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Ciência e fraude: um caso recente

Parecia um resultado sensacional. O experimento mostrava que bastaria uma conversa para trocar a posição das pessoas sobre assuntos controversos. O papo com um entrevistador abertamente gay mudaria a opinião do entrevistado e o efeito persistiria no longo prazo.
O problema é que o estudo, tudo leva a crer, é uma fraude. Outros pesquisadores mostraram que o autor inventou os dados. Ou melhor, ele pegou outra base de dados, colocou ruído e inventou a narrativa. O texto que revela a fraude é quase um conto policial. Vale muito a leitura. (Além de vir como código em R!)
 Meus pitacos:

  • Isso é a Ciência no seu pior e também no seu melhor. De um lado, mostra que a busca pelo sucesso na profissão pode levar gente inteligente a cometer crimes. De outro, mostra o funcionamento dos filtros da ciência. A fraude foi identificada e os autor será - certamente - punido. 
  • O evento revela um dos meus medos com os métodos quantitativos novos (randomized control trials, regressões com descontinuidade etc...). Quando a econometria era pobrinha, ninguém acreditava muito nos resultados. Depois da Credibility Revolution, o pessoal compra os resultados sem saber dos problemas do experimento ou mesmo das questões institucionais que foram mascaradas do parecerista. Não quero voltar ao passado, só quero que o ceticismo seja mantido.
(Agradeço  Lucas Novaes pelo link)

Prêmio CNI de Economia

Muitos trabalhos bacanas. Ótimo ver o  pessoal gente boa da  Economia Regional da UFJF e do Cedeplar entre os premiados.
Parabéns também para os colegas da DISET/Ipea (+Donald, da UNB) que levaram também um prêmio. Informação irrelevante, mas interessante: o Bruno Araújo no tempo livre pode ser visto tocando na banda Móveis Coloniais de Acaju (vestindo a camisa do Clash).

Diversos


Quando debater?

Nunca brigue se o adversário estiver a mais de dois desvios de você em qualquer dimensão: conhecimento,  ideologia, inteligência ou porte físico.

Links diversos

¡Adiós Amigos!

Tentando reduzir o meu tempo na frente do computador, eu matei a minha conta no Facebook. Agora, tenho que esperar pelo filme.

Nash Equilibrium pelo próprio

Meu ex-aluno Otávio Damé enviou essa jóia. Segundo ele, foi seu colega de mestrado na EPGE, Pedro Olea, que pediu a definição do conceito ao próprio Nash.

Taxation, Lobbies and Welfare in an Enclave Economy: Rubber in the Brazilian Amazon 1870-1910

Conheci o Felipe Tãmega em 2006, quando ele era doutorando em história econômica e orientado pelo Colin Lewis na LSE. Um cara gente boa e muito bom mesmo. Googlando, esbarrei no texto super legal (acho que tirado da tese):
Taxation, Lobbies and Welfare in an Enclave Economy: Rubber in the Brazilian Amazon 1870-1910
Abstract
This paper uses an enclave economy (Brazilian Amazon) to show that [export] taxes can be welfare enhancing and be used as instruments to move the economy away from the immiserizing growth path. Nonetheless, the results show that the government could have raised the Brazilian Amazon's welfare with a much higher export tax, and offers political-economic reasons why it did not.
O mais bacana, contudo, foi descobrir que ele está na Harvard Business School. Parabéns!!!

Duas frases tão boas que eu vou repetir como se fossem minhas

"I started this blog because my wife wanted me to stop telling her all my ideas, and this was a cheap way to communicate with all my friends in academia." (Idem!)
"I think it's important to know what you don't know. When you know that you don't know something, the answer is to experiment!"
Tirei da entrevista de Matthew Kahn, o economista urbano e do meio-ambiente. (via Marginal Revolution). Fofoca extra: ele é casado com a Dora Costa, a excelente historiadora econômica.

Ramsey e Kant, segundo Samuelson

Dixit conta que ouviu o seguinte causo na aula do Samuelson:

"On his first day as an undergraduate at Cambridge, Ramsey went to his philosophy tutor Ogden, to discuss some ideas he had about essence and being. After listening, Ogden said, “These notions are rather like those of Kant.” “Kant? Who is he?” “Immanuel Kant was the author of this book I’ll lend you, Kritik der reinen Vernunft.” “But it’s in German, sir, and I don’t know any German.” “That’s all right, I’ll lend you this dictionary.” A couple of weeks later Ramsey came back to Ogden saying “Kant has it almost right, but …” "

Samuelson e a censura da ditadura brasileira

Lembrei de um causo que li em "A ditadura derrotada" do Elio Gaspari. Uma googlada depois, encontrei o trecho (veja seção 5). Resumindo, era 1973 e o Samuelson tinha escrito o seguinte no original do "Economics":
"Fascismo:

É mais fácil caracterizá-lo política do que economicamente. Seja na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, na Espanha de Franco, em Portugal de Salazar, na Argentina de Perón ou nas juntas da Grécia e do Brasil, o fascismo foi habitualmente identificado por ditaduras pessoais, partido único e pela supressão das liberdades públicas. [...] O indivíduo é secundário diante do Estado. [...]
Quando uma economia populista vai mal, com inflação e desemprego, surge o desejo de que os fascistas assumam o poder, "restaurando a ordem e promovendo o desenvolvimento econômico"? Arre, quase sempre a resposta é: sim.
Mais entristecedor é testemunhar o sucesso econômico ocasional de tais regimes ditatoriais - coisa de curto prazo. Assim, nos anos 70 o regime militar brasileiro pode ter batido duro nos professores, nos intelectuais e na imprensa livre. Mas como as pessoas diziam no tempo de Mussolini: "Pelo menos os trens andam na hora". Quando se olha para o Anuário estatístico da ONU, verifica-se que nos últimos anos o Brasil foi um verdadeiro Japão na América Latina, com taxas médias anuais de 10% de crescimento do PNB.
A história mostra que é raro os despotismos benevolentes persistirem na benevolência, e quase nunca conseguem manter-se eficientes. [...] Na vida real, o fascismo é incapaz de realizar até mesmo seu próprio projeto."
Bem, a didatura obviamente não gostou e a editora reclamou com o Samuelson. Ele cedeu e cortou o trecho da edição brasileira. (Antes de condenar o ato, caro leitor, se coloque no lugar dele e veja as alternativas. Entre publicar censurado ou não publicar, eu escolheria a primeira opção)

John Meyer

Um comentarista anônimo me chamou a atenção deste post muito interessante sobre a morte do John Meyer, um dos pais da cliometria . Seu texto de 1957 no Journal of Economic History (em coautoria com o Alfred Conrad) também revolucionou (exceto em alguns lugares exóticos do mundo) o jeito de se fazer história econômica para valer.
Vejam só o tamanho da minha ignorância, ele também é famoso por suas contribuições na área de economia dos transportes! Aqui vai o texto do Ed Glaeser sobre as contribuições do Meyer neste campo.

Borges, Mapas e o Método

O próprio Jorge Luís Borges lendo "Del rigor en la ciencia" (Via Boing Boing)

Para acompanhar:
En aquel Imperio, el arte de la Cartografía logró tal perfección que el Mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el Mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, estos mapas desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos adictas al estudio de la cartografía, las generaciones siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin impiedad lo entregaron a las inclemencias del Sol y los inviernos. En los desiertos del oeste perduran despedazadas ruinas del mapa, habitadas por animales y por mendigos; en todo el país no hay otra reliquia de las disciplinas geográficas.
Borges pode ser usado em lições de metodologia. Quando alguém reclamar que um modelo é incompleto, sugira a leitura de "El Rigor...". Já se a crítica for que o modelo não considera as espeficidades do objeto, mande o sujeito ler Funes, o memorioso. Duvido que funcione, mas não custa tentar.

PS. Lembrei que nos tempos do Gustibus eu já tinha feito um post sobre o mapa do metro de Londres e Ricardo. Aí vai. O link para a animação não funciona mais, mas encontrei um vídeo equivalente.

Choque de Culturas

Ricardo Freire narra a retumbante a presença do Martin Feldstein no festivo encontro mundial de Turismo
"Martin Feldstein, economista, professor emérito e urubu
Foi chamado ao palco Martin Feldstein, economista emérito de Harvard, consultor econômico de três presidentes americanos, e — a despeito de ser conservador — um dos membros do conselho de recuperação econômica do governo Obama. Sua tarefa era fornecer insights para superar a crise.
Sem que a direção do evento estivesse totalmente inteirada do teor da sua análise, Feldstein não deixou nenhuma esperança de pé. A crise vai continuar por muitos anos. Os Estados Unidos não têm condições objetivas para se recuperar rapidamente. A Europa está pior, e a Ásia vai a reboque. Depois da pequena reação dos últimos meses, o dólar vai voltar a perder valor. O setor de viagem vai enfrentar tempos muito, muito sombrios.
Quando se abriu a rodada de perguntas da platéia, Sonu Shivdasani (... ) perguntou por que não havia sido colocada uma forca no pátio para quem quisesse usar.
Questionado sobre a África, professor Feldstein disse que é o único continente que, a seu ver, tem como sair dessa mais cedo, pela falta de laços econômicos com o resto do mundo. Informado por um participante da platéia sobre números do Brasil, ele confessou não conhecer o caso brasileiro com a profundidade com que conhece o resto do mundo, e admitiu que talvez pudéssemos enfrentar a barra com menos percalços.
Faltavam menos de 90 minutos para terminar a cúpula, e tudo parecia que ia terminar da pior maneira possível."

Deve ter sido divertido.

Mais uma mudança

Eu nunca trabalhei na vida, fui só professor. Ser pago para estudar, escrever e falar com plena liberdade faz da vida de professor um dos melhores jeitos honestos de se ganhar a vida. Bem, agora fui aprovado no IPEA para a área de regional/industrial. Tomarei posse no final do mês.
Lamento ter ficado tão pouco tempo na UFABC. Felizmente, como as disciplinas são trimestrais, eu não terei que abandonar os cursos em andamento. Os alunos, funcionários e professores se mostraram muito dedicados e a universidade parece não ter os vícios das federais mais antigas. (A propósito, a UFABC está com um concurso aberto para professor! ). Agradeço e espero que eles compreendam a minha escolha profissional.
Não sei direito o que me espera por lá, nem como é a vida em Brasília. Sempre gostei de morar em vizinhanças jane-jacobsianas e Brasília- ao menos à primeira vista- é o oposto disso. O blog seguirá o mesmo e eu continuarei pesquisando em história econômica quantitativa não só porque gosto, mas também porque estou comprometido com projetos financiados sobre o tema.
PS1: Sugestões de hospedagem temporária em Brasília?
PS2: Nas últimas semanas, eu tive que apagar os comentários de leitores que tratavam da minha posse no IPEA. Peço desculpas, mas eu não queria tratar do assunto aqui antes do tempo.

Economistas devem ser odiados

Hayek disse que o Marshall disse:
‘Students of social science, must fear popular approval: Evil is with
them when all men speak well of them
’.

(Curiosamente, não encontrei a referência precisa da citação. Será que o Hayek fazia como o Keynes, que gostava de inventar citações alheias?)

Carlo Cipolla e a Estupidez

O grande historiador econômico italiano Carlo Cipolla, quem diria, escreveu um tratado geral sobre a estupidez.
Eu tenho fé na hipótese de que a estupidez - e não a maldade - é a raiz dos males humanos. Verdadeira ou não, a crença me serve de consolo.
Via Marginal Revolution.

Gerschenkron e a Nova História Econômica

Foi no workshop de História Econômica de Harvard, organizado pelo Gerschenkron, que a Cliometria tomou fôlego. Peter Temin, D. McCloskey, Paul David e Albert Fishlow participavam dos encontros. O curioso é que o Gerschenkron, que falava mais de 10 línguas, estava bem aquém das habilidades técnicas dos alunos. Mesmo assim, por sua seriedade e exigência, seus ex-alunos são unânimes em afirmar a sua importância para a revolução que se seguiu.
Ele era dureza como orientador. Paul David e Albert Fishlow relatam a relação difícil que fez com que suas teses se arrastassem por anos. Este último, contudo, recebeu a honra de ser considerado por Gerschenkron como o melhor estudante que ele teve. (Sorte dos brasileiros que o Fishlow tenha se interessou por nós!) O capítulo do livro com esses e outros causos está on-line. Um relato da McCloskey sobre o Gerschenkron está aqui.

Solow e Gerschenkron

-Reunião de departamento de Economia de Harvard, 1954. Solow era professor vistante. Gerschenkron traz um mini tabuleiro de xadrez e ambos disputavam partidas durante a reunião. Solow se sente culpado e diz: "Nós não deveríamos estar fazendo isso." Gerschenkron: "É verdade. Eu sou o anfitrião, deveria ter te deixado jogar com as brancas."

- Uma rua qualquer de Cambridge (EUA) na mesma época. Os dois se encontram. Solow tem um livro na mão. Gerschenkron:"O que você têm lido?". Solow:"Um historiador melhor do que você".
Gershenkron fica chocado, mas Solow mostra uma cópia de um livro de Tacitus.

Dois causos que tirei do The Fly Swatter: How My Grandfather Made His Way in the World.

Gerschenkron

Nos 9 dias off-line (um recorde pessoal!) eu pude ler com calma
The Fly Swatter: How My Grandfather Made His Way in the World, a biografia do Alexander Gerschenkron escrita pelo neto. É muito, muito bom mesmo. A começar pela capa: um retrato do biografado feito pelo Leontief.
Vou postar umas frases e causos nos próximos dias. Só para ficar nas fofocas com artistas, adianto que ele jogou xadrez (e perdeu de lavada) para o Marcel Duchamp e era tão odiado pelo Nabokov que este criou um personagem para debochá-lo.
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