12/04/14

Uma dúvida rápida sobre o FPE

Todo o rolo sobre o FPE resultou na Lei Complementar 143/2013. Entre as mudanças estava a substituição do PIB per capita pela renda per capita estadual nos critérios de distribuição. Isso foi motivado por aqueles estados em que aquele era maior do que este.
Foi um erro: colocou em uma pesquisa amostral, a PNAD, a responsabilidade pelo resultado; antes, era uma dado de contas regionais. Pobre IBGE.
O que eu não entendi da confusão atual é que a Lei diz:
§ 3o  Para efeito do disposto neste artigo, serão considerados os valores censitários ou as estimativas mais recentes da população e da renda domiciliar per capita publicados pela entidade federal competente.”
 Qual a razão da pressa em ter as estimativas já em janeiro 2015 se na Lei valem as estimativas "mais recentes"? Alguém sabe?
PS: Não é uma pergunta retórica. Eu realmente quero entender.

05/04/14

Erros de um técnico do Ipea e acertos de outro

Aqui. Errei faz quatro anos. Ah, ainda tenho outro erro mais recente aqui e, certamente, devo ter feito mais um monte de erros que seguem ocultos. Foi bem fácil para mim assumir esses erros. Afinal, ninguém leu os trabalhos e os temas não eram polêmicos.

Eu já admirava o Rafael Osório pela seriedade, produção e capacidade técnica. Agora eu o respeito ainda mais pela dignidade com que lidou com a situação. Procurou o erro, encontrou, assumiu, pediu desculpas e se puniu. Quem dos seus críticos teria dado todos esses passos?

21/03/14

De graça: "Manual de sobrevivência na universidade"

Até amanhã: aqui (amazon br) e aqui (amazon us).
O livro, admito, é um fracasso de vendas, mas os meus poucos leitores deram 4,6 e 4,8 estrelas aqui e lá. Valeu!

11/03/14

Pausa no blog

Por falta de tempo e de cabeça, o blog ficará paradão por mais um tempo.
Enquanto isso, fiquem com um link para duas entrevistas exclusivas super bacanas que saíram na Revista Desafios e que eu me esqueci de postar:
- Banerjee sobre experimentos e políticas públicas;
-  Hanuschek sobre economia da educação.
Adianto para vocês que o próximo número virá com um perfil bem interessante do grande Albert Fishlow. PS: Eu sou do comitê editorial da revista, mas -infelizmente - não posso tomar para mim os méritos dessas ótimas escolhas.

05/02/14

Hausmann, economistas e dentistas

Tem uma frase do Keynes muito boa, aquela usada pelo Drunkeynesian como lema no blog:
 "If economists could manage to get themselves thought of as humble, competent people on a level with dentists, that would be splendid." 
Os dentistas eram arrancadores de dentes na época do Keynes. Gente que agia só no momento de crise para diminuir a dor, mesmo que as custas de um ou dois molares.
Eu concordo com a frase do Keynes. Economistas devem ser como dentistas, mas dentistas contemporâneos. Ou seja, o cara que diz: "escove os dentes depois das refeições", "use flúor e fio dental",  "não coma tanto açúcar" e outros conselhos que descumprimos religiosamente. Ou então que aja como o ortodontista que vai, aos poucos, corrigindo uma ou outra distorção.
O Haussman escreve aqui que os economistas deveriam agir como o autocomplete do google, ou como um cérebro,  antecipando os próximos passos. A experiência internacional acumulada apontaria o caminho a seguir na próxima fase do desenvolvimento econômico.
Enfim, eu nem critico a visão "ferroviária" do desenvolvimento implícita na proposição do Hausmann. Eu critico sua ambição. Eu prefiro algo mais modesto, na linha de bom dentista-economista: "prefira rules à discretion", "elimine as distorções alocativas", "combata a inflação" e assim por diante.

04/02/14

International Conference on Finance, Banking and Regulation - Prorrogação do prazo

Aviso: meus colegas da UCB que organizam o evento prorrogaram para 10 de Fevereiro o prazo para submissão de papers. A propósito, artigos em português também serão aceitos.

29/01/14

Viva as cotas de importação!

Como vocês sabem, cotas de importação são a forma mais estúpida de protecionismo. Geram aumento de preços dos importados, rent-seeking e nada de arrecadação. Ontem aprendi que elas tiveram tiveram efeitos colaterais positivos para a economia global...
A história é a seguinte: Nixon lutou pelo Multi Fibre-Agreement para proteger a obviamente decadente indústria de roupas norte-americana. O acordo impôs uma baita restrição quantitativa às exportações sul-coreanas. A solução foi levar as fábricas coreanas para outros países não incluídos no acordo, como Bangladesh. Hoje o país é um tremendo exportador de roupas. Bangladesh ainda é bem pobre, o setor tem lá seus problemas, mas umas três milhões de pessoas (90% mulheres) trabalham no setor. As cotas do Nixon, quer diria, apressaram a globalização da produção de roupas.
Eu aprendi tudo isso no ótimo podcast Planet Money. Eles entrevistaram até os envolvidos diretamente na instalação da primeira fábrica em Bangladesh. [Eu fiquei emocionado com os depoimentos (mas acho que só eu me emociono com essas coisas)].

28/01/14

O futuro energético do Brasil

Com base nessa notícia explosiva (desculpas),  meu amigo Mauro Oddo, livre-pensador  e engenheiro, fez a seguinte conta:
"500 litros de gás por dia por vaca;
Rebanho bovino brasileiro = 210 milhões de cabeças; 
Produção diária de gás vacum = 105 milhões de metros cúbicos por dia; 
Produção diária de gás natural no Brasil = 65 milhões de metros cúbicos por dia. 
Ou seja, a Petrobrás não produz em seus campos nem a metade o gás produzido pelas nossas vaquinhas!!!! Tá na hora de criar a Peidobrás!!! É um manancial mais rico que o pré-sal!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

Quatro coisas que você não sabe sobre econometria


  1. Você acha que o b estimado de uma dummy em uma regressão semilog deve ser entendido como o impacto b*100 na variável dependente, né? Você (e o Robert Lucas) estão errados, como mostraram Halvorsen e Palmquist (1980). Faz uns 6 anos eu já havia alertado para isso cá no blog. Contudo, outro Lucas, o Mation, me contou ontem que eu continuava errado. Tem um paper do Peter Kennedy (1981) que corrige um probleminha do trabalho anterior.
  2. O Stata acha que missing é um valor muito grande. Se y for missing e você fizer gen x=1 if (y>10), vai ter x=1 para todos os casos. A justificativa dos criadores do Stata está aqui.
  3. No R, experimente fazer .1==.3/3.Viu? Ele acha que são números distintos. Mais comportamentos estranhos em R Inferno (dica do Bernardo Furtado, eu acho)
  4. A Norah Jones é filha do Ravi Shankar. Veja aqui. (Tá, não é econometria, mas é tão inusitado que eu tinha que contar para alguém).

23/01/14

Diversos

"Comparing the incidence of taxes and social spending in Brazil and the United States" por Higgins & Lustig

Acabou de ser lançado.  Vejam que curioso: os EUA redistribuem mais que o Brasil. Contudo, se você considera que os brasileiros menos pobres pagam pelos serviços privados de saúde e educação não-superior, ambos redistribuem na mesma medida. Dica do Christian Lehmann. (O site do Christian, a propósito, vale uma visita. Ele aplica equilíbrio geral para o estudo do bolsa família. Coisa fina).

 Sean Higgins and Nora Lustig

 Abstract: 
We perform the first comprehensive fiscal incidence analyses in Brazil and the US, including direct cash and food transfers, targeted housing and heating subsidies, public spending on education and health, and personal income, payroll, corporate income, property, and expenditure taxes. In both countries, primary spending is close to 40 percent of GDP. The US achieves higher redistribution through direct taxes and transfers, primarily due to underutilization of the personal income tax in Brazil and the fact that Brazil’s highly progressive cash and food transfer programs are small while larger transfer programs are less progressive. However, when health and non-tertiary education spending are added to income using the government cost approach, the two countries achieve similar levels of redistribution. This result may be a reflection of better-off households in Brazil opting out of public services due to quality concerns rather than a result of government effort to make spending more equitable.

21/01/14

Ainda Localistas X Globalistas

Uma  banho de chuveiro depois eu me toquei que a diferença de opinião sobre programa Primeira Chance poderia ser interpretada como o velho dilema eficiência X desigualdade.  Se para você identificar talentos  e transferi-los para as boas escolas particulares é bom, então eficiência está acima de tudo. Por outro lado, você pode criticar o programa pelo aumento da desigualdade. As crianças das escolas ruins ficam ainda piores (porque perdem o efeito contágio dos bons alunos) e as melhores escolas ficam ainda melhores. O principal problema dessa interpretação é que eu perco o meu exemplo da polêmica "Localistas" X "Globalistas".
Vamos a outro exemplo mais apropriado então:  inventam um jeito que faz com que o número de golfinhos mortos por redes de pescadores de atum caia 50%. Localistas comemoram: "Menos 50%  de vítimas!". Globalistas: "Nenhum golfinho deve morrer. Essa invenção é uma enganação".
(Notem que não é exatamente uma diferença entre pragmáticos e idealistas.  De qualquer modo, imagino que alguém já deva ter feito a distinção  "Localistas" X "Globalistas", eu só não tenho tempo saco de procurar.)

Da arte nos abstracts

Aqui vai um exemplar notável. (via urban demographics, como sempre).
Outras contribuições memoráveis: aqui (o abstract original é só: "No, and maybe not") e um outro que eu já comentei.

"Localistas" e "Globalistas" nas políticas públicas

O texto do Gaspari relata o programa Primeira Chance que dá bolsas e apoia alunos brilhantes oriundos de escola públicas no Ceará. É um bom exemplo para ilustrar uma fonte de polêmicas nas políticas públicas.
Chamarei-os de "Localistas" e "Globalistas". "Localistas" apoiam quaisquer políticas que gerem ganhos marginais de bem-estar, mesmo as que não conduzam a um ótimo global.  Ou seja, eles se satisfazem com políticas que aproximem a sociedade de um ótimo local. Já os "Globalistas" são mais exigentes. Eles só defendem políticas que movam na direção do ótimo global e morrem de medo de ficarem presos em ótimos locais. No caso em questão, os Localistas pensam: "Deu para salvar alguns alunos. Não é a solução geral, mas é melhor do que perdê-los.". Os Globalistas dizem: "As bolsas são um erro porque não combatem o verdadeiro problema: a baixa qualidade das escolas públicas".
O debate entre "Localistas" e "Globalistas" surge em todo o canto. Sempre que você ouvir: "De que adianta mitigar X , se Y é a causa?" trata-se de um Globalista. Um Localista diz: "Ao menos resolveremos X. Y é para depois." Arrisco dizer que esta diferença de posturas é a responsável pelo maior gasto de saliva e papel entre debatedores de políticas públicas.