescimento: 1) infra-estrutura; 2) educação. A infra-estrutura é um gargalo óbvio e eu não tenho nada a acrescentar. A minha dúvida é sobre a educação.
Meu medo: fazemos um choque de educação, aumentamos o número e a qualidade do ensino e aí... nada acontece. Depois de 20 anos descobriremos que nossas instituições são uma porcaria e impedem o desenvolvimento econômico. Perceberemos que o acúmulo de coalizões distributivas* nos tornou incapazes de fazer as reformas urgentes.
Ou seja, mesmo que a educação melhore, temo que viraremos uma Argentina tropical no século XXI. Educados, mas estagnados e sem o consolo de uma Belle Époque ou de um Borges no currículo.
(Só para tirar qualquer dúvida:  é claro que eu defendo o avanço da educação. Eu defenderia mesmo se os ganhos econômicos fossem nulos.)

*Use aqui o jargão institucionalista que você quiser. Eu usei Mancur Olson.
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