08/12/16

Em defesa da Fundação de Economia e Estatística

A biblioteca da FEE e suas publicações são essenciais para pesquisas sobre a economia e a história econômica do Rio Grande do Sul. Sua publicações sempre me foram utilíssimas e a biblioteca me traz ótimas memórias. Foi nos textos clássicos dos grandes Alonso e Bandeira - pesquisadores da FEE - que eu  e muitos outros aprendemos sobre as questões regionais do RS. E, hoje, há novas gerações de pesquisadores da FEE produzindo muita coisa interessante.
Torço mesmo que o -necessário  -ajuste fiscal no RS não leve à extinção da FEE. Seria uma pena. Podem dizer que minha visão é  tendenciosa, uma vez tenho muitos amigos lá (nenhum deles me pediu para escrever isso) e trabalho em instituição semelhante. Que seja.  Mesmo assim, seria um erro acabar com a FEE.

05/12/16

O que fazer quando a variável de alocação é manipulada?

Um monte de papers tem usado as faixas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) como estratégia de identificação em regressões de descontinuidade. Eu já escrevi que isso não é nada recomendável, uma vez que é evidente  a manipulação da população dos pequenos municípios, especialmente a partir de 2000. Vejam aí o histograma da primeira divulgação do Censo de 2010. Fica claro que, sei lá como, os prefeitos conseguem que seus municípios pulem para a faixa superior do FPM. (Tem uma galera que faz  até escolhas com honestidade ,digamos, elástica para passar no teste de manipulação de McCrary).

Agora, um trabalho novo propõe um método que permite utilizar regressão com descontinuidade, mesmo quando há manipulação da variável de alocação. Parece muito bacana:

Bounds on Treatment Effects in Regression Discontinuity Designs under Manipulation of the Running Variable, with an Application to Unemployment Insurance in Brazil
 François Gerard, Miikka Rokkanen, Christoph Rothe
A key assumption in regression discontinuity analysis is that units cannot affect the value of their running variable through strategic behavior, or manipulation, in a way that leads to sorting on unobservable characteristics around the cutoff. Standard identification arguments break down if this condition is violated. This paper shows that treatment effects remain partially identified under weak assumptions on individuals' behavior in this case. We derive sharp bounds on causal parameters for both sharp and fuzzy designs, and show how additional structure can be used to further narrow the bounds. We use our methods to study the disincentive effect of unemployment insurance on (formal) reemployment in Brazil, where we find evidence of manipulation at an eligibility cutoff. Our bounds remain informative, despite the fact that manipulation has a sizable effect on our estimates of causal parameters.
Seria interessante aplicar essa técnica aos trabalhos antigos para ver se os resultados se mantêm.

30/11/16

Teoria econômica do fazer m*rda


Por que um manifestante faz algo que evidentemente é contra seus objetivos declarados? Ontem opositores da PEC 55 atearam fogo em carros civis, destruíram pontos de ônibus, placas de sinalização, picharam o museu e tudo mais. Isso só contribui para afastar a opinião pública da sua causa.

Hipótese: o vândalo age para elevar seu status dentro do grupo. Como o status é vago, quebrar um banheiro químico sinaliza: "Vejam só! Eu sou mais comprometido que vocês!".E daí se isso afasta a população? O importante é a posição em relação aos seus pares. Se vocês xingam a polícia, eu jogo pedra. Se vocês jogam pedra, eu esfaqueio um policial... É a mesma corrida por status que faz, sei lá,  que exista carinhas que se endividam para ter o melhor carro do condomínio. Ou aquele que malha até ficar tão bombado que parece o boneco da Michelin.

No caso presente,  contudo, há um descompasso maior entre o resultado dessa corrida individual e o interesse do grupo. A analogia é com o membro do grupo criminoso que provoca a polícia, mesmo sabendo que isso pode gerar retaliação violenta. Ele quer subir de status mostrando que é marrento e comprometido e assume o risco de terminar no micro-ondas  ou no necrotério.

E as lideranças? Ontem, no trabalho, eu conseguia ouvir parte do que berrava o carro de som dos manifestantes. Era um caos. Ouvi: "Hoje é o dia da revolução"; "Vamos botar fogo nessa merda";"peguem pau, pedra e garrafa e vamos resistir". Outros, contudo, pediram tranquilidade e davam instruções para que os manifestantes se protegessem. Os que berravam gritos de guerra, também estavam nessa busca por status. O caos nas ordens parecia refletir a divergência entre os interesses dos manifestantes e os do grupo.

Essa hipótese explica a razão de vários dos vândalos não esconderem o totalmente o rosto ou mostrarem suas tatuagens. Ou seja, eles devem ter alguma possibilidade de serem identificados . E, como a teoria econômica ensina, o sinal tem que custar caro para ser importante. Se não houvesse risco de ser pego, ou mesmo criticado pelas lideranças do próprio movimento, não seria um sinal útil.
Os meus 474.343.248.392 leitores frequentes já perceberam que apliquei a mesma lógica da Teoria econômica de falar m*rda. A diferença aqui é que a divergência entre a "causa" do grupo e o comportamento individual é mais marcante.

28/11/16

Cuba é mais rica que o Brasil?

Um texto da internet afirma (não vou incluir o link):
"O povo daquela ilha rochosa bloqueada é mais rico que o povo do continente Brasil. Essa é uma realidade chocante e geralmente desconhecida."
O autor recorre aos dados do World Bank que realmente mostram Cuba com um PIB per capita (PPP)  de US$20611 contra US$ 15893 do Brasil.
Obviamente essa estimativa está furada. É tão furada que a ONU - ao calcular o IDH- estimou outro valor que até os órgãos oficiais de Cuba acharam mais razoável:
The 2013 HDI value published in the 2014 Human Development Report was based on miscalculated GNI per capita in 2011 PPP dollars, as published in the World Bank (2014). A more realistic value, based on the model developed by HDRO and verified and accepted by Cuba’s National Statistics Office, is $7,222. The corresponding 2013 HDI value is 0.759 and the rank is 69th.
A mesma fonte coloca o Brasil como tendo renda per capita de US$ 15175. Ou seja, Cuba tem a metade da renda per capita brasileira. (Os dados do Maddison vão na mesma direção)
Estimar PIB PPP é sempre muito complicado e ainda mais em um país sem preços de mercado e com economia planificada. E durante décadas o PIB da URSS foi superestimado - não só pelas dificuldades técnicas- mas  porque era interesse dos russos e dos americanos que isso acontecesse.
Bem, se vocês encontrarem essa afirmação de que Cuba é mais rica que o Brasil, por favor, incluam o link para a outra estimativa da ONU.

Atualização:
1-Nesse ótimo post do Pseudoerasmus, descobri que a questão do PIB PPC de Cuba já havia sido discutida aqui.
2- Em evidente violação da regra dos dois desvios, eu polemizei na caixa de comentários do texto original. Acabei recebendo um email do autor (!?!?!?) dizendo que eu estava "monopolizando o site" e que o "debate se encerrou" e eu não deveria "dizer para ele o que fazer". Eu, hem?!?!

21/11/16

Contra a metáfora doméstica na defesa do ajuste fiscal

Eu mesmo uso a analogia com os alunos. Para explicar a regra de ouro da Contabilidade Pública, eu digo "Não pode entrar no cheque especial para pagar o condomínio". Até aí, tudo bem.
Agora, nos debates sobre o ajuste fiscal, tem-se ouvido dos defensores da EC 55 :
"As finanças públicas são como a casa da gente. Não dá para gastar mais do que se ganha."
Eu acho uma má ideia recorrer a essa metáfora para o público.  Ora, como toda metáfora e como todo economista sabe, a analogia é imperfeita e a economia não é como a casa da gente. Até aí, também tudo bem. O motivo principal pelo qual sou contra a analogia é que ela é derrubada pelo contra argumento que o leigo entende com facilidade excessiva:
"Ah, mas a diferença é que na economia, o que o governo gasta determina o quanto ele próprio ganha. Quando o governo gasta, o dinheiro da economia gira, gera mais emprego, isso aumenta a arrecadação e - de lambuja- o Brasil será hexacampeão de futebol . "
Rejeitar esse argumento exige conhecimento e explicações bem acima da média do público. Tem-se que argumentar que o multiplicador não é assim tão grande,  discutir a elasticidade do PIB em relação ao gasto, o espaço fiscal e o problema dinâmico do endividamento. Ninguém tem paciência de ouvir tudo isso e é mais fácil cair no raciocínio confortável do keynesianismo vulgar.
Então, vamos defender o ajuste fiscal, mas - por favor - deixemos para lá a metáfora doméstica.
(Para ficar claro: eu sou a favor do ajuste fiscal. Só acho o argumento ruim para o debate público)

10/11/16

Diversos


09/11/16

XI mandamento

Qual XI Mandamento teria tido maior impacto no futuro bem-estar da humanidade? A regra é que deve ser algo que aquele monte de ignorantes do século I pudesse entender e aplicar.
A minha primeira ideia foi: "lavarás as mãos". O Alexandre Chiavenegatto sugeriu "se teu bebê tiver diarreia, darás uma solução com sal e açúcar."  Pensei também em "Não maltratarás os judeus" ou "Respeitarás mulheres e crianças" e alguém recomendou no   "não terás posse sobre outro ser humano". Essas últimas recomendações, que protegem grupos específicos, teriam impactos positivos, mas limitados.
Como gerar impactos globais? As recomendações de saúde pública, na verdade, não teriam grande efeito. Como a humanidade estava na armadilha malthusiana, qualquer melhoria da saúde apenas aumentaria o nível população mundial, mas o bem-estar seria o de subsistência.*
Para incrementar o bem-estar no longo prazo, o jeito seria acelerar a inovação tecnológica. Talvez esses mandamentos seriam melhores:
"Ensinarás a ler e escrever" ou
"Duvidarás daquilo que os mais antigos dizem"
Alguma sugestão?
PS. Se for para reescrever todos os mandamentos, o melhor é seguir a sugestão do Christopher Hitchens.

*OK, talvez o aumento da população tivesse acelerado o progresso tecnológico. Ver Kremer 1993.

27/10/16

XVII JOLATE -Jornadas Latino-Americanas de Teoria Econômica- Brasília - 3-5 novembro

Os meus colegas da UCB organizaram o evento. O Costas Azariades é um dos palestrantes. Vejam a programação:

23/10/16

Sugestões de séries

Minha credencial-hipsterística-moderninha: neste blog eu já recomendava Black Mirror no carnaval de  2013, antes de se modinha.
Aí vão outras recomendações não muito populares:
- Occupied: série norueguesa. Ideia central: russos invadem a Noruega;
- Deutschland 83: um The Americans na Alemanha dividida;
- Nightly Night, série inglesa humor negro com a genial Julia Davis. Ao contrário das outras sugestões, essa não agrada qualquer um.  Ela também fez o bom Hunderby (meio que zoando Downton Abbey).
Sugestões?

21/10/16

Proposta: uma restrição "orçamentária" na regulamentação

A PEC 241 contribuiu para mostrar que - com uma restrição orçamentária rígida - R$1 a mais de gasto público em A significa R$1 a menos em B.
Contudo, o legislador não enfrenta qualquer restrição do furor regulatório. Só ontem, aprovaram 20% de motoristas mulheres de uber em Porto Alegre e, no RJ, discutem a obrigatoriedade do café gratuito nos restaurantes.
Minha proposta é criar uma restrição da seguinte forma: para cada nova regra, uma (ou duas, três....) outra tem que ser abolida. (Ou, para evitar malandragens, talvez a equivalência poderia ser entre o número de atingidos pela regra nova e a extinta)
Dei uma googlada e descobri que a Alemanha estabeleceu exatamente isso em 2015.
Atualização: eu devo ter lido e esqueci, mas o Tabarrok já escreveu sobre isso no ano passado. Nos comentários, avisaram que a Inglaterra segue o princípio: one in, two out. Agradeço ao @RodrigoGConejo pelo aviso.