"Como realizar pesquisa com cliometria?"

Recebi o convite por email para responder essa pergunta lá no novo site PRorum. (Pelo que entendi, é iniciativa do Daniel Cajueiro, um dos mais citados pesquisadores da área de economia (e super gente boa.))
Bom, aí vai a minha resposta:
"Hoje não há mais grande diferença entre a pesquisa  cliométrica e o restante da Economia. Nos anos 60, era inovador pensar em hipóteses testáveis e contrafactuais na pesquisa histórica. Hoje, isso é o padrão. Qualquer número do  Journal of Economic History mostra que a hisória econômica compartilha os métodos das outras áreas. E a maior parte dos textos recentes também incorpora as ferramentas da Revolução da Credibilidade: variáveis instrumentais, descontinuidade, diff-in-diff e outras.  Uma prova da convergência da história econômica com o restante é que boa parte dos novos textos foram publicados nos top journals gerais da economia (AER, QJE...)
A principal diferença da pesquisa cliométrica é no valor que se dá à coleta de dados históricos. Mergulhar nos arquivos públicos, publicações esquecidas, fontes históricas obscuras é muito bem-vindo. (Solow escreveu que o historiador econômico era o pesquisador com alta tolerância ao pó. Hoje, graças às fontes digitalizadas no Brasil e fora até os asmáticos podem trabalhar na área.).
Há muito o que fazer em história econômica no Brasil. Há muita opinião e pouca evidência empírica. Até mesmo os Censos oficiais não foram devidamente explorados. Isso tudo é ótimo. Significa que existe muito dado de acesso fácil que apenas aguarda pesquisadores motivados e bem treinados no instrumental da pesquisa empírica.
Em termos mais práticos, além de conhecer as ferramentas (micro, macro e econometria...), a dica é ler:
  • Os números recentes do Journal of Economic History para aprender o jeito de pensar e escrever dos pesquisadores atuais;
  • A literatura tradicional brazuca em história econômica e questionar: a) há evidências para as afirmações?  b) o que o autor afirma está de acordo com algum modelo econômico sensato? Esse exercício serve para sugerir problemas de pesquisa.

"Mortalidade entre brancos e negros no Rio de Janeiro após a abolição" por Thales Zamberlan Pereira

Eu não imaginava que as diferenças fossem tão grandes. No caso da tuberculose, a mortalidade média dos brancos era 294 e a dos negros, 2317 por 100.000 habitantes entre 1907 e 1916. Segue o resumo:
O objetivo deste artigo é analisar a diferença de mortalidade entre brancos e negros no Rio de Janeiro durante os primeiros anos da República brasileira. Utilizam-se dados de mortalidade de doenças relacionadas a condições precárias de moradia e acesso à infraestrutura como um indicador de desigualdade econômica. Apesar de o Rio de Janeiro possuir taxas de mortalidade declinantes durante o início do século XX, não ocorreu convergência entre a população branca e negra. Além disso, a análise quantitativa apresenta evidências que doenças que afetavam mais a população pobre, como a tuberculose, aumentavam indiretamente a probabilidade de morte por outras doenças, fenômeno conhecido como Mills-Reincke. Isto sugere que a taxa de mortalidade para a população não branca pode ter sido previamente subestimada. 

Como rodar regressões com grupos de variáveis no R

Enquanto o livro de R do Análise Real não fica pronto, aí vai uma dica simples, mas que eu demorei um tempão para perceber.
Sabe quando você quer rodar várias regressões com grupos de variáveis independentes distintas? Há  um jeito simples. Defina os grupos assim:

grupo1 = c("x1", "x2")
grupo2 = c("x3", "x4")

Para regredir y sobre x1 e x2:
eq0 = lm( y ~ ., data=df[, c("y", grupo1)] )

E para regredir sobre ambos os grupos:
eq1 = lm( y ~ ., data=df[, c("y", grupo1, grupo2)] )

PS: Erros corrigidos. Obrigado, Pedro!

Acabou o dinheiro

O artigo "Neoliberalism: Oversold?", por pesquisadores do FMI, fez muito barulho mundo afora. O guardians da vida interpretaram erroneamente como "o neoliberalismo morreu". Claro que o texto não dizia isso.
Contudo, ainda mais estranho foi quem achou que o artigo seria argumento contra as políticas de austeridade no Brasil de hoje. (Pouparei meus 847.373.384 leitores dos links para os textos dos culpados). O artigo original diz que a austeridade pode não ser uma boa idéia em países com espaço fiscal. Ou seja, quando não há risco de crise fiscal, talvez não seja bom obter superávits primários para reduzir a dívida.
Ora pitombas, tudo que não há no Brasil de hoje é espaço fiscal. Estamos em plena crise, com déficit primário e dívida em trajetória explosiva (se nada for feito). A austeridade é um obrigação imposta pela realidade.
O Tyler Cowen escreveu bem: a população confunde "austeridade é ruim" com " as consequências de ficar sem dinheiro são ruins". O Brasil está no segundo caso.

Pós-doutorado em Economia na UCB

Uma ótima oportunidade para os recém-doutores.
As inscrições vão até 18 de Julho. Edital e formulário de inscrição.

Censo 2010 no R

O UrbanDemographics mandou essa dica nos comentários de um post anterior:
"O Anthony e o Djalma sao fora de serie. Mas confesso que nao gostei muito de usar o monetdb, entao eu criei um script em R "puro sangue" para download dos dados. O script eh bem rapido. Qualquer comentario e sugestao eh bem vindo. https://github.com/rafapereirabr/Brazilian_Census_2010"
Valeu!
Lembro que os usuários de Stata tem o ótimo site Data Zoom da turma da PUC-RJ para baixar Censos e Pnads.

Immigration and local performance in the long-run: the role of ancestry

Essa foi a apresentação de ontem no proseminar de Economic History da UCLA. Ainda não tenho paper e os resultados ainda são muuuito preliminares mesmo.
Comentários, como sempre, são bem-vindos.

Quem nada é o homem e não a piscina

Estou enrolado, só trabalhando nas minhas coisas e sem tempo para postar nada interessante (sim, minhas coisas não são tão interessantes). Vou ressuscitar aqui um post antigo que passou batido:
"Nelson Rodrigues e o individualismo metodológico
O dramaturgo, após assistir na TV um psicanalista atribuir a culpa dos problemas da juventude à família e à sociedade, escreveu:
"E eu então vi subitamente tudo. Imaginei que, diante de uma prova de natação, a psicanalista havia de concluir - "Quem nada é a piscina e não o nadador". Minha vontade foi bater o telefone para a TV Globo e dizer:- "Minha senhora, não se esqueça do homem."...
Referindo-se aos especialistas das Ciências Humanas, Nelson Rodrigues continua:
"É preciso que alguém lhes escreva uma carta anônima, com um furo sensacional:- "O homem existe! O homem existe!" E vai ser um susto, um pânico, um horror quando os citados especialistas perceberam que a besta humana está inserida na nossa paisagem"
(Nelson Rodrigues, Os Inimigos do Óbvio, 1966)
Agradeço ao meu amigo (e cientista político) Acir Almeida a citação."

O mito do multiplicador keynesiano e a Grande Depressão

Eu me arrependo de ter ensinado muitas coisas. Nas aulas de Introdução a Economia, circa 1995, um dos erros foi ensinar o multiplicador keynesiano como 1/(1-c) com c=0,8  . Mentes de 18 anos podem guardar isso para o resto das vidas; e pensam que R$1 de gasto público quintuplica o PIB. Era só um exemplo para facilitar as contas e eu não enfatizava o quão esquisito teria que ser o mundo para que isso fosse verdade.
"Ah, mas e a Grande Depressão". Bem, nem naquela época o multiplicador foi tão grande assim. Vejam o texto recente no Journal of Economic History:
The Multiplier for Federal Spending in the States During the Great Depression
Price Fishbacka and Valentina Kachanovskayaa 
 To estimate the impact of federal spending on state incomes, we develop an annual panel data set between 1930 and 1940. Using panel methods we estimate that an added dollar of federal spending in the state increased state per capita income by between 40 and 96 cents. The point estimates for nonfarm grants are higher and for AAA farm grants are much smaller and negative in some cases. The spending led to increase in durable good spending on automobiles but had no positive effects on private employment.
(Uma versão anterior aberta está disponível aqui.)
Vale lembrar também que a Christina Romer, uns 35 anos atrás, já mostrava que foi a expansão monetária - e não fiscal- que tirou os EUA da Depressão.

100 de nascimento da Jane Jacobs

Ela é a autora do melhor livro-de-economia-sem-tabela que-já-li: The Death and Life of Great American Cities. A Google fez doodle em homenagem. Mais do que merecido.

  
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