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Dicas para os concursos de professor

Eu não fui selecionado em três concursos para professor, 1o lugar em outros três e fui banca de uns tantos outros. Tenho alguma experiência e,  depois de saber dos contratempos de alguns concursos recentes, compartilho o verbete Concursos do meu livro.



Manual: uma boa notícia e um pedido

A boa notícia é que a nova edição do Manual de Sobrevivência na Universidade -  atualizada e 40% mais longa-  será publicada em papel por uma editora no ano que vem. Agradeço todas as sugestões e avaliações que o ebook recebeu enquanto estava na Amazon. (Exceto a do sujeito que deu duas estrelas e escreveu algo como "Muito útil, mas só vale a pena ler o livro uma vez". )
O pedido: eu gostaria que o livro fosse apropriado para outras áreas, além da Ciências Sociais Aplicadas. E, para isso, preciso de leitores com experiência em outros campos da vida acadêmica. Quem puder ajudar, por favor, coloque nos comentários o email e a área de atuação para que eu envie verbetes selecionados para validação e sugestões. (Sei que vai ser difícil, uma vez que a maior parte dos 38473234432 leitores do blog são da área de Economia, mas imagino que conheçam outras pessoas)

Manual / Humildade científica

Humildade científica


Tal como eu, você não tem nem ideia de como uma fechadura funciona. Portanto, não seja arrogante a ponto de supor que compreendeu o funcionamento do universo. Você poderia gastar um bom tempo lendo os clássicos da epistemologia para entender que não se deve escrever "o trabalho provou" ou "demonstrei" em trabalhos empíricos. Existem boas razões filosóficas para isso e a história da ciência mostra que a arrogância está a um passo do ridículo.
Enfim, por enquanto, sem querer entrar em questões mais profundas, o melhor é ser (ou fingir ser) humilde nas suas conclusões. Escreva "o trabalho apresentou evidências em favor da hipótese", ou "as evidências sugerem" ou semelhantes. Por mais acachapantes que sejam as suas evidências, tente ser comedido nas conclusões. Arrogância, cedo demais na carreira, transforma-se em um sinal de imaturidade e desconhecimento das regras do jogo.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Gráficos

Gráficos


Os gráficos cumprem papéis distintos ao longo da pesquisa: no primeiro momento, eles são seus amigos para lhe ajudar a encontrar gremlins. Ou seja, aqueles erros de digitação ou coisas estranhas que costumam invadir os seus dados. Um histograma é o meu predileto. Se você observa picos esquisitos em alguns, vale a pena olhar com cuidado os dados-fonte. Às vezes, valores como 88888888888 ou 999999999 são usados para representar valores em branco ou não disponíveis. Um graficozinho inicial, ao revelar erros de importação, já me salvou de boas horas ou dias de trabalho. Quando você estiver confiante de que seu banco de dados está limpinho, é hora de entrar no processo exploratório de dados. Nessa fase, você busca padrões, relações entre variáveis, diferenças relevantes entre períodos ou qualquer coisa que possa ser importante para o seu problema de pesquisa. Ao longo de sua pesquisa, faça gráficos e os faça em quantidade. Guarde aqueles mais relevantes e que lhe dizem algo.
Finalmente, na hora de escrever o trabalho científico, considere os gráficos como um espaço nobre. As pessoas adoram ver figuras e já esperam que os seus gráficos apresentem o problema central, o seu argumento básico ou o resultado significativo. Raras imagens valem mais do que mil palavras. Só inclua os gráficos que contarem uma boa história. Tal como no texto, os gráficos devem transmitir a mensagem principal sem embromação, nem exigir esforço do leitor. Então, entre os gráficos que você acumulou ao longo da pesquisa, escolha os que tenham uma mensagem principal. Se estiver com dificuldade em identificar tal mensagem, talvez não deva incluir os gráficos. Lembre-se também de explicitar essa mensagem no texto do trabalho.
Supondo que você já sabe qual mensagem transmitir e o gráfico preliminar está feito, agora, é a hora de aparar as arestas virtuais. É impressionante que existam pessoas tão cuidadosas com a qualidade do seu texto, que passam horas em um parágrafo, mas que gastam apenas trinta segundos com o gráfico default do software, sem nenhuma reflexão. Capriche no visual, pense nas escalas e em tudo que possa facilitar a vida do leitor.
O primeiro passo é escolher que tipo de gráfico fazer.

Torta/Pizza

Quando usar? Use para representar variáveis categóricas em que o total some 100%. Só use valores que foram medidos no mesmo período de tempo.
Dicas: Esse é um dos mais utilizados pelos iniciantes, mas um dos menos recomendáveis.Evite ter fatias muito finas ou em número maior do que seis. O número excessivo de cores ou padrões dificulta a leitura correta do gráfico. Se necessário, agregue as categorias.

Barras

Quando usar? Variáveis medidas em com valores brutos (em R$ ou em toneladas, por exemplo).
Dicas: O valor bruto tem de ser o valor de interesse. Não use quando os dados originais são variações percentuais. Também não inclua muitas categorias de valores em um mesmo gráfico.

Linhas

Quando usar? O importante aqui é a variação e não o nível das variáveis.
Dicas: Passou de cinco linhas, especialmente se houver muitos cruzamentos, pense em outra forma de representação

Scatter (xy)

Quando usar? Ênfase na relação entre as variáveis x e y.
Dicas: Escolha bem o tamanho dos pontos. Quanto maior o número de observações, menor o tamanho. Havendo uma só categoria use pontos e não um daqueles indicadores que o Excel sugere. Nunca ligue os pontos. Identifique os outliers.
Coloque a variável independente no eixo X e a dependente no Y.

Orientações gerais

  • No Brasil, o padrão é usar títulos de gráficos bem caretas e frios. Algo do tipo: "Relação entre posse de armas por 100.000 habitantes e taxa de homicídios – dados municipais – Brasil -2010". Veja os nomes das tabelas do censo no site do IBGE para ver como eles fazem títulos muito precisos. Agora, nas apresentações, você pode ser mais relaxado e intitular o mesmo gráfico como "Mais armas, menos crimes". Em alguns meios acadêmicos, a tolerância com títulos mais relax é maior. Por via das dúvidas, seja mais conservador nos textos escritos do que nas apresentações.
  • Lembre-se dos rótulos nos eixos e as unidades de medida.
  • Prometa para mim que não vai usar o padrão do Excel 2003. Eu penso o quão infeliz era o funcionário da Microsoft que decidiu que o padrão de fundo do gráfico seria cinza e que a cor amarela nas linhas ficava bem. Rezemos pela sua alma. Nas versões posteriores, o problema ficou menos grave, mas ainda são bastante feios. Uma dica: na maior parte das áreas hard, o Excel é coisa de amador. Se o seu gráfico estiver com cara de Excel, o leitor imaginará que você não é um "profissa" do ramo. Qual software de gráficos usar então? Mais uma vez, tente ficar com a sua tribo e use aquele que os melhores da área usam.
  • Eu tenho problemas em ler gráficos em três dimensões (e muitos leitores também). A perspectiva torna mais difícil identificar as diferenças reais entre os valores. Evite 3D como se fosse a peste.
  • Sou contra o uso de gráfico para variações percentuais. Como você sabe, um aumento de 10% seguido por uma redução de 10% não nos leva de volta ao valor inicial. Um gráfico de barras ou de linhas pode dar essa impressão.
  • Sempre que possível, faça o gráfico já em escala de cinza, ou em um padrão preto e branco. Apenas poucas revistas têm impressão colorida e elas podem lhe pedir para transformar em preto e branco (ou mesmo cobrar de você por cada imagem colorida!). Não me venha com essa de dizer que precisa de cores para o seu gráfico. Se você tem de recorrer ao arco-íris é porque o gráfico está poluído. Simplifique.
  • Uso de escala logarítmica. Quando o importante for a variação da taxa de crescimento de uma valor é razoável usar uma escala logarítmica. Por exemplo, o aumento da população mundial, ao longo dos últimos séculos, foi tão grande que o gráfico com escala linear (não logarítmica) só mostra uma linha horizontal seguida de uma parede.
  • Para aprender o que não fazer, veja aqui os piores gráficos de trabalhos já publicados, com comentários em inglês.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Graduação

Graduação


A vida na graduação

Dois extremos: você estudou em colégios privados e, agora, tem todo o tempo da vida para fazer a graduação em uma faculdade pública; ou você é um dos alunos trabalhadores que, depois de se aporrinhar no trabalho, cursa Contabilidade nas Faculdades Reunidas de Unistalda.
Se está na primeira categoria, você tem a expectativa de que a universidade será uma sequência de festas, churrascos, porres e sexo ocasional. Você não ficará decepcionado. A qualidade dos eventos varia de acordo com os cursos, mas você se divertirá mais do que nunca na sua vida. Tire os primeiros dois anos de curso para aproveitar, amadurecer e queimar os hormônios e os neurônios. A partir daí, já está na hora de tomar vergonha e pensar no futuro. Afinal, ao se formar, você será um desempregado.
Por sua vez, se você é o estudante-trabalhador-que-come-pastel-e-suco-de-dois-reais, a universidade também será o melhor período da sua vida. Você não poderá festear tanto, afinal, faltará energia e terá de estar apresentável no dia seguinte. Mas, de qualquer forma, o ambiente da universidade é bem mais interessante do que o do trabalho. Boa parte dos professores não é tão mala quanto o seu chefe, e você pode ter um diálogo mais aberto.

O segredo

Talvez você já tenha aprendido o segredo. Talvez não. Quando temos 18 anos, nosso cérebro ainda não está plenamente desenvolvido e nos achamos muito importantes. Na escola, você provavelmente tinha ao menos um professor preocupado com o seu aprendizado e que compartilhava os seus sucessos (e ocasionais fracassos) com os seus familiares. Tudo isso reforçava a ideia de que o seu aprendizado era mesmo importante.
Então, vou contar o doloroso segredo: os professores universitários não estão preocupados com você. Você é apenas mais um rosto, um aluno a mais na lista de chamada, uma prova a mais para corrigir. Só. Talvez por autodefesa, pois caso venham a se preocupar com o aprendizado de cada um, vão se frustrar. Então, eles só não querem que você crie problemas. Só isso já está bom.
Eu não quis ser rude com você. Nada pessoal. Você e eu estamos entre os 100 bilhões de pessoas que já viveram na Terra. Arredondando, você = nada. Claro que, para você, sua vida é o que importa, mas não espere que o professor pense o mesmo. Assim, quando você se achar muito "ixperto" por ter enganado o professor pelo trabalho que copiou ou pela assinatura falsificada na lista de chamada, não se iluda. Na verdade, o professor percebeu, mas não quis se incomodar. A razão é que no fundo ele não se importa com você. Entendeu o segredo?
O único jeito de você ser importante para seu professor é se tornar um ótimo aluno. Um daqueles que ele se orgulhará de ter tido como aluno. Bem, ele se vê um pouco em você e acha que será capaz de conduzir a sua carreira ao sucesso profissional. Isso vai dar um pouco de sentido na vida de um mestre que envelhece rapidamente.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Google

Google


Tem certeza que você sabe usar o Google? Já vi gente fazendo buscas assim "quero todos os artigos bons sobre o assunto x". Dá dor no cérebro ver alguém fazendo isso.
Existem alguns recursos os quais eu duvido que você use e são fundamentais para você encontre aquele texto que o Periódicos Capes não tem. Basta colocar o título entre aspas e um "filetype:pdf", e o Google encontra o texto na página do autor ou de algum congresso. Isso resolve meus problemas uns 80% do tempo e poupa uma ida à biblioteca (se o texto for mesmo útil, recomendo que você obtenha a versão publicada do artigo).

Dicas de busca para o Google

  • Frase inteira. Basta colocar o trecho entre aspas para buscar o trecho:

 "estrutura social": Busca as páginas com o termo "estrutura social".
  • Busca exata. Impede o Google de tentar adivinhar o que você quer e de corrigir os seus erros de digitação:

"econômia": encontra todas as páginas em que ignorantes, analfabetos e toscos em geral escreveram "economia" com acentuação errada. Em outubro de 2012, resultava em 406 mil páginas.
  • Excluir palavra. Permite que você encontre todas as páginas ou documentos que não têm a palavra um "–" antes da palavra que deve ser excluída.

"classe social" – marketing: Busca as páginas com o termo "classe social", mas exclui as que possuam a palavra "marketing".
  • Buscar dentro de um site. Limita a busca ao site ou à parte do endereço do site.

"estrutura social" site: br: Busca o termo "estrutura social" em páginas brasileiras.
"estrutura social" site: gov.br: Busca o termo "estrutura social" em páginas do governo brasileiro.
  • Tipos de arquivo. Só considera na busca certo tipo de documento. Funciona com todo o tipo de documento. Permite que você busque apenas os arquivos Excel (XLSX), Word (DOCX), Powerpoint (PPTX) e Acrobat (PDF). A propósito, se você usar "ext:" também funciona.

"estrutura social" site:gov.br filetype:pdf: busca arquivos PDF que têm o termo "estrutura social", dentro dos sites do governo brasileiro.
  • Um termo ou outro.

"estrutura social" OR "classe social": Busca páginas que tenham o termo "estrutura social" ou "classe social"
  • Preencher uma lacuna.

"Segundo *, a estrutura social é ": Busca as páginas que contêm a expressão entre aspas, mas substitui o * por qualquer termo.
Suponha que você queira artigos PDF sobre "direito do trabalho", mas que não trate de "apostilas", nem "provas", nem que conste o site conjur.com.br. A busca fica:
"direito do trabalho" filetype:pdf -apostila -prova -site:conjur.com.br

Dicas para o Google Acadêmico:

O Google acadêmico é a coisa mais fantástica já inventada desde a Diet Pepsi. A busca avançada é superpoderosa, permitindo que você limite a busca por período ou mesmo periódico. Para usar esse recurso, clique na seta, logo ao lado da caixa de busca.
As dicas gerais do Google seguem válidas e você pode usar ainda os seguintes recursos:
  • Busca por nome de autor:

author: Flores Busca artigos cujo nome do autor é "Flores", mas não artigos sobre flores.
  • Busca por expressão no título.

intitle: Flores Busca artigos que têm a palavra "Flores" no título.
Antes de virar um ás na busca do Google Acadêmico, não se esqueça de ver a interação do mecanismo de busca com o Zotero.

Manual / Formatura

Formatura


A festa de formatura existe para satisfazer e quebrar as finanças dos seus pais. A regra geral é que a formatura é tão mais importante quanto menos esperado é o feito. Da mesma forma que o Fernando Alonso não comemora tanto a vitória quanto o Rubinho.
Nos últimos anos, há uma tendência a festas cada vez mais elaboradas e de gosto mais questionável. Em um ano, balões coloridos caem do teto, no ano seguinte, um helicóptero solta pétalas de rosa sobre os formandos. No final das contas, o dinheiro é seu - ou da sua família - e você pode gastar nas extravagâncias que quiser. Mas é uma boa ideia não se deixar levar pela competição com outras festas e pela última moda.
Qualquer um que faça o discurso em uma formatura, orador ou paraninfo, tem apenas uma obrigação: ser breve. A maior parte da plateia não está lá por você e sim pelos outros (Alguns apenas esperam o jantar e a festa). A maior parte das formaturas ocorre nos dias mais quentes do verão, e um discurso breve é mais memorável do que uma longa e enfadonha lembrança dos melhores momentos dos últimos quatro anos. Três páginas impressas no máximo, em ambos os casos.
Sobre o conteúdo dos discursos, é um mau momento para lembrar as falhas do curso. Por definição, na formatura, já é tarde demais para corrigir qualquer coisa e palavras duras só servem para pôr um tom amargo na festa.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Estudo

Estudo


"Quem lê, não estuda", um professor meu dizia. Isso é a pura verdade, ficar só lendo a matéria não resolve nada. Você lê, lê, lê o mesmo parágrafo e a cabeça começa a viajar. Depois de algum tempo, você se autoengana que entendeu a matéria, mas não lembrará de nada em um par de horas. Esse princípio vale para todas as áreas, mas a tentação de só ler é maior naquelas em que dá para estudar deitado, ou seja, as ciências humanas.
Não fique só na leitura. Faça exercícios, explique a matéria para você mesmo, elabore resumos. Qualquer coisa é melhor do que só ler os textos da disciplina.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Frequência

Frequência


A maior parte das universidades brasileiras cobra presença dos alunos de graduação. Isso não acontece nas universidades dos EUA nem da Europa (Portugal, eu não sei. Mas Portugal fica perto, porém não exatamente na Europa).
Como professor, eu tenho sentimentos opostos sobre a presença. Claro, incomoda que, nas vésperas da prova, apareça um monte desconhecidos querendo aprender o conteúdo em dois dias. Isso ocorre quando a presença não é cobrada. Por sua vez, é um tanto peculiar que adultos sejam cobrados por estarem onde escolheram estar. Os argumentos para defender a cobrança de presença são estranhos. Quando comecei a dar aulas, um coordenador me disse que eu deveria cobrar presença porque "se um aluno cometer um homicídio, ele pode usar a sua lista de chamada como prova para escapar da cadeia". Ele falava sério.
Eu recomendo que você assista à aula. Se você for estudioso, será uma oportunidade de tirar dúvidas e perceber as nuanças do tema apresentado. Se você não for estudioso, acaba aprendendo algo, nem que seja por osmose.
Na sala de aula, não tente enganar o professor fazendo perguntas vazias para ganhar pontos por participação. Isso poderia funcionar nas aulas do primário, mas a maior parte dos professores é hábil em perceber quando um aluno não leu a matéria e só quer fingir que é ativo.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Escrita

Escrita


Alguém já disse que o texto fácil de ler foi difícil de escrever. Aqueles que dizem que "adoram escrever", raramente, escrevem bem. Escrever bem é trabalho e, como tal, não é prazeroso. Escrever é difícil porque, quando você coloca as ideias no papel, as incoerências, falhas do argumento e mesmo sua ignorância ficam claras. Escrever um texto com sentido implica em superar essas falhas. Lamento, mas essa é a dor do parto do texto, especialmente, o científico.
Sim, existem exceções: pessoas que escrevem muito bem sem esforço. Essas exceções, exceções são, ora bolas. A má notícia é que esse talento é inato. Não adianta nem tentar ser um grande escritor. Ou você nasce com o talento ou não. A boa notícia: ser um escritor bem bom é quase fácil. Basta você seguir algumas regras simples e seu texto vai ser bom o suficiente para que todos gostem.
Um texto bom convence as pessoas. O mundo é um lugar muito interessante e existem muitas coisas melhores no mundo do que ler um texto científico. Portanto, a sua primeira tarefa é capturar a atenção do leitor e convencê-lo de que o seu artigo diz algo interessante.
Para cativar o leitor, você não precisa ser um gênio da língua portuguesa. Basta que você escreva de forma clara em um texto estruturado e claro. Lembre-se: leitor descansado = leitor feliz = leitor generoso. Isso também não é fácil, mas - seguindo algumas regras (e quebrando outras) - é tarefa perfeitamente alcançável:
  • A maior parte dos textos que você gosta foi reescrita e retrabalhada várias vezes. Alguém também já disse: "Não existe texto bem-escrito, só texto bem reescrito". Não se envergonhe de fazer isso, é uma necessidade.
  • Tenha um leitor cobaia da sua área. Se ele não entendeu o texto, a culpa é sua. Repetindo: a culpa é sua. Reescreva o texto.
  • As duas partes mais importantes do seu trabalho são o Resumo e a Introdução. São nelas que o leitor vai primeiro passar os olhos para descobrir a razão de ser do seu paper.
  • O texto é escrito ao contrário da ordem de leitura. A Introdução e o Abstract são as últimas partes escritas de qualquer trabalho científico. Só depois de concluir é que você poderá dizer o objetivo do trabalho. Se você é totalmente linear e faz questão de fazer tudo na ordem, ok. Mas lembre-se que será trabalho perdido. Você terá de trocar tudo.
  • Parece uma obviedade, mas você precisa aprender a usar o seu processador de texto. Hoje é mais raro, mas era muito comum ter gente que fazia o recuo da primeira linha usando Tab ou vários espaços. Aprenda a usar os estilos do Word. Sua vida vai ficar bem mais fácil.
  • No corpo do texto, cada parágrafo deve ter uma ideia e - de preferência - ela deve ser exposta na primeira frase. A nossa professora de escola já tinha nos ensinado que para cada ideia deve corresponder um parágrafo, mas ela - talvez pensando que continuaríamos escrevendo textos narrativos como "Minhas férias"- esqueceu-se de falar desse truque da primeira frase em textos argumentativos/expositivos. Ou seja, logo na abertura o parágrafo, já deve dizer a que veio. As frases seguintes são apenas para desenvolver e detalhar o que foi dito no começo. A última frase do parágrafo é também muito importante. Ela deve retomar a ideia inicial ou abrir caminho para o próximo parágrafo. Às vezes, essa estrutura de parágrafo não vai ser possível. Tudo bem. Mas tente se obrigar a pensar no texto dessa forma.Você pode repetir palavras. Eu sei que a sua professora ensinou a evitar isso, mas é pura perda de tempo ficar buscando sinônimos para palavras que, ao longo do seu texto, têm de ser repetidas. O leitor pode até achar que você está falando de outra coisa se o sinônimo não for perfeito.
  • Fingir profundidade com frases longas e palavras obscuras ou vagas funciona com uns figurões de algumas áreas das ciências humanas. Para mim, os textos dos grandes "intelectuais" só fazem com que os meus fusíveis mentais rompam na tentativa de proteger a minha cabeça. Isso gera sono ou o desejo de incendiar o livro. Esses figurões alcançaram tanta importância que os leitores suam para entender aqueles parágrafos incompreensíveis. Como você não tem esses seguidores, o jeito é ser bondoso com o leitor e se esforçar para tornar a leitura mais fluída possível.
  • Alguém disse "escrever é cortar palavras"; É a mais pura verdade. Releia o texto e procure primeiro pelos advérbios. Eles são os candidatos a serem cortados primeiro. Eu costumo fazer uma busca por "mente" e apago os que não são essenciais. Tenha cuidado também com o "queísmo", aquela mania de colocar "que" desnecessários nas frases.

Resumo

Ao invés de começar o Resumo dizendo que:
"O tema da influência da televisão na saúde mental de adultos tem sido muito discutido ultimamente e é bastante interessante. Em vários estudos, por todo o mundo, encontrou-se evidência que a exposição... (bocejo)... (bocejo)... (ronco)".
Diga:
"Cada hora diária a mais na frente da televisão aumenta as chances de ter esquizofrenia em 16%. Esse resultado foi obtido a partir de um banco de dados com..."
Não ficou melhor?

O arquivo lixo

Uma das coisas mais preciosas quando se escreve é um arquivo chamado "lixo.docx". Quando você escreve, tem horas que você se solta e começa a ter ideias que parecem sensacionais. Depois, relendo o texto, você verá que elas não são tão boas assim. Você fica tentado a apertar o Delete, mas não quer perder o seu suado trabalho. A solução é copiar o trecho para o arquivo lixo.
Você vai notar que a mera existência do arquivo lixo lhe deixará mais solto na hora de escrever e também mais corajoso na hora de cortar o seu texto na revisão. De tempos em tempos, passe os olhos no arquivo e veja se há alguma ideia que deve ser recuperada para o texto principal ou ampliada.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Epígrafe

Epígrafes


  • A função daquela frase entre aspas é mostrar para o leitor quem você é sem que ele tenha o trabalho de ler o texto. Capriche.
  • A melhor fonte de epígrafes está no seu próprio caderno de campo. Nas suas leituras, se você fez direito, deve haver uma frase muito boa que se encaixa bem no espírito do trabalho.
  • Eu já vi de tudo como epígrafe: trechos da bíblia, poesia e letras de música. Mas nada de pegar aquelas frases compartilhadas no Facebook com máximas atribuídas ao Gandhi, Chaplin ou ao Einstein. Por via de regra, eles não foram os culpados por aquelas frases com milhares de "Curtir". Livros de citações também devem ser evitados porque as boas frases já foram usadas.
  • Resumindo, a epígrafe é o chapéu da tese. Bem-escolhida, ela marca o seu trabalho; mal-escolhida, a epígrafe só mostra que você é um babaca.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Email

E-mail


  • Naum ixcreva com ortografia da internet. Parece q vc eh um idiota. Huahuahahau;
  • Nunca mande aqueles e-mails com pedidos para crianças doentes, dia do amigo, correntes ou qualquer outra coisa com arquivos PPT para os pesquisadores.
  • Se for mandar mensagem para a sua lista de amigos, coloque os endereços no campo "Com cópia oculta" ou "Cco" (Bcc, se o seu programa de e-mail é em inglês). Isso impede que algum dos seus destinatários, um mais mal-educado, use a lista de e-mail que você mandou para distribuir lixo aos seus amigos.
  • Na comunicação na academia, não use endereços eletrônicos engraçadinhos ou que revelam seus desvios de personalidade. Ex.: pitbull82@hotmail; beto_flamengista@yahoo.com.br; 30cm20anosSM@uol.com.br.
  • Não use a letra maiúscula. Nunca. Quando você trava o capslock parece que você está GRITANDO. Não use o capslock, nem quando você quiser gritar no e-mail. Afinal, berrar com os outros é feio (veja a última recomendação).
  • Cuidado com o tamanho dos anexos. Depois do Gmail e das conexões de banda larga, os limites aumentaram. Como regra de bolso, sugiro 1 mega como o tamanho máximo de arquivo. Se você tem arquivos bem maiores do que isso, existem três alternativas: a) fazer o upload de arquivo para algum serviço on-line. Você só envia um link para o destinatário; b) Escrever antes para a pessoa, perguntando se pode mandar; c) Gerar um arquivo PDF. Os arquivos Acrobat tendem a ser bem menores do que os do Word, especialmente, quando estes têm gráficos, tabelas e figuras incorporados.
  • Sobre o tempo de resposta de um e-mail: para aqueles que exigem uma resposta urgente, espere até uma semana para repetir o pedido.
  • Nem pense em tirar dúvidas sobre os conteúdos da disciplinas disparando e-mails contra o professor. Marque um horário de atendimento.
  • Nunca mande algo secreto ou privativo por e-mail. Encare e-mail como um cartão postal. Tudo que você escreve não só pode ser lido por qualquer um, como pode ficar no equivalente digital de uma mesa em que todos podem ler.
  • Nunca mande e-mails quando revoltado ou bêbado. Eu sei que é difícil cumprir essa recomendação, mas tente internalizá-la com se fosse um tabu. Está com raiva? Não preencha o campo "Para", escreva com toda a fúria, mas resista a clicar no "Enviar". Guarde nos "Rascunhos". No dia seguinte, mais calmo e/ou de ressaca, as coisas terão outra perspectiva.
  • E-mails não têm tom de voz e isso pode gerar muitos desentendimentos. Ironias são imaginadas, sarcasmos lidos nas entrelinhas e desprezo entendido em frases inocentes. Às vezes, é melhor pegar o telefone e ligar para resolver a treta ouvindo a voz do interlocutor do que perder seu tempo digitando furiosamente até que tudo fique esclarecido.
  • Se você pediu alguma coisa por e-mail, e a outra pessoa fez, não esqueça de mandar um e-mail de gratidão. Mesmo que você tenha incluído um "Desde já grato" no e-mail pidão, não custa nada um "Muito obrigado" em retribuição. Se fosse ao vivo, você agradeceria. Então, não há razão para não ser igualmente bem-educado no e-mail.

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Manual / Defesas

DEFESAS

Enfim, a hora se aproxima. Você já está prestes a entregar a versão para a banca, não aguenta mais ver a cara do orientador (e vice-versa). Chegou a hora.
Fique tranquilo. Se o seu orientador aceitou que você vá para a banca existem duas possibilidades: a) Seu trabalho é no mínimo razoavelmente bom e, apesar de sofrer, você será aprovado no final das contas. Uma coisa que qualquer orientador morre de medo é de passar vergonha na frente dos colegas. b) Seu orientador é doido ou um mau-caráter (ou ambos) e quer levar você para os leões como jantar. Se isso acontecer, o que é muito improvável, você não tem muito que fazer. De qualquer modo, você vai ter de fazer o seu melhor na apresentação.
A sua defesa é tão importante quanto a sua primeira vez. E tão apavorante quanto. Outra semelhança: por mais que você tenha praticado, as outras partes são mais experientes do que você. A principal diferença – eu imagino – é que na tese ninguém estará bêbado.
Procedimentos para uma defesa feliz:
Leia o verbete Tese.
Você viu um erro horroroso depois de ter enviado a tese? Não entre em pânico. Faça uma errata e envie por e-mail para o seu orientador avaliar e encaminhas aos membros. Na hora da defesa, peça desculpas para a banca e distribua cópias da errata antes do começo da defesa. Mas isso só para erros feios mesmo. Para pequenos tropeços, deixe estar e só corrija na versão final. A banca precisa de algo para se alimentar.
Tenha uma versão da tese com a mesma paginação da que foi distribuída para a banca. Nada pior do que ficar indo e voltando nas páginas para achar o trecho que o membro da banca está se referindo.
A defesa não é o momento para sentimentalismos nem agradecimentos rasgados. Você pode ser mais informal e até contar um pouco dos bastidores e motivação da pesquisa, mas não exagere na informalidade.
Não discuta com a banca. Defenda seu ponto e o seu trabalho. Você vai ser criticado e algumas críticas serão injustas. Você não precisa sair da sala tendo convencido toda a banca de que tem razão. Esfrie a cabeça e responda sempre tentando evitar o confronto direto. Exemplo. Se o membro da banca disse uma sandice completa, ao invés de dizer: "Que absurdo! Nunca houve bobagem maior na vida", você pode dizer - sem tom de ironia: "Infelizmente, eu não conheço a literatura ou os autores que defenderam esse ponto".
Não tente responder a todas as perguntas. O normal é o membro da banca fazer as perguntas em sequência. Vá anotando e, quando for a sua vez de falar, responda aquelas que você está seguro. Às vezes, o membro da banca não entendeu um ponto trivial e vai ser fácil responder. Se for mesmo impossível saltar as questões mais cabeludas, não há problema em agradecer a "ótima" pergunta e dizer que não tem certeza para a resposta, mas que vai examinar a questão.
Curada a ressaca da comemoração, corra para fazer as correções sugeridas pela banca. Procrastinação é imperdoável nesses casos. Livre-se logo do encosto e toque a sua vida!
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / DCEs e centros acadêmicos

DCEs e centros acadêmicos


Frequente o DCE se você tiver dois interesses: maconha e sexo com pessoas de hábitos de higiene pouco rigorosos. É natural que isso atraia a sua atenção durante alguma fase da sua vida (um final de semana, de preferência), mas o DCE traz riscos para a saúde. Você vai ver a barba crescer e você vai começar a achar que as camisetas do Che Guevara lhe caem bem. Se você ficar muito tempo no CA, você se transformará no homo oligo-sapiens passeatotum e em tudo aquilo que você, em 15 anos, repudiará.
Existe gente que pensa que o DCE é o primeiro passo em uma carreira bem-sucedida na política partidária. De fato, vários políticos bem-sucedidos passaram pelas reuniões esfumaçadas do DCE. Mas correlação não significa causalidade e muitos políticos fracassados, que hoje não ganham nem eleição de síndico, também passaram pelos DCEs. Politicamente, os DCEs ocupam o espectro político entre a extrema esquerda e a esquerda-que-perdeu-o-senso-de-realidade. Os que se dizem independentes geralmente não o são; são facções de partidos ou grupos que querem novos membros.
Certos DCEs perdem o senso de importância e passam a discutir a questão da Palestina e votam moções contra o imperialismo yankee durante as reuniões. Imaginem o impacto na Casa Branca quando eles souberem disso! Para entender melhor a lógica desses grupos radicais, sugiro o documentário A Vida de Brian, do Monty Phyton.
Os centros acadêmicos, por sua vez, tendem a ser mais próximos do dia a dia dos cursos e mais livres de discussões políticas. Com isso, podem ser locais interessantes e, com sorte, contribuir para a discussão e solução das questões dos cursos. Basta ter senso de ridículo e reconhecer os limites da ação dos CAs.

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Manual / Dados

Dados


Nos cursos universitários, você tem a oportunidade de aprender as técnicas apropriadas de análise estatística. Mas, às vezes, os professores se esquecem de transmitir alguns dos cuidados básicos.

Faça gráficos

Antes de começar a trabalhar, faça um gráfico dos seus dados. O primeiro motivo é que as coisas mais estranhas acontecem: erros de codificação, problemas com vírgulas, intervenção divina. Se houver valores anormais, eles aparecerão nos seus dados. Um bom jeito é fazer um histograma rápido para entender a distribuição das variáveis.
O outro motivo para fazer o gráfico é entender a relação entre as suas variáveis de interesse. O quarteto de Anscombe mostra quatro conjuntos de dados que têm média, variância e correlação muito próximas mesmo. Contudo, como é fácil ver, a relação entre as variáveis é completamente distinta. Faça então uns plots com as variáveis relevantes para o seu estudo.

Dicas gerais

Faça um arquivo de controle de seus dados, com a fonte precisa dos dados e todas as exclusões e modificações que você fez no banco de dados. Nesse arquivo liste o nome do arquivo e as alterações feitas. Com esse arquivo, você deve ser capaz de refazer todos os passos, desde os dados brutos até o resultado final.
;Aprenda a usar ao menos o básico do Excel. Mesmo que sua área seja como Literatura ou Linguística, você vai se surpreender quando descobrir suas mil e uma utilidades. Nem que seja para calcular as médias dos alunos ou para organizar as suas finanças pessoais, o programa será uma mão na roda. Usar bem o Excel deveria ser uma daquelas habilidades básicas da vida, como fritar um ovo.
Se você trabalha em uma área qualquer intensiva em dados, eu sugiro ficar bamba não só em Excel, mas no software mais popular da sua área que permita a programação. O motivo é simples: mesmo se for apenas para limpar os dados, com o código de programação, você terá o registro de todas as exclusões e modificações que fez. Além disso, você poderá utilizar novamente seu código se necessário. No Excel, caso aconteça alguma atualização, você precisará clicar-copiar-colar-deletar novamente e poderá errar no processo.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Congressos

Congressos


Os congressos são muito importantes, especialmente no começo de sua carreira. Eles são a oportunidade de você conhecer novas pessoas, ter uma panorâmica da comunidade e – o mais importante –perceber se quer fazer parte do meio acadêmico. Se aquele monte de gente parecida com você, discutindo os mesmos assuntos por três dias lhe agradar, é sinal que você está na carreira certa.
Alertas:
  • Tem surgido muitos congressos picaretas, com nomes bacanas (Interplanetary Conference on Technology, Media and Science) que são meros caça-níqueis e sem valor acadêmico. Orlando, Acapulco e Las Vegas são destinos comuns. Fuja disso, eles só querem o seu dinheiro. Se você quiser ir para esses lugares, use as suas férias.
  • É muito feio mandar o paper e nem ter planos de comparecer. Sua ausência é, por vezes, perdoável porque as fontes de financiamento tendem a dar a resposta muito em cima da hora. Caso você não possa mesmo ir, faça um favor aos organizadores, avise-os por e-mail assim que souber. É horrível entrar em uma sessão em que os papers são cancelados pela ausência dos apresentadores. Tumultua a ordem dos trabalhos e parece que você tratou o evento com desleixo.
  • ;No mais, divirta-se. Assista a todas as sessões. Tal com os filmes ruins, por pior que sejam as apresentações, a gente sempre aprende alguma coisa. Já as boas sessões podem ser melhores do que o melhor filme. Curta o papo no coffee break e aproveite a celebração de ter gente igual a você por perto.


Manual / Concursos para professor

Concursos para professor


Você terminou o doutorado e agora precisa ganhar a vida. O negócio é fazer um concurso para a carreira docente. Quer nas públicas, quer nas privadas a lógica é mais ou menos a mesma.
Antes de tudo, leia o edital. Leia mesmo. Em voz alta e marcando o texto. Já vi candidatos bons rodarem porque esqueceram um documento ou não viram que a prova era com consulta a livros.
Admito que existem concursos armados. Na minha área, eu já soube de alguns, mas não é um problema endêmico. Uma coisa é a banca já ter simpatia por algum candidato; outra é a mutreta esculachada. Muita gente, má perdedora, gosta de espalhar que tudo no mundo acadêmico é armação. É verdade que tem gente ruim aprovada, mas os bons sempre conseguem, cedo ou tarde, a sua posição ao sol.
Os critérios são subjetivos, então, é compreensível que, na dúvida, a banca escolha alguém que já tenha informação anterior. Daí a importância de estar bem-preparado na hora da prova, mesmo em um concurso em que há um queridinho: é muito constrangedor para a banca aprovar quem teve um desempenho evidentemente melhor do que os outros.
Uma dica para identificar se há armação é atentar para a abrangência da área. Se for algo muito específico que menos de meia dúzia entende e são todos amigos entre si, tenha certeza que é picaretagem. No outro extremo, concursos bastante divulgados tendem a ser mais honestos. Se você esbarra no anúncio do concurso em um monte de lugares, geralmente isso indica que se busca os melhores candidatos.
Na prova didática, siga as recomendações para as apresentações de congressos e uma adicional: respeite o tempo. Na maioria dos editais, existe uma definição bem rígida da duração da prova e uma banca honesta tem de tirar os pontos do candidato que perde a hora. Duas sugestões: se a sala não tiver relógio, use a) o alarme silencioso do celular no bolso da calça; b) se houver clima para tal, pergunte ao presidente da banca se ele poderia dar um aviso quando o limite mínimo e máximo se aproximassem.
Fundamentalmente: não pareça ser encrenqueiro na hora da prova. Lembre-se que a banca está escolhendo quem vai ser o seu colega por boa parte do tempo de sua vida. E nada pior do que um colega que arruma confusão nas reuniões, briga com os alunos ou com a direção. Então, nada de conflitos ou polêmicas pelos seus "direitos" com a banca. Não precisa ser humilde; basta não ter uma postura de confronto.
Por fim, mesmo que o número e a qualidade dos candidatos lhe assustem, vale a pena participar. Eu já vi candidatos ótimos ficarem de fora de um concurso porque temeram perder uns para os outros. Na hora final, só os medíocres apareceram e acabaram sendo aprovados. Na dúvida, compareça.

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Manual / Coautoria

Coautoria


Conforme as ciências ficam mais complicadas e a especialização cresce, nada mais natural do que contar com o apoio de seus colegas de ofício. A complementaridade entre os autores faz com que você aumente a sua produtividade e dê um gás ao seu currículo.
Em certas áreas, o número de coautores ficou ridículo. Existe um texto da área de Física com 2.991 autores. Imagino que para produzir aquele punhado de páginas foram necessárias milhares de horas, em dezenas de laboratórios. Então, nesse caso, não há problema.
Qual o número ótimo de coautores? A escolha do número de coautores é complicada. Coordenar o trabalho de vários autores cresce exponencialmente, especialmente quando o texto for mesmo feito a várias mãos. E as chances de incluir um mala que vai encher o saco dos outros também cresce. Cuidado, então, ao convidar, porque desconvidar é bem problemático. Quanto mais gente no projeto, maiores as chances dos aproveitadores se esconderem na lista de autores.
Algumas áreas, geralmente ligadas às Ciências Biológicas, costumam definir muito bem quem faz cada parte da pesquisa. Tipo: Fulano matou os ratinhos, Sicrano os ressuscitou e Beltrano eliminou os ratos zumbis. Isso é uma prática bem interessante, mas pouco usual nas ciências humanas e sociais aplicadas.
A questão da ordem dos autores varia muito. Em algumas áreas, o normal é a ordem alfabética; em outras, em ordem de contribuição para o artigo. Claro que medir isso é muito complicado. Afinal, cada um tende a superestimar a sua relevância para o trabalho final e isso pode gerar conflitos.
Quando a ordem alfabética não é seguida e todos tiveram a mesma contribuição, eu sugiro privilegiar os autores que estão nas fases iniciais da carreira. Uma exceção: nos trabalhos com grandes equipes, o coordenador do laboratório costuma ser o último da lista. Ele é também o "corresponding author", ou seja, aquele que é - no final das contas – o responsável pelo artigo.
O mais normal é que o seu orientador seja coautor na sua primeira publicação. Nesse caso, a fronteira ética é tênue. Quando o orientador efetivamente participou da confecção da versão para submissão, é certo que ele deve constar como coautor. Agora, quando ele lhe orientou, mas não contribuiu com uma vírgula adicional para a versão submetida, existem aqueles que acham isso errado. Eu não vejo muito problema, afinal, ele contribuiu para o conteúdo do seu trabalho. Deixo essa discussão em aberto.

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Manual / Ciência e picaretagem

Ciência e picaretagem


Richard Dawkins, citando um editor da New Scientist.
No distante século XX, muita gente sofria de úlcera. Não só a doença era um incômodo permanente, mas também os doentes tinham dietas bem restritas e tomavam remédios diários. Para os médicos, as causas da doença eram o estresse e a alimentação inadequada. Na década de 1980, os médicos Gary Marshall e Robin Waren suspeitaram que a causa poderia ser uma obscura bactéria. Como ninguém acreditava nos pesquisadores, Gary tomou uma atitude radical (e nojenta): tomou um potinho cheio da bactéria suspeita. Bem rápido, ele ficou com uma úlcera horrorosa. Antibióticos o curaram. Em 2005, Gary e Robin ganharam o Nobel de Medicina.
Esse é um bom exemplo do sucesso da ciência. Parece até um filme ruim de Hollywood, mas é uma história real que está de acordo com os sonhos dos cientistas. Gary e Robin tinham uma hipótese que a comunidade científica repudiava, bolaram um teste que poderia mostrar que eles estavam com a razão e acabaram convencendo todo mundo.
Mas será que todo campo científico se encaixa nessa metodologia? Bem, vamos lá. O filósofo da ciência, Karl Popper – o mais influente do século XX – afirmava que hipóteses científicas são aquelas que podem ser mostradas como falsas. Se não houver jeito de mostrar que são falsas, então, não é ciência, é picaretagem. Por exemplo: uma cartomante que diz que a leitura só funciona quando o cliente tiver fé nunca pode ser desmascarada. Quando errar, ela sempre pode culpar o cliente. Um "cientista" que não tem uma hipótese testável ou arruma sempre um desculpa, sempre terá razão, assim, ganhará a discussão. Mas uma vitória em um jogo em que é impossível perder não é vitória.
Em outras palavras, na visão de Popper, uma ciência empírica deve formular hipóteses falseáveis. Deve existir a possibilidade de suas hipóteses se mostrarem falsas. "Amanhã acontecerá um eclipse do sol às 13h", é uma das coisas mais fáceis do mundo de testar.
Já as afirmações "Pena de morte para estupradores reduz o crime" ou "Vitamina C prolonga a vida" são testáveis, mas tremendamente mais complicadas de testar do que as hipóteses mais simples. Muitas outras coisas influenciam a criminalidade e a longevidade, sendo muito difícil determinar a causalidade. Em tese, os estupradores podem matar mais mulheres para que tenham menos testemunhas. Pessoas que tomam vitaminas podem ser mais cuidadosas com a sua saúde, ou mais ricas que as demais. Mesmo assim, ambas as afirmações são científicas porque podem, ao menos em princípio, serem testadas e mostradas falsas.
Já afirmações como "deus nos ama", "os sonhos são expressões do inconsciente" ou a "a luta de classes é o motor da história" não são Científicas com C maiúsculo. As pessoas que acreditam na veracidade delas não podem (e nem querem!) propor testes de suas hipóteses.
O físico Carl Sagan conta uma história que ilustra bem esse problema das afirmações não falseáveis. Um sujeito conta para um cientista que tem um dragão vivendo na garagem. O cientista diz: "Ótimo? Vamos lá ver". Aí o maluco diz: "É, mas ele é invisível!". O cientista replica: "Sem problemas, vamos jogar farinha no chão da garagem para ver as pegadas". E o doido: "Pena que o dragão só voa". Aí o cientista continua: "Vamos jogar tinta no ar!". Resposta: "O dragão é feito de um material cuja tinta não adere...".
Para cada proposta de testar a hipótese "existe um dragão na garagem", o maluco (ou picareta?) vinha com uma saída que tornava impossível testá-la. O cientista foi incapaz de provar que o dragão não existe, mas de forma nenhuma isso prova que o dragão está lá. Exatamente o contrário é verdadeiro. Uma hipótese passível de refutação é simplesmente não científica. Chame a polícia ou o hospício.
Um ponto importante na visão popperiana é que você só pode falsear ou deixar de falsear uma teoria. Por mais observações que estejam de acordo com a sua hipótese, não há como ter certeza de que se está sempre certo. Pode ser que as hipóteses sejam válidas só em algumas situações e não em outras. Veja a Física que aprendemos no ensino médio. Aquelas leis de Newton funcionam em um monte de situações. Além de lhe tirarem o sono na véspera da prova, as leis servem para calcular quantas horas vai demorar uma viagem, ou a trajetória aproximada de um tiro de canhão. Agora, as leis perdem o sentido quando tratamos do muito pequeno, ou do muito rápido. Não é que o velho Newton errou no sentido trivial do termo, mas apenas que a sua teoria tem limites de validade. Dr. Einstein e cia. tiveram de vir em socorro e ampliaram o objeto da Física.
Por mais que se tenha evidências de que uma hipótese científica é verdadeira, nunca se pode bater o martelo em favor de uma teoria. Só dá para bater o martelo "contra" uma teoria. Nunca a favor. Corte os termos "prova", "comprova" e "verifica" de seu vocabulário. Você só consegue não falsear uma hipótese. Existem profundas explicações de Filosofia da Ciência para isso, mas, por enquanto, basta você assumir a humildade científica. Lembre-se que o ser humano não passa de um macaco ridículo, medroso, em um pedaço de terra que gira ao redor de uma estrela irrelevante. Achar que você entendeu uma lei definitiva da natureza ou da sociedade seria muita pretensão.
Tem gente que diz que a psicanálise estaria no mesmo nível da cartomancia: afinal, qualquer coisa que aconteça pode ser explicada por um analista hábil. A psicanálise, junto com boa parte da Antropologia, não tem hipóteses testáveis. O negócio é interpretar os eventos dos indivíduos e das sociedades. São ciências interpretativas que não fazem previsões. Esses campos almejam dar sentido às coisas. Quando um antropólogo vê cerimônia em uma ilha perdida do pacífico, ele tenta entender qual o papel daquele ritual, interpretá-lo.
Por mais que eu seja fã da visão popperiana, penso que as antropologias ou as psicanálises da vida não devem ser rotuladas como não científicas. Tudo bem que elas não apresentam hipóteses falseáveis. Julgá-las pelas métricas da Física ou da Medicina seria maldade e rotulá-las como não científicas seria perder um tanto do conhecimento humano. Elas são outro tipo de ciência e só.
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Manual / Caderno de campo

Caderno de campo


Os antropólogos levam o caderno de campo muito a sério. Na verdade, toda a Antropologia se baseia nele. A propósito, se você é antropólogo, pule essa seção porque ela não vai lhe ensinar nada novo.
A ideia é você ter um caderno em que vai anotar, em ordem sequencial, todos os dias de pesquisa. Você escreverá aquilo que você fez, pensou em fazer, referências que esbarrou, comentários sobre artigos que leu e gostou ou não gostou. Tudo isso deve ser anotado no caderno.
Não pense que você se lembrará das suas atividades durante a sua pesquisa. Em duas semanas, os textos que você passou os olhos vão para o mesmo inacessível lugar da sua cabeça em que você guarda a sobremesa que você comeu na semana passada. Ou seja, estão perdidos para sempre. Um caderno de campo bem-mantido é como uma memória externa que lhe impede de repetir passos já dados, além de guardar aquelas ideias que parecem interessantes no momento que você as tem (se a ideia é boa, ou não, você só descobrirá depois. Mas o importante é que você a tenha por escrito). Nossa memória é tão pouco confiável que, muitas vezes, só acredito que fui eu que escrevi porque seria muito difícil acreditar que um hacker invadiu o meu computador para acrescentar trechos no meu caderno.
O caderno não é um fim em si mesmo. É só um instrumento e não vale a pena gastar muito tempo mantendo-o organizado. Usar canetas de cores diferentes para cada tipo de anotação ou fazer desenhos caprichados acabam se tornando uma forma de procrastinar o trabalho sério mesmo.
Seja, contudo, rigoroso no caderno. Imagine que está escrevendo não para você, mas para uma outra pessoa que assumirá o seu trabalho no futuro. De certa forma, isso acontecerá. O seu eu-futuro é outra pessoa, bem parecida com você, mas ele daqui a dois meses (ou dois dias) não lembrará do que você sabe hoje. Seja generoso com o seu eu-futuro. Anote tudo de forma detalhada para que ele possa refazer os seus passos, caso isso seja necessário.
Qualquer caderno serve, contanto que ele sempre esteja com você, o tempo todo da pesquisa. Eu sou a favor do caderno em espiral de tamanho médio. Os cadernos em espiral ocupam menos espaço e ficam melhor quando abertos ao lado do computador.
Uma alternativa ao caderno de campo tradicional é você manter um arquivo digital em seu notebook. As vantagens são possibilidade de backup e o uso do recurso de busca dentro do arquivo. Mas o problema é que você provavelmente não anda com o seu notebook todo o tempo. Além disso, o tempo de boot ainda é um desestímulo para que se anote isso tudo que vem a sua cabeça.
Tablets são uma opção intermediária: não servem para longas notas, mas são ágeis o suficiente.; Enfim, não existe solução única. Cada um descobrirá a melhor forma de ter um caderno de campo. O importante é tê-lo.
Manter um blog público sobre a sua pesquisa é uma opção menos desejável. Pois, além de todos os problemas do notebook e de conectividade, a falta de privacidade restringirá os seus movimentos e pensamentos. A única vantagem é que outras pessoas da blogosfera poderão lhe ajudar. De qualquer forma, converse com o seu orientador antes de fazê-lo.

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