26/08/15

"Da escravidão ao trabalho livre" de Luiz Aranha Corrêa do Lago

Lançado em 2013, é um tremendo livro. Trata-se da publicação, em português, das partes não técnicas da tese de doutorado que o autor defendeu em Harvard em 1978.
Corrêa do Lago  aplica a hipótese de Domar para entender fim do trabalho escravo nas províncias/estados do Sul e Sudeste do Brasil. Um resumo do argumento econômico da tese está no artigo publicado na RBE em 1988.
Mas não é só isso. O autor acrescentou um Posfácio com uma longa visão da produção recente história econômica sobre o Brasil. Aprendi muito mesmo com esse capítulo extra.
O livro é realmente essencial. Totalmente recomendado.

25/08/15

Colônias de Povoamento Versus Colônias de Exploração: de Heeren a Acemoglu

Finalmente, saiu o Texto para Discussão:

Colônias de Povoamento Versus Colônias de Exploração: de Heeren a Acemoglu 
Leonardo Monasterio e Philipp Ehrl
Este trabalho examina a evolução da tese que sustenta que o tipo de colonização determina, ou condiciona, o futuro das sociedades. Smith (1776) já apresentava esta proposição e uma tipologia das colônias. Contudo, foram os autores alemães Heeren (1817) e Roscher (1856), no século XIX, os responsáveis pelo desenvolvimento da tese. Estes historiadores influenciaram o economista ortodoxo francês Leroy-Beaulieu (1902), que tratou do assunto em obra publicada em 1902. Fica claro que Caio Prado Júnior foi mais um divulgador da tese colônia de povoamento versus colônia de exploração no Brasil do que seu criador. Nos Estados Unidos, a ideia ressurge nas obras de North (1955; 1959) e de Baldwin (1956).Mais recentemente, os cliometristas Engerman e Sokoloff (1997) aprofundaram a questão, sem fazer referência aos autores europeus. Finalmente, Acemoglu, Johnson e Robinson (2001; 2002) – citando apenas a literatura neoinstitucional – levaram a tese para um público acadêmico mais amplo e apresentaram evidências econométricas. Este estudo se encerra com a discussão sobre as possíveis razões do sucesso da tese e da sua recorrente “descoberta” pelos pesquisadores.
Comentários continuam sendo bem-vindos. Outra coisa: alguém poderia avisar no Twitter do post? (Eu cortei o link entre o blogger e Twitter para que eu não caísse na tentação de ir lá ver se havia alguma resposta. O primeiro gole deve ser evitado) 

21/08/15

Na UCLA

Viajo hoje para ficar um ano como pesquisador visitante na Economia da UCLA. Trabalharei com os grandes William Summerhill e a Dora Costa sobre imigração para o Brasil, sobrenomes e desigualdade regional/social. No final das contas (e bota conta e limpeza de banco de dados), quero fazer uma coisa na linha do Gregory Clark (sem as maluquices).
Vou manter o blog atualizado com o andamento da pesquisa.  Os emails para o gmail  continuarão sendo lidos e respondidos com agilidade (espero). Já a conta @lmonasterio do Twitter será desativada durante o período da estadia (vai ser sofrido ficar longe). 
Fui!

12/08/15

Diversos


07/08/15

Aos Fatos: ótima iniciativa, porém...

...ainda tem muito a melhorar. A ideia de um serviço independente que checasse a veracidade dos números divulgados no Brasil é bem-vinda e essencial. O site é lindo, mas ainda não é um More or Less britânico.
O problema principal do Aos Fatos é que o conhecimento de economia soa, por vezes, como o do professores de Geografia de segundo grau. Alguns trechos sobre comércio internacional:
"Um dos motivos para a crise econômica brasileira é a falta de diversidade do mercado. O país é (..) altamente dependente das exportações de commodities.
(...) "há chances de a economia brasileira ficar mais competitiva com a desvalorização do real, mas a queda no valor das commodities agrícolas e industriais, carro-chefe do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, pode atrapalhar essa ambição,"
"A queda generalizada das commodities teve impacto significativo na economia brasileira sobretudo pelo fato de que (...)o Brasil amparou seu fluxo de investimentos internos na receita gerada pela alta dessas mercadorias. Falta ao Brasil diversificar seus investimentos, de modo a não ficar dependente de produtos mais suscetíveis à especulação internacional."
Claro que termos de troca são importantes, mas o post é todo mercantilista, enfatizando o saldo do balanço comercial com se fosse um fim em si mesmo.
Outras sugestões:

  • Em vez da pressa colocar no ar posts incompletos, sugiro mais calma e análises mais robustas já na primeira versão; 
  • As correções substantivas feitas ao texto desde a primeira publicação devem ser destacadas.

05/08/15

O indicador "Doing business" presta?

Sim. Antes de tudo, todo indicador composto - como o IDH, ou o Doing Business- tem um problema básico: é redundante ou enganoso. Como os índices combinam diferentes medidas, se todas andam na mesma direção, o indicador é redundante. Agora, se umas apontam para um lado e outras para outro, a medida é enganosa, pois oculta a variação das medidas que compõem o índice. Enfim, os indicadores compostos  devem ser digeridos com cuidado, mas têm seu valor.

O ótimo texto do Hallward-Driemeier e Pritchett mostra que não há correlação entre o Doing Business (DB) e a Enterprise Surveys (ES). O WSJ divulgou isso com alarde, mas não há razão para espanto. Afinal, o DB mede as dificuldade para negócios no papel, enquanto ES, as dificuldades efetivas que as empresas enfrentam. O artigo mostra bem que, quando existe muita regulamentação e os governos são ruins, a variação nas diferenças entre as empresas é imensa. Os amigos do rei contornam a regulamentação com facilidade, outros têm que enfrentá-la.

[Um ponto pouco explorado no artigo: os dados do ES sofrem de viés de seleção. Você só sabe das empresas que existem. Obviamente, as que deixaram de ser abertas pela burocracia excessiva não estão na amostra e a competição (observada ou potencial) é menos acirrada.   Esse é  o verdadeiro custo da burocracia excessiva].

Deixo vocês com o ótimo parágrafo de fim do texto:
With weak institutions, the risks of available discretion being abused for rent-seeking and directly unproductive activities are very real, as in the classic critique of Krueger (1974). There is nothing inherently contradictory about believing that industrial policy, if one could implement it well, would accelerate growth but also believing that most countries, and especially those that most need growth, lack the wherewithal for policy implementation. This possibility then raises the question of whether or under what conditions it is possible to devise “institutionally robust” industrial policies that can be implemented even when overall institutions are weak (Hausmann and Rodrik 2006; Rodrik 2008, 2009)

30/07/15

Por que é tão importante controlar o crescimento da dívida pública?

Fiz uma planilha no Google Spreadsheets para explicar.
Experimente:
Aumente o valor inicial da relação dívida pública/PIB e veja como cresce o esforço fiscal (ou seja, o superávit primário/PIB) para que a dívida  não seja explosiva.

Atualização. Os valores mudam conforme outras pessoas alteram a planilha. Sugiro que vocês façam o dowload para poder brincar em paz.

29/07/15

Programas de transferência de renda não renderam reeleição na América Latina

Aqui (e versão aberta).  O autor foi o único que encontrou um resultado semelhante ao clássico, retumbante, histórico, revolucionário paper

Como a dívida pública acelerou a Revolução Industrial Inglesa?

Ventura e Voth explicam:
By the 1750s, the first nobles were switching massively out of land and into government debt. ...The shift from investing in liming, marling, draining, and enclosure into government debt liberated resources – labour that could no longer be profitably employed in the countryside had to look for employment elsewhere. Because so much of English agricultural labour was provided by wage labourers, the switch to government debt pushed workers off the land. Unsurprisingly, wages failed to keep pace with output; real wages, adjusted for urban disamenities, probably fell over the period 1750-1830. What made life miserable for the workers, as eloquently described by Engels amongst others, was a boon to the capitalists. Their profit rates continued to rise as capital received an ever-larger share of the pie – while the share of national income going to labour and land contracted. Higher profits spelled more investment in new industries, and Britain’s industrial growth accelerated.
Bom, se eles estão certos, surge um problema para o caso brasileiro. Afinal, no século XIX, o Império brasileiro era um ótimo tomador de empréstimo e com boa reputação. Porque, afinal, o mesmo mecanismo não aconteceu aqui?

(Não tem relação direta com o assunto, mas eu adoro citar outro texto co-autorado pelo Voth: "Lending frowm the borrower from hell: debt and default in the age of Philip II". O Rei Felipe deu calote quatro vezes e os banqueiros genoveses continuavam emprestando. O texto explica a lógica)

27/07/15

Diversos

24/07/15

A inovação à moda brasileira

Todo mundo diz que gosta de inovação, mas alguns só gostam mesmo quando :
  • Não poupa trabalho;
  • Não prejudica os concorrentes;
  • Não prejudica outros setores;
  • Já estava  regulamentada;
  • Não depende de importação de tecnologia;
  • Custa caro, para ser financiada com dinheiro público;
  • Desenvolvida na universidade, mas esta não deve esperar nada em troca. Afinal, configuraria privatização da universidade; 
  • Bonus points se usar "saberes tradicionais".
Ou como disse alguém (acho que fui eu mesmo), no Brasil é o único lugar em que schumpeteriano não gosta de destruição criativa.

Quando a política fiscal deve ser expansionista?

- Quando houver crise, porque há crise;
- Quando não houver crise, para não abortar o processo de crescimento agora em curso;
- Quando o déficit público for baixo, porque 1) não há razão para austeridade; 1) austeridade reduziria as expectativas de crescimento, o investimento e, por fim, a arrecadação cairia;
- Quando o déficit público for alto, porque a austeridade só pioraria a situação fiscal:
- Quando a dívida pública for baixa, porque "ah, a dívida pública brasileira é tããããão baixa." ;
- Quando a dívida pública for alta, porque "ah, o Japão tem 200% de dívida pública/PIB e acabou de lançar um programa de novos gastos públicos"; 
 - Se der praia no final de semana;
- Se não der praia.
(Variante do post "Quando proteger a indústria?")

23/07/15

Vermes: a treta no mundo dos experimentos em políticas públicas e o meu pitaco

  1. O gênio Michael Kremer e Miguel publicaram, em 2004, um artigo na Econometrica em que mostram que os benefícios de dar vermífugo para as crianças no Quênia  atingiam não só as tratadas, mas também as demais (por diminuir a contaminação).
  2. Dez anos depois, outros autores pegaram os dados e o código do Kremer e Miguel e não encontraram os mesmos resultados, i.e. os benefícios para as crianças não tratadas. (Teve gente que não concordou com o estudo.)
  3. Ben Goldacre, um craque na análise das políticas públicas (veja aqui um texto ótimo dele, em português), ressuscitou a polêmica com um post no Buzzfeed com aquele jeito Buzzfeed de ser: exagerado e com fotos sensacionalistas.
  4. O debate foi para o Twitter e envolveu o grandes Chris Blattman e o Michael Clemens. A discussão foi para tecnicalidades e para saber o que é, afinal, replicação de um estudo.

Meu pitaco irresponsável: esse experimento com vermífugo tem interesse acadêmico, mas eu ainda não sei qual sua relevância para políticas públicas. Ora bolas, você deve matar os vermes da criançada de qualquer forma, mesmo sem benefício no desempenho escolar nem em externalidades. Experimentos devem ser guardados para aquelas políticas públicas cujo resultado não seja óbvio ou um fim em si mesmo.

Atualização: o Chiss Blattman escreveu um post.