Precisa-se de imigrantes

Diversos

DARPA e a política industrial

Sempre que ouço o argumento marianamazucático de que a DARPA foi fundamental para o surgimento da Internet, cito  que a mesma agência criou o agente laranja. Centenas de milhares de vietnamitas e os próprios americanos sofreram danos permanentes (e hereditários) causados pelo herbicida. (E eu nem conto as outras ideias ruins que a DARPA promoveu: telepatia, estourar bombas atômicas na magnetosfera para se defender dos mísseis russos, Star Wars do Reagan etc...).
Quando se gasta centenas de bilhões em pesquisa, uma hora você acerta. O improvável seria o contrário!
(Lembrei disso quando esbarrei em um texto do Fogel sobre o programa espacial. O texto só resume seu estudo das ferrovias e conclui que não vale a pena usar a mesma metodologia  para estudar os efeitos da NASA)

Os 8 parlamentares muçulmanos na Alemanha votaram a favor do casamento gay

Aqui (página em alemão traduzida). Isso só mostra a força de uma sociedade aberta e moderna. Os imigrantes acabam adotando, ao menos na esfera pública,  os valores da sociedade secular.
Outra evidência:
The majority of Muslims in Germany are devout and open-minded at the same time. The study shows that 63 percent of those adherents of Islam who consider themselves fairly or very religious say they re-examine their religious attitudes at regular intervals. Roughly 60 percent of those respondents say they support same-sex marriage, something that also applies to 40 percent of highly religious Muslims who say they rarely look at their religious principles. In Turkey, in contrast, the country of origin for most of Germany’s Muslims, only one-third of highly religious Muslims say they regularly re-examine their religious beliefs. Only 12 percent of highly religious Muslims in Turkey say they are in favor of same-sex marriage.
Outro paper corrobora a ideia: "Does mass immigration destroy institutions? 1990s Israel as a natural experiment" (versão aberta aqui). Os autores mostram que a chegada de russos não teve qualquer efeito ruim sobre as instituições locais.

"How the East was Lost: Coevolution of Institutions and Culture in the 16th Century Portuguese Empire" por Mueller e Ayello


Texto bacana do Bernardo Mueller e do João Gabriel Ayello. Ainda não li essa versão, mas participei da banca de dissertação e gostei muito do trabalho.

Relatório para o Kennedy sobre o Brasil (novembro 1962)

Diversos

Minha bronca com a Revolução da Credibilidade

Claro que a revolução da credibilidade foi um avanço. Ed Leamer estava certo quando escreveu Let's Take the Con Out of Econometrics. E Angrist também estava certo quando publicou The Credibility Revolution in Empirical Economics: How Better Research Design Is Taking the Con out of Econometrics. Só que a revolução foi longe demais.
Hoje, assuntos bacanas não são pesquisados porque não dá para aplicar uma das estratégias "novas" para encontrar  causalidade.  O conjunto de problemas investigados são limitados pela ocorrência de alguma esquisitice no mundo que permita a identificação econométrica. (O contra-argumento é que sempre há alguma fonte de exogeneidade; bastaria procurar direito. Pode ser.)
Mas a minha queixa principal é outra:  agora acreditamos demais no autor. Quando a econometria era vagabunda, uns OLS aqui, um painel acolá, ninguém se deixava convencer por um monte de *** junto aos coeficientes. Não éramos trouxas.
Já na revolução da credibilidade, se você compra a estratégia de identificação proposta pelo autor, tem que aceitar o resultado (mesmo que duvide da validade externa). O problema é que -na imensa maioria das vezes-  o autor conhece os eventos que levaram a suposta exogeneidade melhor do que o parecerista (e, claro, o leitor). E é muito fácil esconder as malandragens que poderiam comprometer a identificação. Não adianta compartilhar os dados e o código on-line, se informação crucial não foi compartilhada.
(O post de hoje do Marginal Revolution retrata bem o problema. Se você não conhece tudo da sociedade dinamarquesa, nunca vai encontrar furo.) 

Pesquisa Empírica 9 X Teoria 1

Enquanto no Brasil se brinca de que existem várias "escolas de pensamento econômico" (que termo horrível!),  no resto do mundo ninguém gasta saliva com isso. O negócio é analisar o dados e não há essa de se identificar como "neoclássico", "neo-desenvolvimentista" ou ˜schumpeteriano-flamenguista-vegan".
E essa tendência ficou ainda mais forte nas últimas décadas. Vejam lá: nas áreas de Economia Internacional e Desenvolvimento Econômico, a participação dos trabalhos empíricos passou de 60% para mais de 90% de trabalhos empíricos. O trabalho completo está aqui (pdf).


PS. "Ah, mas a pesquisa empírica está cheia de ideologia." dirá um chato. Eu sei. Sei também que toda bebida contém água. Mas existe uma diferença grande entre laranjada e vodka.

A moda da História Econômica

Ótima discussão do Tyler Cowen sobre as razões que fizeram a História Econômica entrar na moda.  Desde Acemoglu, Johnson e Robinson, economistas de departamentos de topo abriram os livros de História atrás de estratégias de identificação bacanas. Gostei muito do comentário do Matthew Kahn:

"Great question. Given that I have published in the Journal of Economic History, have co-authored an economic history book (see Princeton Press 2008 Heroes and Cowards) and I’m married to an economic historian [Leo: ele é marido da grande Dora Costa], I feel like I can deliver a partial answer. Great historical data is”out there” if you know where to dig. This creation of longitudinal micro data sets by using people’s names and geographical data in repeat cross-sections of data has opened many new opportunities for writing “natural experiment” papers. The field of economic history faces at least two challenges. First, at the publication stage, we are now in the “field experiment era” and economic historians have trouble running randomized field experiments! Without such a randomized research design, clever reviewers can always think of some story for why OLS’s assumption of E(U|X) does not equal zero or why IV’s assumption of E(U|Z) does not equal zero. Second, if an economy is “non-stationary” and evolving over time, then past historical relationships between say climate conditions and mortality provide an upper bound on future relationships because they under-estimate adaptation. The Lucas Critique lurks throughout when interpreting lessons for today from past events."
E gostei também dessa resposta de um tal de wiki:

"Economics is driven by technique at the upper ends. Despite the rise in economic history, the Journal of Economic History has unfortunately not risen much in status because what matters to the top guys are historical papers that have elite technical methods. Moreover — without naming names — there are plenty of articles in top 5 journals that are suspect in their historical interpretation (even by econ standards) that are well-specified technically but which would likely have been rejected by JEH. So in the end, it’s about all the things Tyler mentioned, but it’s also how econ only adopts those fields that focus on the technique of the moment. And the lack of RCTs in history as Kahn mentions, restricts how far historians can go unless they engage in the sorts of heroic efforts the current Clark medal winner has undertaken. So these are high risk, low article count career choices."

Concordo que vários papers em journals top seriam rejeitados do Journal of Economic History pelas razões certas: autores marretaram a evidência histórica ou ocultaram fatos que colocariam em risco a estratégia de identificação. E só os especialistas mesmo do assunto identificariam a malandragem. (Claro que também há razões erradas para ser rejeitado pelo JEH)Nos próximos dias,  eu vou escrever  mais sobre a minha bronca com a revolução da credibilidade na Economia.

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