Por que o raio gourmetizador atacou? Culpa da bolha imobiliária

Para entender a hipótese, preciso voltar a uma das sacadas mais bacanas da Economia: o Teorema Achian-Allen, ou paradoxo das maças. Eu o expliquei assim em um  capítulo de livro (p.53; pdf gratuito grande):
Custos de transporte podem gerar efeitos curiosos. O teorema de Alchian-Allen (1967) ilumina um desses fenômenos. Esses autores buscaram uma resposta a um mistério econômico: por que em uma região produtora de maçãs são encontradas apenas as de pior qualidade, enquanto as melhores são exportadas? O motivo é simples: como o custo de transporte é o mesmo para maçãs boas ou ruins, o frete torna as maçãs boas mais atrativas. Um exemplo numérico com o caso dos vinhos torna tudo mais claro. Supondo-se que existem dois tipos de vinho: o Château Caro custa $ 50,00 e o Château Vagabundo, $ 5,00. É razoável supor que os custos de transporte são os mesmos para qualquer tipo de vinho; por exemplo, $ 5,00. No local de produção, a relação de preços vinho bom/vinho ruim é de 10 para 1. No mercado consumidor, com frete, a relação de preços passa a ser de 5,5 ($ 55,00/$ 10,00). Ou seja, em termos relativos, o vinho bom fica mais barato no mercado distante do que no local. Portanto, o vinho bom tenderá a ser exportado e o ruim ficará para consumo local. O teorema de Alchian-Allen significa, assim, que uma tarifa fixa leva a uma substituição de bens de pior qualidade pelos de melhor qualidade. Pela mesma lógica, o teorema prevê que, ao pagar pelos serviços de uma babá para ficar com o seu filho, um casal não vai jantar em uma lanchonete barata, e sim em um restaurante mais caro (como o custo de contratar a babá é fixo, a ida à lanchonete ficaria relativamente cara).
O custo de um quiosque ou de uma loja para o vendedor de brigadeiro funciona como um custo de transporte para o vendedor de vinho. Não importa a qualidade do que é vendido, o preço por metro quadrado é o mesmo.  Como o preço dos aluguéis aumentou nos últimos anos, o produto de baixa qualidade* encareceu relativamente frente ao de alta qualidade. Em outras palavras, o brigadeiro gourmet ficou relativamente mais barato frente ao brigadeiro genérico. Os lojistas viram essa oportunidade e aplicaram o raio gourmetizador em tudo.

* "Qualidade" significa que o consumidor pensa que o produto é melhor. Não quero dizer que os produtos "gourmetizados" são objetivamente melhores. (Exceto as paletas mexicanas. Essas todos mundo sabe que são melhores do que os picolés.)




Como a maldição do petróleo ataca?

Em países com instituições ruins, o boom do petróleo aumenta os incentivos para cursar direito, administração e humanas:

Christian Ebeke, Luc Désiré Omgba, Rachid Laajaj, Oil, governance and the (mis)allocation of talent in developing countries, Journal of Development Economics, Volume 114, May 2015, Pages 126-141, ISSN 0304-3878, http://dx.doi.org/10.1016/j.jdeveco.2014.12.004. 
Abstract: This paper sheds light on the relationship between oil rent and the allocation of talent, toward rent-seeking versus more productive activities, conditional on the quality of institutions. Using a sample of 69 developing countries, we demonstrate that oil resources orient university students toward specializations that provide better future access to rents when institutions are weak. The results are robust to various specifications, datasets on governance quality and estimation methods. Oil affects the demand for each profession through a technological effect, indicating complementarity between oil and engineering, manufacturing and construction; however, it also increases the ‘size of the cake’. Therefore, when institutions are weak, oil increases the incentive to opt for professions with better access to rents (law, business, and the social sciences), rather than careers in engineering, creating a deviation from the optimal allocation between the two types of specialization. Keywords: Oil rent; Governance; Rent-seeking; Tertiary education
Talvez seja uma mera coincidência sem qualquer significado, mas acabo de ler essa notícia da Petrobras.

Corrupção= monopólio + poder discricionário - accountability

Já dizia o ótimo Klitgaard na década de 1990. É uma equação simplista, mas muito verdadeira. Ah, se certas organizações poderosas levassem isso a sério...
Sugiro fortemente Tropical Gangsters: One Man's Experience With Development And Decadence In Deepest Africa , sobre o tempo do Klitgaard como consultor do Banco Mundial e surfista na África.

Resgate da Reforma Política – Diversidade e Pluralismo no Legislativo

Eu não sei nada sobre o assunto, mas os ótimos consultores do Senado prepararam um e-book bem interessante sobre a reforma política: aqui. (Obrigado ao Alexandre Rocha).

A política regional custa duas vezes o Programa Bolsa Família

Aqui.

POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO BRASIL: uma estimativa de custos
Luiz Ricardo Mattos Teixeira Cavalcante

O objetivo deste trabalho é estimar os custos fiscais das políticas de desenvolvimento regional adotadas no país. Procura-se, inicialmente, delimitar o conceito de política regional para fundamentar a proposição de um método de apuração dos custos associados aos instrumentos empregados no Brasil. Em seguida, calculam-se, para o período entre 2009 e 2013, os custos fiscais anuais das políticas de desenvolvimento regional. Estima-se que esses custos alcançaram, em 2013, R$ 53,8 bilhões. Esse valor, que corresponde a 1,11% do produto interno bruto (PIB) e a cerca de duas vezes o custo do Programa Bolsa Família naquele mesmo ano, resulta da soma de incentivos fiscais de R$ 31,7 bilhões, de incentivos financeiros de R$ 14,2 bilhões e de investimentos diretos do Governo Federal (mais do que proporcionais à participação das regiões menos desenvolvidas no PIB) de R$ 8,0 bilhões. Mais de 55% desses custos são destinados à região Norte, especialmente em decorrência dos incentivos fiscais concedidos às empresas instaladas na Zona Franca de Manaus (ZFM).  
Sobre os (imensos!) impactos regionais do Bolsa Família:
Silveira‐Neto, Raul M., and Carlos R. Azzoni. "Social policy as regional policy: market and nonmarket factors determining regional inequality." Journal of Regional Science 52.3 (2012): 433-450.

Entrevista com a Claudia Goldin

Quem gostou (ou detestou)  o estudo da FEE sobre disparidade de gêneros deveria ler a entrevista da grande historiadora econômica Claudia Goldin. Na verdade, todo mundo deveria ler.
Não só é uma bela panorâmica do mercado de trabalho norte-americano no século XX (que, em larga medida, o Brasil repete (com defasagem))*, como também, uma lição para os pesquisadores:
"The world is filled with mysteries, and somehow I have this incredibly optimistic view that I can figure them out"
*Como vocês podem ver, tento introduzir múltiplos parênteses na língua portuguesa.

Manual de sobrevivência na universidade por R$1,99

Só hoje na Amazon.
Atualizando: opa! Já acabou. O livro voltou para R$5,99.

Chamada da RBEE: número especial sobre Economia Regional

Prazo: 31 de outubro de 2015. Aí vai:  
O corpo editorial da Revista Brasileira de Economia de Empresas (RBEE) está organizando uma edição especial desse periódico sobre Economia Regional, a ser publicada no primeiro semestre de 2016. Convidamos todos os interessados a submeterem artigos para essa Edição Especial da RBEE.
A RBEE é uma publicação do Mestrado e Doutorado em Economia da Universidade Católica de Brasília. Atualmente, a RBEE está classificada como B3 no sistema QUALIS-CAPES da área de Economia. Além disso, ela está indexada em algumas das principais bases de dados internacionais, incluindo EBSCO Publishing, EconLit e ProQuest.
As submissões, com identificação completa, informação para contato e afiliação institucional dos autores, devem ser enviadas para o E-mail rbee.regional@gmail.com, com o assunto “Edição Especial RBEE” e especificação da área de submissão no corpo do e-mail. A data limite para submissões é 31 de outubro de 2015. Ao realizar uma submissão, os autores declaram concordar com as políticas editoriais da RBEE. Os trabalhos submetidos serão avaliados e selecionados de acordo com a política editorial da RBEE, que está disponível em http://portalrevistas.ucb.br/index.php/rbee/index.
Comitê Científico
Prof. Dr. Carlos Vinícius Santos Reis
Prof. Dr. Leonardo Monteiro Monastério
Prof. Dr. Tito Belchior Silva Moreira
Prof. Dr. Wilfredo Sosa Sandoval
Áreas Temáticas
- Regional economics
- Urban economics
- Economic Geography
- Spatial Economics
- Spatial Analysis
- Housing and labor markets
- Fiscal Federalism
- New Economic Geography
- Transport economics
- Spatial analysis of Poverty and inequality
- Microeconomic analyses of spail phenomena
Formatação do artigo
Os artigos devem ser escritos em português ou inglês e ter extensão máxima de 35 páginas, numeradas sequencialmente. O texto deve ter espaçamento de 1,5 cm, fonte Times New Roman de tamanho 12 e margens de 2,5 cm. A submissão do artigo deve ser em formato Microsoft Word (versão 97 ou posteriores). A página de rosto deve incluir o título, um resumo de até 200 palavras, um abstract de até 200 palavras, 3 a 5 palavras-chave, em português e inglês e 1 a 5 códigos JEL. O texto deve começar na segunda página. As referências bibliográficas dos artigos devem ser elaboradas de acordo com as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT, NBR-6023) e apresentadas no final do texto.
Atenciosamente,
Carlos Vinícius Santos Reis
Leonardo Monteiro Monastério
Tito Belchior Silva Moreira
Wilfredo Sosa Sandoval
Editores da Edição Especial sobre Economia da Inovação
Revista Brasileira de Economia de Empresas

Ciência e fraude: um caso recente

Parecia um resultado sensacional. O experimento mostrava que bastaria uma conversa para trocar a posição das pessoas sobre assuntos controversos. O papo com um entrevistador abertamente gay mudaria a opinião do entrevistado e o efeito persistiria no longo prazo.
O problema é que o estudo, tudo leva a crer, é uma fraude. Outros pesquisadores mostraram que o autor inventou os dados. Ou melhor, ele pegou outra base de dados, colocou ruído e inventou a narrativa. O texto que revela a fraude é quase um conto policial. Vale muito a leitura. (Além de vir como código em R!)
 Meus pitacos:

  • Isso é a Ciência no seu pior e também no seu melhor. De um lado, mostra que a busca pelo sucesso na profissão pode levar gente inteligente a cometer crimes. De outro, mostra o funcionamento dos filtros da ciência. A fraude foi identificada e os autor será - certamente - punido. 
  • O evento revela um dos meus medos com os métodos quantitativos novos (randomized control trials, regressões com descontinuidade etc...). Quando a econometria era pobrinha, ninguém acreditava muito nos resultados. Depois da Credibility Revolution, o pessoal compra os resultados sem saber dos problemas do experimento ou mesmo das questões institucionais que foram mascaradas do parecerista. Não quero voltar ao passado, só quero que o ceticismo seja mantido.
(Agradeço  Lucas Novaes pelo link)

Luditas, os originais

Ótimo podcast sobre os primeiros Luditas. Com direito a trechos de entrevista com o Joel Mokyr  e Bob Allen, os maiores historiadores vivos da Revolução Industrial. Transcript aqui.
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