Manual / Congressos

Congressos


Os congressos são muito importantes, especialmente no começo de sua carreira. Eles são a oportunidade de você conhecer novas pessoas, ter uma panorâmica da comunidade e – o mais importante –perceber se quer fazer parte do meio acadêmico. Se aquele monte de gente parecida com você, discutindo os mesmos assuntos por três dias lhe agradar, é sinal que você está na carreira certa.
Alertas:
  • Tem surgido muitos congressos picaretas, com nomes bacanas (Interplanetary Conference on Technology, Media and Science) que são meros caça-níqueis e sem valor acadêmico. Orlando, Acapulco e Las Vegas são destinos comuns. Fuja disso, eles só querem o seu dinheiro. Se você quiser ir para esses lugares, use as suas férias.
  • É muito feio mandar o paper e nem ter planos de comparecer. Sua ausência é, por vezes, perdoável porque as fontes de financiamento tendem a dar a resposta muito em cima da hora. Caso você não possa mesmo ir, faça um favor aos organizadores, avise-os por e-mail assim que souber. É horrível entrar em uma sessão em que os papers são cancelados pela ausência dos apresentadores. Tumultua a ordem dos trabalhos e parece que você tratou o evento com desleixo.
  • ;No mais, divirta-se. Assista a todas as sessões. Tal com os filmes ruins, por pior que sejam as apresentações, a gente sempre aprende alguma coisa. Já as boas sessões podem ser melhores do que o melhor filme. Curta o papo no coffee break e aproveite a celebração de ter gente igual a você por perto.


Manual / Concursos para professor

Concursos para professor


Você terminou o doutorado e agora precisa ganhar a vida. O negócio é fazer um concurso para a carreira docente. Quer nas públicas, quer nas privadas a lógica é mais ou menos a mesma.
Antes de tudo, leia o edital. Leia mesmo. Em voz alta e marcando o texto. Já vi candidatos bons rodarem porque esqueceram um documento ou não viram que a prova era com consulta a livros.
Admito que existem concursos armados. Na minha área, eu já soube de alguns, mas não é um problema endêmico. Uma coisa é a banca já ter simpatia por algum candidato; outra é a mutreta esculachada. Muita gente, má perdedora, gosta de espalhar que tudo no mundo acadêmico é armação. É verdade que tem gente ruim aprovada, mas os bons sempre conseguem, cedo ou tarde, a sua posição ao sol.
Os critérios são subjetivos, então, é compreensível que, na dúvida, a banca escolha alguém que já tenha informação anterior. Daí a importância de estar bem-preparado na hora da prova, mesmo em um concurso em que há um queridinho: é muito constrangedor para a banca aprovar quem teve um desempenho evidentemente melhor do que os outros.
Uma dica para identificar se há armação é atentar para a abrangência da área. Se for algo muito específico que menos de meia dúzia entende e são todos amigos entre si, tenha certeza que é picaretagem. No outro extremo, concursos bastante divulgados tendem a ser mais honestos. Se você esbarra no anúncio do concurso em um monte de lugares, geralmente isso indica que se busca os melhores candidatos.
Na prova didática, siga as recomendações para as apresentações de congressos e uma adicional: respeite o tempo. Na maioria dos editais, existe uma definição bem rígida da duração da prova e uma banca honesta tem de tirar os pontos do candidato que perde a hora. Duas sugestões: se a sala não tiver relógio, use a) o alarme silencioso do celular no bolso da calça; b) se houver clima para tal, pergunte ao presidente da banca se ele poderia dar um aviso quando o limite mínimo e máximo se aproximassem.
Fundamentalmente: não pareça ser encrenqueiro na hora da prova. Lembre-se que a banca está escolhendo quem vai ser o seu colega por boa parte do tempo de sua vida. E nada pior do que um colega que arruma confusão nas reuniões, briga com os alunos ou com a direção. Então, nada de conflitos ou polêmicas pelos seus "direitos" com a banca. Não precisa ser humilde; basta não ter uma postura de confronto.
Por fim, mesmo que o número e a qualidade dos candidatos lhe assustem, vale a pena participar. Eu já vi candidatos ótimos ficarem de fora de um concurso porque temeram perder uns para os outros. Na hora final, só os medíocres apareceram e acabaram sendo aprovados. Na dúvida, compareça.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Congresso Latinoamericano de História Econômica

Esqueci de postar que o congresso está rolando na USP/São Paulo! As conferências são sensacionais: Victor Bulmer-Thomas e Gareth Austin. (Na LSE, Austin era especializado em África, legal saber que ele está interessado em América Latina). 

Easterly sobre o Ha-Joon Chang

A resenha que o  William Easterly fez de um dos livros do Ha-Joon Chang é sensacional. É de 2009 e - por algum motivo - eu comi mosca. Aí vai um trecho:

Fofoca sobre o Chang. Em 2002- acho- ele apresentou em um seminário na Universidade Cambridge um paper em que dava um monte de pauladas no Banco Mundial. Não pelos motivos certos*, mas apresentando uma interpretação conspiratória do trabalho dos economistas do Banco. Para azar dele, o gigante sociólogo e gente boa Michael Woolcock estava na plateia. Na perguntas, Woolcock retrucou algo como você-me-desculpa-mas-eu-trabalho-lá-e-não-é-nada-disso. Em vez de defender o seu ponto, ele deu para trás e disse  "É..eu exagerei, nem acredito tanto assim. Foi só por retórica. " Papelão.

*Ver os trabalhos do próprio Easterly e do Lant Pritchett.


Manual / Coautoria

Coautoria


Conforme as ciências ficam mais complicadas e a especialização cresce, nada mais natural do que contar com o apoio de seus colegas de ofício. A complementaridade entre os autores faz com que você aumente a sua produtividade e dê um gás ao seu currículo.
Em certas áreas, o número de coautores ficou ridículo. Existe um texto da área de Física com 2.991 autores. Imagino que para produzir aquele punhado de páginas foram necessárias milhares de horas, em dezenas de laboratórios. Então, nesse caso, não há problema.
Qual o número ótimo de coautores? A escolha do número de coautores é complicada. Coordenar o trabalho de vários autores cresce exponencialmente, especialmente quando o texto for mesmo feito a várias mãos. E as chances de incluir um mala que vai encher o saco dos outros também cresce. Cuidado, então, ao convidar, porque desconvidar é bem problemático. Quanto mais gente no projeto, maiores as chances dos aproveitadores se esconderem na lista de autores.
Algumas áreas, geralmente ligadas às Ciências Biológicas, costumam definir muito bem quem faz cada parte da pesquisa. Tipo: Fulano matou os ratinhos, Sicrano os ressuscitou e Beltrano eliminou os ratos zumbis. Isso é uma prática bem interessante, mas pouco usual nas ciências humanas e sociais aplicadas.
A questão da ordem dos autores varia muito. Em algumas áreas, o normal é a ordem alfabética; em outras, em ordem de contribuição para o artigo. Claro que medir isso é muito complicado. Afinal, cada um tende a superestimar a sua relevância para o trabalho final e isso pode gerar conflitos.
Quando a ordem alfabética não é seguida e todos tiveram a mesma contribuição, eu sugiro privilegiar os autores que estão nas fases iniciais da carreira. Uma exceção: nos trabalhos com grandes equipes, o coordenador do laboratório costuma ser o último da lista. Ele é também o "corresponding author", ou seja, aquele que é - no final das contas – o responsável pelo artigo.
O mais normal é que o seu orientador seja coautor na sua primeira publicação. Nesse caso, a fronteira ética é tênue. Quando o orientador efetivamente participou da confecção da versão para submissão, é certo que ele deve constar como coautor. Agora, quando ele lhe orientou, mas não contribuiu com uma vírgula adicional para a versão submetida, existem aqueles que acham isso errado. Eu não vejo muito problema, afinal, ele contribuiu para o conteúdo do seu trabalho. Deixo essa discussão em aberto.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Ciência e picaretagem

Ciência e picaretagem


Richard Dawkins, citando um editor da New Scientist.
No distante século XX, muita gente sofria de úlcera. Não só a doença era um incômodo permanente, mas também os doentes tinham dietas bem restritas e tomavam remédios diários. Para os médicos, as causas da doença eram o estresse e a alimentação inadequada. Na década de 1980, os médicos Gary Marshall e Robin Waren suspeitaram que a causa poderia ser uma obscura bactéria. Como ninguém acreditava nos pesquisadores, Gary tomou uma atitude radical (e nojenta): tomou um potinho cheio da bactéria suspeita. Bem rápido, ele ficou com uma úlcera horrorosa. Antibióticos o curaram. Em 2005, Gary e Robin ganharam o Nobel de Medicina.
Esse é um bom exemplo do sucesso da ciência. Parece até um filme ruim de Hollywood, mas é uma história real que está de acordo com os sonhos dos cientistas. Gary e Robin tinham uma hipótese que a comunidade científica repudiava, bolaram um teste que poderia mostrar que eles estavam com a razão e acabaram convencendo todo mundo.
Mas será que todo campo científico se encaixa nessa metodologia? Bem, vamos lá. O filósofo da ciência, Karl Popper – o mais influente do século XX – afirmava que hipóteses científicas são aquelas que podem ser mostradas como falsas. Se não houver jeito de mostrar que são falsas, então, não é ciência, é picaretagem. Por exemplo: uma cartomante que diz que a leitura só funciona quando o cliente tiver fé nunca pode ser desmascarada. Quando errar, ela sempre pode culpar o cliente. Um "cientista" que não tem uma hipótese testável ou arruma sempre um desculpa, sempre terá razão, assim, ganhará a discussão. Mas uma vitória em um jogo em que é impossível perder não é vitória.
Em outras palavras, na visão de Popper, uma ciência empírica deve formular hipóteses falseáveis. Deve existir a possibilidade de suas hipóteses se mostrarem falsas. "Amanhã acontecerá um eclipse do sol às 13h", é uma das coisas mais fáceis do mundo de testar.
Já as afirmações "Pena de morte para estupradores reduz o crime" ou "Vitamina C prolonga a vida" são testáveis, mas tremendamente mais complicadas de testar do que as hipóteses mais simples. Muitas outras coisas influenciam a criminalidade e a longevidade, sendo muito difícil determinar a causalidade. Em tese, os estupradores podem matar mais mulheres para que tenham menos testemunhas. Pessoas que tomam vitaminas podem ser mais cuidadosas com a sua saúde, ou mais ricas que as demais. Mesmo assim, ambas as afirmações são científicas porque podem, ao menos em princípio, serem testadas e mostradas falsas.
Já afirmações como "deus nos ama", "os sonhos são expressões do inconsciente" ou a "a luta de classes é o motor da história" não são Científicas com C maiúsculo. As pessoas que acreditam na veracidade delas não podem (e nem querem!) propor testes de suas hipóteses.
O físico Carl Sagan conta uma história que ilustra bem esse problema das afirmações não falseáveis. Um sujeito conta para um cientista que tem um dragão vivendo na garagem. O cientista diz: "Ótimo? Vamos lá ver". Aí o maluco diz: "É, mas ele é invisível!". O cientista replica: "Sem problemas, vamos jogar farinha no chão da garagem para ver as pegadas". E o doido: "Pena que o dragão só voa". Aí o cientista continua: "Vamos jogar tinta no ar!". Resposta: "O dragão é feito de um material cuja tinta não adere...".
Para cada proposta de testar a hipótese "existe um dragão na garagem", o maluco (ou picareta?) vinha com uma saída que tornava impossível testá-la. O cientista foi incapaz de provar que o dragão não existe, mas de forma nenhuma isso prova que o dragão está lá. Exatamente o contrário é verdadeiro. Uma hipótese passível de refutação é simplesmente não científica. Chame a polícia ou o hospício.
Um ponto importante na visão popperiana é que você só pode falsear ou deixar de falsear uma teoria. Por mais observações que estejam de acordo com a sua hipótese, não há como ter certeza de que se está sempre certo. Pode ser que as hipóteses sejam válidas só em algumas situações e não em outras. Veja a Física que aprendemos no ensino médio. Aquelas leis de Newton funcionam em um monte de situações. Além de lhe tirarem o sono na véspera da prova, as leis servem para calcular quantas horas vai demorar uma viagem, ou a trajetória aproximada de um tiro de canhão. Agora, as leis perdem o sentido quando tratamos do muito pequeno, ou do muito rápido. Não é que o velho Newton errou no sentido trivial do termo, mas apenas que a sua teoria tem limites de validade. Dr. Einstein e cia. tiveram de vir em socorro e ampliaram o objeto da Física.
Por mais que se tenha evidências de que uma hipótese científica é verdadeira, nunca se pode bater o martelo em favor de uma teoria. Só dá para bater o martelo "contra" uma teoria. Nunca a favor. Corte os termos "prova", "comprova" e "verifica" de seu vocabulário. Você só consegue não falsear uma hipótese. Existem profundas explicações de Filosofia da Ciência para isso, mas, por enquanto, basta você assumir a humildade científica. Lembre-se que o ser humano não passa de um macaco ridículo, medroso, em um pedaço de terra que gira ao redor de uma estrela irrelevante. Achar que você entendeu uma lei definitiva da natureza ou da sociedade seria muita pretensão.
Tem gente que diz que a psicanálise estaria no mesmo nível da cartomancia: afinal, qualquer coisa que aconteça pode ser explicada por um analista hábil. A psicanálise, junto com boa parte da Antropologia, não tem hipóteses testáveis. O negócio é interpretar os eventos dos indivíduos e das sociedades. São ciências interpretativas que não fazem previsões. Esses campos almejam dar sentido às coisas. Quando um antropólogo vê cerimônia em uma ilha perdida do pacífico, ele tenta entender qual o papel daquele ritual, interpretá-lo.
Por mais que eu seja fã da visão popperiana, penso que as antropologias ou as psicanálises da vida não devem ser rotuladas como não científicas. Tudo bem que elas não apresentam hipóteses falseáveis. Julgá-las pelas métricas da Física ou da Medicina seria maldade e rotulá-las como não científicas seria perder um tanto do conhecimento humano. Elas são outro tipo de ciência e só.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Caderno de campo

Caderno de campo


Os antropólogos levam o caderno de campo muito a sério. Na verdade, toda a Antropologia se baseia nele. A propósito, se você é antropólogo, pule essa seção porque ela não vai lhe ensinar nada novo.
A ideia é você ter um caderno em que vai anotar, em ordem sequencial, todos os dias de pesquisa. Você escreverá aquilo que você fez, pensou em fazer, referências que esbarrou, comentários sobre artigos que leu e gostou ou não gostou. Tudo isso deve ser anotado no caderno.
Não pense que você se lembrará das suas atividades durante a sua pesquisa. Em duas semanas, os textos que você passou os olhos vão para o mesmo inacessível lugar da sua cabeça em que você guarda a sobremesa que você comeu na semana passada. Ou seja, estão perdidos para sempre. Um caderno de campo bem-mantido é como uma memória externa que lhe impede de repetir passos já dados, além de guardar aquelas ideias que parecem interessantes no momento que você as tem (se a ideia é boa, ou não, você só descobrirá depois. Mas o importante é que você a tenha por escrito). Nossa memória é tão pouco confiável que, muitas vezes, só acredito que fui eu que escrevi porque seria muito difícil acreditar que um hacker invadiu o meu computador para acrescentar trechos no meu caderno.
O caderno não é um fim em si mesmo. É só um instrumento e não vale a pena gastar muito tempo mantendo-o organizado. Usar canetas de cores diferentes para cada tipo de anotação ou fazer desenhos caprichados acabam se tornando uma forma de procrastinar o trabalho sério mesmo.
Seja, contudo, rigoroso no caderno. Imagine que está escrevendo não para você, mas para uma outra pessoa que assumirá o seu trabalho no futuro. De certa forma, isso acontecerá. O seu eu-futuro é outra pessoa, bem parecida com você, mas ele daqui a dois meses (ou dois dias) não lembrará do que você sabe hoje. Seja generoso com o seu eu-futuro. Anote tudo de forma detalhada para que ele possa refazer os seus passos, caso isso seja necessário.
Qualquer caderno serve, contanto que ele sempre esteja com você, o tempo todo da pesquisa. Eu sou a favor do caderno em espiral de tamanho médio. Os cadernos em espiral ocupam menos espaço e ficam melhor quando abertos ao lado do computador.
Uma alternativa ao caderno de campo tradicional é você manter um arquivo digital em seu notebook. As vantagens são possibilidade de backup e o uso do recurso de busca dentro do arquivo. Mas o problema é que você provavelmente não anda com o seu notebook todo o tempo. Além disso, o tempo de boot ainda é um desestímulo para que se anote isso tudo que vem a sua cabeça.
Tablets são uma opção intermediária: não servem para longas notas, mas são ágeis o suficiente.; Enfim, não existe solução única. Cada um descobrirá a melhor forma de ter um caderno de campo. O importante é tê-lo.
Manter um blog público sobre a sua pesquisa é uma opção menos desejável. Pois, além de todos os problemas do notebook e de conectividade, a falta de privacidade restringirá os seus movimentos e pensamentos. A única vantagem é que outras pessoas da blogosfera poderão lhe ajudar. De qualquer forma, converse com o seu orientador antes de fazê-lo.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Recomendações de documentários

Esses são os documentários mais bacanas que vi no último ano:
  • Under the sun: cineasta russo foi contratado pela Coreia do Norte para fazer um filme de propaganda. Ele copiava escondido os cartões de memória, antes entregar para os censores, e conseguiu sair de lá com o material. Excelente, mas muito triste mesmo. O trailer já dá uma ótima ideia;
  • City of Gold: sobre o Jonathan Gold, crítico de comida do LA Times e ganhador do Pulitzer. Ele foi o primeiro a descobrir as comunidades de imigrantes e a escrever sobre os restaurantes locais. Na verdade, é um ótimo doc sobre a Los Angeles de hoje;
  • Iranian Ninja: as mulheres que treinam para ser ninja no Irã de hoje. Não preciso dizer mais nada.
  • Wolfpack: seis (ou cinco?) meninos e uma menina que foram criados praticamente trancados em um apartamento em Nova Iorque. Os pais esquisitões, contudo, os deixavam assistir aos filmes policiais que quisessem. A cineasta os descobriu quando os mais velhos já eram adolescentes;
  • What Happened, Miss Simone? Eu não sou sofisticado o suficiente para gostar da Nina Simone, mas o documentário é sensacional. (Só gosto das coisas mais pop, tipo: 
)

Manual / Carta de recomendação

Cartas de recomendação


Ouvi dizer que o Albert Einstein era bastante generoso. Bastava qualquer um pedir uma carta que ele fazia uma elogiando o candidato. O problema é que – com o tempo – suas cartas perderam o valor. Quem apareceria com uma carta de recomendação por ele assinada, já mostrava que era picareta.
Essa historinha reúne os problemas das cartas de recomendação. O valor da sua carta dependerá não só da reputação do professor, como também da sua reputação como fornecedor de cartas. Eu sou um feroz opositor da exigência de cartas de recomendação. Existem tantos problemas nas cartas de recomendação que, no final, não se sabe mais o que elas realmente trazem de informação sobre o candidato. Já soube até de um professor que escreveu uma carta detonando seu aluno "querido" para que ele não fosse aceito em outro mestrado e continuasse na mesma universidade.

Aos recomendados

Em geral, peça cartas para os professores com que você realmente teve contato. A carta que ele escreverá soará sincera e não uma daquelas padronizadas que os professores carentes por atenção às vezes fazem. Leve em conta a reputação e a associação do professor com o curso que você almeja. Se o recomendante for um ex-aluno, com bom desempenho, melhor ainda. Eu sei que o mundo deveria ser mais meritocrático, mas não funciona assim.
Alguns cursos pedem que as cartas sejam enviadas diretamente pelo recomendante. Nesse caso de cartas seladas, o importante mesmo é que – de jeito nenhum – você peça para ver a carta.
Outra coisa: se o professor disse que está sem tempo ou não lhe conhece para fornecer a carta, não insista. Normalmente, ele está só querendo lhe poupar de uma carta que lhe prejudicará.

Aos recomendantes

Se você é um professor produtivo, a solicitação do aluno será mais um daqueles pequenos fardos que lhe tiram a atenção. Escolher os adjetivos apropriados e as hipérboles convincentes tomará uma importante meia hora do seu precioso dia. Se o aluno é muito bom mesmo, peça para ele escrever uma prévia do texto. Depois, você poderá fazer os retoques necessários. Para todos os outros alunos, vai dar mais trabalho corrigir do que fazer uma do início (obviamente, é sempre bom ter um arquivo "carta_de_recomendacao.docx" com os clichês mais utilizados).
Para os alunos que você não conhece, ou não recomendaria, just say no. Escolha a desculpa: "Perdão, mas eu não o conheço bem" ou "Puxa, eu tenho uma briga com alguém da universidade que você quer ir e isso só lhe prejudicará".

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Manual / Brigas, críticas e debates

Brigas, críticas e debates


Bem, aí vai a minha regra:
Nunca brigue se o adversário estiver a mais de dois desvios padrão de você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico.

Se você não sabe o que é desvio padrão, nenhum problema. Traduzindo: nunca brigue se o adversário for muito melhor ou pior do que você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico.
Se o adversário é muito mais inteligente ou conhece muito melhor o assunto, ouça-o com atenção, faça as perguntas relevantes e aprenda. Não é vergonha. Agora, se o sujeito é burro ou ignorante no assunto, o melhor é desconsiderar. Afinal, qual é a graça de ganhar uma discussão com um cara desses? Não há jeito de se sair bem. Se você vencer a briga, você terá apenas vencido a briga com um idiota. O que, cá entre nós, não é lá grande mérito. Além disso, os observadores sensatos vão lhe julgar como covarde. Agora, se você tropeçar e perder a discussão, você terá perdido para um idiota. O que, também, não vai ficar bem para você. O melhor mesmo é ignorar as críticas cretinas. Ignorar é ignorar mesmo. Nada de ironias. Só um "É, pode ser", já basta.
No geral, lembre-se: a vida é muito, muito curta mesmo para você perder tempo com besteiras. Ao invés de desperdiçá-lo em brigas bobas, leia um livro, passeie ou sei lá... corte as unhas do pé. Certamente é um gasto melhor do seu tempo do que ficar batendo boca ao vivo ou na internet.
Brigue a boa briga pelo motivo certo e com quem merece. Se você tem razão e o adversário merece a sua energia, não hesite em defender a sua posição com neurônios e saliva. No mais, deixe para lá.
As mães ensinam que é feio criticar os outros. Por simetria, achamos que receber críticas também é ruim. Críticas são boas. São boas para quem as recebe. O espírito do argumento do John Stuart Mill para a defesa da liberdade de expressão também é válido no meio acadêmico. Se quem critica estiver certo, tenho a oportunidade de corrigir os erros. Se quem critica estiver errado, sou obrigado a organizar o meu argumento para melhor rebatê-lo. De qualquer forma, só saio ganhando.
Trabalho bom é criticado. Trabalho ruim é ignorado. Nada mais triste do que apresentar algo e provocar apenas o tédio e o silêncio da plateia. Não ter críticas significa que tudo está tão errado que nem vale a pena sugerir ou questionar. Ser criticado é bom, porque significa que o seu trabalho chamou a atenção de alguém. Ouça, pense e incorpore se considerar necessário.

Crítica externa

Imagine que você é um biólogo e tem de explicar a existência do ornitorrinco. Um bicho com bico de pato, bota ovos, mas amamenta... é mesmo uma bizarrice. Aí você baseia a sua argumentação nos mecanismos darwinistas de seleção natural e no meio ambiente, que permitiram que o bicho evoluísse na Oceania. No final das contas, o público entende que o ornitorrinco até que não é um absurdo. Então, um sujeito lhe interrompe e diz: "sua apresentação está toda errada. Todos nós sabemos que o ornitorrinco é a prova de que deus tem senso de humor".
Contra uma crítica externa como essa, a sua resposta adequada é: próxima pergunta. As pessoas envolvidas em qualquer brincadeira compartilham pressupostos, raramente explicitados. A pesquisa dentro de uma linha de pesquisa se dá sem que esses pressupostos, as regras do jogo, sejam discutidos a cada trabalho. No caso do ornitorrinco, a regra implícita é: "não use a hipótese de que deus existe. Ser criticado por não segui-la é mais ou menos como dizer para um maratonista "Por que você não usou uma bicicleta?".
Meus exemplos são exagerados, mas eu preciso deixar claro o porquê das críticas externas serem tão pouco relevantes. Se você estiver apresentando um trabalho com base marxista, de que adianta alguém dizer que não concorda com a ideia de luta de classes? Se você é analista freudiano, imagine o absurdo de alguém questionar a existência do superego. Infelizmente, ainda se ouve muita crítica externa nos debates. Quem a faz, não entendeu que a conversa acadêmica fica travada se os pressupostos forem discutidos a cada instante. Se não concordam com as hipóteses básicas, busquem a sua própria turma ou criem a sua própria brincadeira, com suas próprias regras. Boa sorte, mas não encham o saco.

Crítica "Por que você não fez o trabalho que eu queria?"

Nesse caso, apesar de muitas vezes ser uma crítica interna, quem a faz quer que você responda a uma pergunta de pesquisa diferente daquela que você respondeu (ou tentou responder). Ou seja, quem a faz propõe que você faça outro trabalho. Nada contra alguém sugerir os próximos passos da pesquisa, minha bronca reside no tom de crítica. A resposta padrão é: "Obrigado pela sugestão" e bola para frente.

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