Trem-bala? Não, obrigado.

Marcos Mendes e Alexandre Guimarães nos alertam: ainda dá tempo de cancelar o projeto do Trem-bala RJ-SP e economizar o equivalente a 50 Maracanãs.
"O projeto [do trem-bala] não é prioritário porque será um meio de transporte de luxo, com passagens caras, destinado a transportar pessoas de renda alta entre Rio e São Paulo. O nó urbano em que vivemos evidentemente indica que o prioritário é fazer São Paulo, Rio e demais cidades saírem do engarrafamento permanente que existe dentro de cada cidade, em vez de investir em transporte rápido, acessível a poucos, entre as cidades."


Cide municipal é uma má ideia


  • Um tributo local deve ter uma base tributária imóvel.  Se não tiver, é fácil para o contribuinte escapar. É por essa razão que o IPTU é um imposto local e o Imposto de Renda, não. Carros - surpresa! - são móveis. Uma Cide municipal faria com que os municípios das periferias metropolitana oferecessem isenções. No final das contas, a nova contribuição geraria ineficiência e baixa arrecadação;
  • Além disso, andar de carro não é o problema da mobilidade de mobilidade urbana. O problema é andar de carro em zonas congestionadas. A Cide incidiria igualmente sobre quem usa o carro na Av. Paulista às 18:30 e sobre quem dirige de madrugada em uma rua deserta. (Ter carro também não é problema. Inglaterra e Japão têm o dobro no número de veículos per capita do que o Brasil);
  • Pedágio urbano, por favor.

A quem interessar possa,

aí vai minha posição ideológica: libertário (levemente) esquerdista.

Economic Left/Right: -1.62
Social Libertarian/Authoritarian: -5.38
Isso significa aproximadamente nada. Teste aqui. (via Drunkeynesian)

O verbete "Apresentações em Congressos e Seminários" do "Manual de sobrevivência na universidade"

Aí vai mais um dos 58 verbetes do livro (Amazon.com.br e Amazon.com):
Apresentações em congressos e seminários 
●      Conheça o seu público. Cada grupo tem a sua cultura. Na Administração de Empresas, o objetivo é entreter o público. Já se você for um filósofo, sua meta é entediar o público, fazendo com que uns dois ou três membros da plateia pensem seriamente em suicídio. Sério, uma das funções das apresentações é mostrar que você entendeu as regras do grupo acadêmico e está pronto para ser aceito. Sugiro que você assista um bom número de apresentações dos membros mais experientes da tribo antes de ser o protagonista.
●      Ensaie, ensaie, ensaie. Até escola de samba ensaia, por que você não iria ensaiar? É ensaio mesmo, não vale ensaiar na sua cabeça. Tente reproduzir as condições reais da apresentação. Nas primeiras vezes, você vai "sair do papel" para consertar uma coisa ou outra da apresentação. Tudo bem. O importante é fazer ao menos dois ensaios integrais, sem interrupção. E sempre com o relógio. Se tiver plateia simulada, melhor. A sua família e os entes amados existem para isso.
●      Imprima uma versão para ser lida no tempo que lhe foi atribuído. Caso tudo dê errado e você surtar, resta sempre a alternativa de sentar e ler. Parecerá que você é um filósofo.
●      Para distribuir, imprima um número de cópias bem menor do que o esperado na plateia. Umas oito cópias são suficientes.
●      Chegue bem antes e teste a apresentação em PowerPoint. O melhor é você gravar o arquivo no desktop e dar uma passada rápida nos slides. Quando o público chegar, parecerá que você é o anfitrião, e eles vieram só para lhe ver.
●      Não seja engraçadinho de início. Nada pior do que uma piada ou historinha que não funciona.
●      Seu objetivo máximo é persuadir a plateia de que o seu trabalho é supimpa. Primeiro, você tem de convencê-la que ele trata de algo relevante ("ora, pois nunca pensei que o preço da goiabada em Vassouras, durante o século XVIII, fosse tão interessante", dirão alguns). Depois, você tem de mostrar que o que você tem a dizer é importante ("quer dizer que a goiabada caiu de preço! Quando eu poderia imaginar isso!"). Não os entedie com detalhes irrelevantes (mantenha apenas os detalhes irrelevantes pitorescos). A pergunta que você tem de se fazer é: "O que tenho de interessante para dizer" (não apareceu nada? ... reformulando: "O que tenho de menos desinteressante para dizer?")?
●      Enfatize o que você tem de novo e não se preocupe com os detalhes dos métodos. Quem os conhece não precisa que você explique, e quem não conhece não aprenderá na sua apresentação.
●      Não é fraqueza assumir os seus erros e possíveis omissões. Mas, tal como na sua vida pessoal, isso deve ser mais um sinal de autoconhecimento do que autodepreciação real.
●      É legal mostrar que você teve um trabalhão, mas isso deve ser feito da forma breve e discreta. É melhor dizer: "após rodar dois milhões de regressões..." do que mostrar dez tabelas com os resultados das dez regressões.
●      Não responda uma a uma às perguntas do debatedor. Deixe que ele faça todas e vá tomando nota. Quando ele terminar, agradeça e responda só o que você quiser/souber. Ninguém vai perceber. Se não der certo, você tem dois estratagemas: a) "ótima pergunta/sugestão, incorporaremos esse debate em uma versão posterior"; b) "Essa é uma ótima pergunta, mas exige uma resposta longa. Poderíamos discutir na hora do cafezinho" (fuja sem olhar para trás).
●      Muitas vezes, tem um velho louco aposentado, um militante ou um desocupado na plateia. Ele fará um longo discurso e umas perguntas sem pé nem cabeça. Segure o riso, agradeça e desconverse.
●      Roupas: respeite a linha geral da sua tribo e da ocasião. O meu conselho é tão verdadeiro quanto inútil: "esteja um pouco mais formal do que a plateia". Se todo mundo está de camiseta e jeans, vá de camisa social e jeans. Se todo mundo está de camisa social e jeans, vá de calça social. Se todo mundo está de paletó sem gravata, vá com gravata. Se todo mundo está com paletó escuro e gravata, você se enganou e está em um enterro. O problema óbvio desse conselho é saber como os outros estarão vestidos. Na dúvida, pergunte ao seu orientador ou a alguém mais experiente. Eles não vão rir de você.
●      Fique tranquilo. A plateia é ignorante (ao menos do assunto do seu paper) e nem tão interessada assim. Você conhece as limitações do seu estudo melhor do que ninguém (mesmo que ambas as afirmações sejam falsas, é melhor se autoenganar). Na verdade, eles estão ali porque o ar-condicionado está bom, o coffee break está ruim, ou porque estão esperando outro trabalho.
Já leu todo o livro? Não esqueça de avaliar lá na Amazon. Não leu? Então tá. Eu gosto de você mesmo assim. 

Verdades desagradáveis sobre o transporte público

  1. Reduzir a tarifa só mediante a desoneração do transporte público é meia-sola. Se você não cobra de uns, o resto da população paga. Parece indolor, mas não é. Com a reclamação de municípios e estados, a conta - como sempre - acabará no governo federal (ou seja, todos). Os políticos apostam na ilusão fiscal para que a medida seja aplaudida. Como ninguém sabe direito o quanto paga, fica mais fácil engolir; 
  2. Se ficar só na desoneração, o trânsito e o transporte público continuarão tão ruins quanto eram. Para mudar mesmo é necessário desagradar: a) os donos de empresas; b) os motoristas de carros e motos;
  3. O transporte individual nas metrópoles deve ser taxado. O professor de Introdução à Economia nos ensinou: cada veículo na rua impõe um custo aos demais. Essa fração de segundo a mais de congestionamento atinge cada um dos outros na via e isso não é contabilizado pelo motorista. Com um pedágio urbano isso pode ser corrigido. (O uso de tarifas para combater congestionamento de estradas já estava no debate entre Pigou e Knight lá na década de 1920!);
  4. Não basta melhorar o transporte público, tem que encarecer o privado. (Eu, hipócrita,  tenho um bom ônibus e metrô disponíveis, mas costumo vir para o trabalho de carro.)
  5. A ideia de passe livre é ruim devido aos pontos 1 e 2;
  6. A ideia dos libertários de desestatizar o transporte público é ruim pelo ponto 3;
  7. Hoje tem manifestação do MPL em Brasília. Que tal pedirem, para começar, o fim do estacionamento gratuito na cidade? Ou algo mais modesto: multas para o estacionamento irregular?
  8. Quer consertar o trânsito de sua cidade? Nomeie o meu amigo Carlos Henrique como czar dos transportes. (Ele não vai aceitar, mas  sabe tudo sobre o assunto e já esteve de todos os lados da mesa. Dizem que já foi até maquinista, mas isso eu acho que é lenda).

Breaking news! O Carlos Henrique será entrevistado hoje na Globonews pela Mônica Waldwogel!

"Is Regional Policy a Waste of Time?"

Ótimo programa de rádio da BBC, com direito a entrevistas com  Ed Glaeser e Nick Crafts.  Várias semelhanças com o caso brasileiro e também divergências. (Curioso como na Inglaterra alguns indicadores sociais são melhores fora do centro econômico).

Por que agora?

Em Austerity and Anarchy: Budget Cuts and Social Unrest in Europe (1919-2009) Ponticelli e Voth mostram que medidas de austeridade causaram manifestações. Já no Brasil, o desemprego está em baixa, os salários reais em alta, a seleção está ganhando e o governo não sinalizou qualquer redução de gasto. Por que tantas manifestações agora? O @NPTO sugeriu que os manifestantes poderiam estar antecipando a austeridade futura. Sei não, isso continua um enigma para mim.
Eu só consigo antecipar duas coisas: 1) agora é que o governo não vai mesmo adotar medidas recessivas; 2) os aumentos de preços das passagens voltarão a ser em janeiro, quando todos estão de férias. Ouvir os pedidos do Mantega acabou gerando consequências indesejadas.
PS. Ai... ai... Passe Livre é uma má ideia, mas conseguiram arrumar uma ainda pior: "A Desestatização do Transporte Coletivo".

Pedágio urbano - um argumento de escolha pública

Os argumentos econômicos a favor de pedágio urbano são conhecidos: é o jeito de fazer com que o motorista pague a externalidade negativa de ocupar uma via congestionada. Fazendo o motorista sentir no bolso todos os custos da sua ação, ele não sobre-utilizaria o recurso. Acertar direitinho o preço eficiente seria só uma questão tecnológica e de elasticidades. (Segundo um estudo que parece bacana, um pedágio de R$5 reduziria em 28% o uso de carros em SP. Não encontrei o trabalho completo na Internet.)
Eu chuto que há um efeito adicional desejável do pedágio urbano. Se ele fizer com que mais eleitores passem a andar de transporte público, o setor será mais bem administrado. É do Hirschman a frase: "Políticas apenas para pobres são pobres", né?
Se a classe média também estiver na parada (ouch...), tudo melhora.

Zizek na Google


Em 07:50, o meu malucão de estimação faz a reflexão sobre os banheiros e ideologia. 

Mini-curso Prof. Bértola na USP

O ótimo - e super gente boa - Prof. Luis Bértola - dará um mini-curso Desigualdade e Desenvolvimento na América Latina na USP/SP no dia 19 e 20 de junho.
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