28/07/16

Manual / Epígrafe

Epígrafes


  • A função daquela frase entre aspas é mostrar para o leitor quem você é sem que ele tenha o trabalho de ler o texto. Capriche.
  • A melhor fonte de epígrafes está no seu próprio caderno de campo. Nas suas leituras, se você fez direito, deve haver uma frase muito boa que se encaixa bem no espírito do trabalho.
  • Eu já vi de tudo como epígrafe: trechos da bíblia, poesia e letras de música. Mas nada de pegar aquelas frases compartilhadas no Facebook com máximas atribuídas ao Gandhi, Chaplin ou ao Einstein. Por via de regra, eles não foram os culpados por aquelas frases com milhares de "Curtir". Livros de citações também devem ser evitados porque as boas frases já foram usadas.
  • Resumindo, a epígrafe é o chapéu da tese. Bem-escolhida, ela marca o seu trabalho; mal-escolhida, a epígrafe só mostra que você é um babaca.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

27/07/16

Manual / Email

E-mail


  • Naum ixcreva com ortografia da internet. Parece q vc eh um idiota. Huahuahahau;
  • Nunca mande aqueles e-mails com pedidos para crianças doentes, dia do amigo, correntes ou qualquer outra coisa com arquivos PPT para os pesquisadores.
  • Se for mandar mensagem para a sua lista de amigos, coloque os endereços no campo "Com cópia oculta" ou "Cco" (Bcc, se o seu programa de e-mail é em inglês). Isso impede que algum dos seus destinatários, um mais mal-educado, use a lista de e-mail que você mandou para distribuir lixo aos seus amigos.
  • Na comunicação na academia, não use endereços eletrônicos engraçadinhos ou que revelam seus desvios de personalidade. Ex.: pitbull82@hotmail; beto_flamengista@yahoo.com.br; 30cm20anosSM@uol.com.br.
  • Não use a letra maiúscula. Nunca. Quando você trava o capslock parece que você está GRITANDO. Não use o capslock, nem quando você quiser gritar no e-mail. Afinal, berrar com os outros é feio (veja a última recomendação).
  • Cuidado com o tamanho dos anexos. Depois do Gmail e das conexões de banda larga, os limites aumentaram. Como regra de bolso, sugiro 1 mega como o tamanho máximo de arquivo. Se você tem arquivos bem maiores do que isso, existem três alternativas: a) fazer o upload de arquivo para algum serviço on-line. Você só envia um link para o destinatário; b) Escrever antes para a pessoa, perguntando se pode mandar; c) Gerar um arquivo PDF. Os arquivos Acrobat tendem a ser bem menores do que os do Word, especialmente, quando estes têm gráficos, tabelas e figuras incorporados.
  • Sobre o tempo de resposta de um e-mail: para aqueles que exigem uma resposta urgente, espere até uma semana para repetir o pedido.
  • Nem pense em tirar dúvidas sobre os conteúdos da disciplinas disparando e-mails contra o professor. Marque um horário de atendimento.
  • Nunca mande algo secreto ou privativo por e-mail. Encare e-mail como um cartão postal. Tudo que você escreve não só pode ser lido por qualquer um, como pode ficar no equivalente digital de uma mesa em que todos podem ler.
  • Nunca mande e-mails quando revoltado ou bêbado. Eu sei que é difícil cumprir essa recomendação, mas tente internalizá-la com se fosse um tabu. Está com raiva? Não preencha o campo "Para", escreva com toda a fúria, mas resista a clicar no "Enviar". Guarde nos "Rascunhos". No dia seguinte, mais calmo e/ou de ressaca, as coisas terão outra perspectiva.
  • E-mails não têm tom de voz e isso pode gerar muitos desentendimentos. Ironias são imaginadas, sarcasmos lidos nas entrelinhas e desprezo entendido em frases inocentes. Às vezes, é melhor pegar o telefone e ligar para resolver a treta ouvindo a voz do interlocutor do que perder seu tempo digitando furiosamente até que tudo fique esclarecido.
  • Se você pediu alguma coisa por e-mail, e a outra pessoa fez, não esqueça de mandar um e-mail de gratidão. Mesmo que você tenha incluído um "Desde já grato" no e-mail pidão, não custa nada um "Muito obrigado" em retribuição. Se fosse ao vivo, você agradeceria. Então, não há razão para não ser igualmente bem-educado no e-mail.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

25/07/16

Manual / Defesas

DEFESAS

Enfim, a hora se aproxima. Você já está prestes a entregar a versão para a banca, não aguenta mais ver a cara do orientador (e vice-versa). Chegou a hora.
Fique tranquilo. Se o seu orientador aceitou que você vá para a banca existem duas possibilidades: a) Seu trabalho é no mínimo razoavelmente bom e, apesar de sofrer, você será aprovado no final das contas. Uma coisa que qualquer orientador morre de medo é de passar vergonha na frente dos colegas. b) Seu orientador é doido ou um mau-caráter (ou ambos) e quer levar você para os leões como jantar. Se isso acontecer, o que é muito improvável, você não tem muito que fazer. De qualquer modo, você vai ter de fazer o seu melhor na apresentação.
A sua defesa é tão importante quanto a sua primeira vez. E tão apavorante quanto. Outra semelhança: por mais que você tenha praticado, as outras partes são mais experientes do que você. A principal diferença – eu imagino – é que na tese ninguém estará bêbado.
Procedimentos para uma defesa feliz:
Leia o verbete Tese.
Você viu um erro horroroso depois de ter enviado a tese? Não entre em pânico. Faça uma errata e envie por e-mail para o seu orientador avaliar e encaminhas aos membros. Na hora da defesa, peça desculpas para a banca e distribua cópias da errata antes do começo da defesa. Mas isso só para erros feios mesmo. Para pequenos tropeços, deixe estar e só corrija na versão final. A banca precisa de algo para se alimentar.
Tenha uma versão da tese com a mesma paginação da que foi distribuída para a banca. Nada pior do que ficar indo e voltando nas páginas para achar o trecho que o membro da banca está se referindo.
A defesa não é o momento para sentimentalismos nem agradecimentos rasgados. Você pode ser mais informal e até contar um pouco dos bastidores e motivação da pesquisa, mas não exagere na informalidade.
Não discuta com a banca. Defenda seu ponto e o seu trabalho. Você vai ser criticado e algumas críticas serão injustas. Você não precisa sair da sala tendo convencido toda a banca de que tem razão. Esfrie a cabeça e responda sempre tentando evitar o confronto direto. Exemplo. Se o membro da banca disse uma sandice completa, ao invés de dizer: "Que absurdo! Nunca houve bobagem maior na vida", você pode dizer - sem tom de ironia: "Infelizmente, eu não conheço a literatura ou os autores que defenderam esse ponto".
Não tente responder a todas as perguntas. O normal é o membro da banca fazer as perguntas em sequência. Vá anotando e, quando for a sua vez de falar, responda aquelas que você está seguro. Às vezes, o membro da banca não entendeu um ponto trivial e vai ser fácil responder. Se for mesmo impossível saltar as questões mais cabeludas, não há problema em agradecer a "ótima" pergunta e dizer que não tem certeza para a resposta, mas que vai examinar a questão.
Curada a ressaca da comemoração, corra para fazer as correções sugeridas pela banca. Procrastinação é imperdoável nesses casos. Livre-se logo do encosto e toque a sua vida!
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

24/07/16

Manual / DCEs e centros acadêmicos

DCEs e centros acadêmicos


Frequente o DCE se você tiver dois interesses: maconha e sexo com pessoas de hábitos de higiene pouco rigorosos. É natural que isso atraia a sua atenção durante alguma fase da sua vida (um final de semana, de preferência), mas o DCE traz riscos para a saúde. Você vai ver a barba crescer e você vai começar a achar que as camisetas do Che Guevara lhe caem bem. Se você ficar muito tempo no CA, você se transformará no homo oligo-sapiens passeatotum e em tudo aquilo que você, em 15 anos, repudiará.
Existe gente que pensa que o DCE é o primeiro passo em uma carreira bem-sucedida na política partidária. De fato, vários políticos bem-sucedidos passaram pelas reuniões esfumaçadas do DCE. Mas correlação não significa causalidade e muitos políticos fracassados, que hoje não ganham nem eleição de síndico, também passaram pelos DCEs. Politicamente, os DCEs ocupam o espectro político entre a extrema esquerda e a esquerda-que-perdeu-o-senso-de-realidade. Os que se dizem independentes geralmente não o são; são facções de partidos ou grupos que querem novos membros.
Certos DCEs perdem o senso de importância e passam a discutir a questão da Palestina e votam moções contra o imperialismo yankee durante as reuniões. Imaginem o impacto na Casa Branca quando eles souberem disso! Para entender melhor a lógica desses grupos radicais, sugiro o documentário A Vida de Brian, do Monty Phyton.
Os centros acadêmicos, por sua vez, tendem a ser mais próximos do dia a dia dos cursos e mais livres de discussões políticas. Com isso, podem ser locais interessantes e, com sorte, contribuir para a discussão e solução das questões dos cursos. Basta ter senso de ridículo e reconhecer os limites da ação dos CAs.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

23/07/16

Contra o Ensino de Economia

O ótimo Bernardo Guimarães escreveu um post em defesa do ensino de Economia na escola. Se entendi bem, a vantagem seria - além de fornecer a base para o aprendizado posterior-  que o curso serviria de contraponto às besteiras ensinadas em História e Geografia.
Eu sou contra a proposta por alguns motivos:
  1. Prático: qualquer tentativa de ensinar Economia terá efeitos opostos.  Dada a má qualidade das escolas do Brasil de hoje, as chances do professor só falar bobagem e o curso se transformar em pregação são imensas. Seria ótimo se vários bernardoguimarães ensinassem  Economia para os adolescentes, mas a realidade é que os professores disponíveis estariam bem aquém disso. (Sem contar que  muita gente com diploma de economista na parede não entende vantagens comparativas. E algo me diz que exatamente esses iriam para o ensino médio). 
  2. Empírico: mesmo nos EUA de hoje, onde - como lembra o Bernardo- as crianças aprendem Economia na escola, o discurso protecionista de dois candidatos presidenciais fez sucesso. Trump e Bernie falavam como se o número de empregos da economia americana fosse fixo. Se os ensino de Economia tivesse sido eficaz, os eleitores refutariam isso de imediato.
  3.  argumentum ad mccloskey: ela tem um texto chamado "Why Economics should not be taught at High School". O argumento é que a garotada não tem maturidade, nem experiência de vida para entender Economia. (Na verdade, eu não concordo. Citei só para mostrar que li o texto).
PS. Aproveitei que procurei o livro da McCloskey no google books e reproduzo o trecho importante do artigo:

Manual / Dados

Dados


Nos cursos universitários, você tem a oportunidade de aprender as técnicas apropriadas de análise estatística. Mas, às vezes, os professores se esquecem de transmitir alguns dos cuidados básicos.

Faça gráficos

Antes de começar a trabalhar, faça um gráfico dos seus dados. O primeiro motivo é que as coisas mais estranhas acontecem: erros de codificação, problemas com vírgulas, intervenção divina. Se houver valores anormais, eles aparecerão nos seus dados. Um bom jeito é fazer um histograma rápido para entender a distribuição das variáveis.
O outro motivo para fazer o gráfico é entender a relação entre as suas variáveis de interesse. O quarteto de Anscombe mostra quatro conjuntos de dados que têm média, variância e correlação muito próximas mesmo. Contudo, como é fácil ver, a relação entre as variáveis é completamente distinta. Faça então uns plots com as variáveis relevantes para o seu estudo.

Dicas gerais

Faça um arquivo de controle de seus dados, com a fonte precisa dos dados e todas as exclusões e modificações que você fez no banco de dados. Nesse arquivo liste o nome do arquivo e as alterações feitas. Com esse arquivo, você deve ser capaz de refazer todos os passos, desde os dados brutos até o resultado final.
;Aprenda a usar ao menos o básico do Excel. Mesmo que sua área seja como Literatura ou Linguística, você vai se surpreender quando descobrir suas mil e uma utilidades. Nem que seja para calcular as médias dos alunos ou para organizar as suas finanças pessoais, o programa será uma mão na roda. Usar bem o Excel deveria ser uma daquelas habilidades básicas da vida, como fritar um ovo.
Se você trabalha em uma área qualquer intensiva em dados, eu sugiro ficar bamba não só em Excel, mas no software mais popular da sua área que permita a programação. O motivo é simples: mesmo se for apenas para limpar os dados, com o código de programação, você terá o registro de todas as exclusões e modificações que fez. Além disso, você poderá utilizar novamente seu código se necessário. No Excel, caso aconteça alguma atualização, você precisará clicar-copiar-colar-deletar novamente e poderá errar no processo.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

22/07/16

Quanto custou o Baile da Ilha Fiscal?

A lendária @verineas fez a pergunta no Twitter e eu respondo com prazer. O jeito mais tranquilo, sem se preocupar com as maluquices da inflação brasileira, é transformar para libra, deflacionar e depois voltar para R$. Vamos lá:
  1. O baile custou 100 contos de réis (a Vera me informou). A taxa de câmbio de 1889, segundo o Ipeadata, era de 26,4 pence por mil-réis. Então 100 contos =2.640 mil pence. Aí tem uma armadilha: até 1971, o sistema monetário inglês não era decimal e havia 240 pences por libra. Logo, 2.640 mil pence = 11.000 libras (a preços de 1889)
  2. Para deflacionar a libra, basta ir no site Measuring Worth: essas 11.000 libras corrigidas pela inflação resultam em 1 milhão de libras de 2015. 
  3. 1 milhão de libras em 2015= R$4,3 milhão de reais de hoje. Se foram 4500 convidados, dá um custo de quase R$1000 por cabeça. Faz sentido.
  4.  Ou, em valores relevantes: O Baile da Ilha fiscal custou cerca de 1.075.000 churros, ou seja, 1 churros para cada habitante de Teresina e ainda sobram 307.441 para a própria @verineas.
Deflacionar valores no muito longo prazo é sempre meio questionável e talvez seja melhor comparar o gasto com o Baile mais diretamente.  Os 100 contos de réis  compravam :
- O salário anual de 500 trabalhadores de baixa qualificação (200 mil-réis anuais é um bom chute ).
- Quase 100 escravos a preços de 1885. Fonte.
(No site do Ipeadata, graças ao trabalho do Eustáquio Reis, existem outros preços que podem render boas comparações)

Manual / Congressos

Congressos


Os congressos são muito importantes, especialmente no começo de sua carreira. Eles são a oportunidade de você conhecer novas pessoas, ter uma panorâmica da comunidade e – o mais importante –perceber se quer fazer parte do meio acadêmico. Se aquele monte de gente parecida com você, discutindo os mesmos assuntos por três dias lhe agradar, é sinal que você está na carreira certa.
Alertas:
  • Tem surgido muitos congressos picaretas, com nomes bacanas (Interplanetary Conference on Technology, Media and Science) que são meros caça-níqueis e sem valor acadêmico. Orlando, Acapulco e Las Vegas são destinos comuns. Fuja disso, eles só querem o seu dinheiro. Se você quiser ir para esses lugares, use as suas férias.
  • É muito feio mandar o paper e nem ter planos de comparecer. Sua ausência é, por vezes, perdoável porque as fontes de financiamento tendem a dar a resposta muito em cima da hora. Caso você não possa mesmo ir, faça um favor aos organizadores, avise-os por e-mail assim que souber. É horrível entrar em uma sessão em que os papers são cancelados pela ausência dos apresentadores. Tumultua a ordem dos trabalhos e parece que você tratou o evento com desleixo.
  • ;No mais, divirta-se. Assista a todas as sessões. Tal com os filmes ruins, por pior que sejam as apresentações, a gente sempre aprende alguma coisa. Já as boas sessões podem ser melhores do que o melhor filme. Curta o papo no coffee break e aproveite a celebração de ter gente igual a você por perto.


21/07/16

Manual / Concursos para professor

Concursos para professor


Você terminou o doutorado e agora precisa ganhar a vida. O negócio é fazer um concurso para a carreira docente. Quer nas públicas, quer nas privadas a lógica é mais ou menos a mesma.
Antes de tudo, leia o edital. Leia mesmo. Em voz alta e marcando o texto. Já vi candidatos bons rodarem porque esqueceram um documento ou não viram que a prova era com consulta a livros.
Admito que existem concursos armados. Na minha área, eu já soube de alguns, mas não é um problema endêmico. Uma coisa é a banca já ter simpatia por algum candidato; outra é a mutreta esculachada. Muita gente, má perdedora, gosta de espalhar que tudo no mundo acadêmico é armação. É verdade que tem gente ruim aprovada, mas os bons sempre conseguem, cedo ou tarde, a sua posição ao sol.
Os critérios são subjetivos, então, é compreensível que, na dúvida, a banca escolha alguém que já tenha informação anterior. Daí a importância de estar bem-preparado na hora da prova, mesmo em um concurso em que há um queridinho: é muito constrangedor para a banca aprovar quem teve um desempenho evidentemente melhor do que os outros.
Uma dica para identificar se há armação é atentar para a abrangência da área. Se for algo muito específico que menos de meia dúzia entende e são todos amigos entre si, tenha certeza que é picaretagem. No outro extremo, concursos bastante divulgados tendem a ser mais honestos. Se você esbarra no anúncio do concurso em um monte de lugares, geralmente isso indica que se busca os melhores candidatos.
Na prova didática, siga as recomendações para as apresentações de congressos e uma adicional: respeite o tempo. Na maioria dos editais, existe uma definição bem rígida da duração da prova e uma banca honesta tem de tirar os pontos do candidato que perde a hora. Duas sugestões: se a sala não tiver relógio, use a) o alarme silencioso do celular no bolso da calça; b) se houver clima para tal, pergunte ao presidente da banca se ele poderia dar um aviso quando o limite mínimo e máximo se aproximassem.
Fundamentalmente: não pareça ser encrenqueiro na hora da prova. Lembre-se que a banca está escolhendo quem vai ser o seu colega por boa parte do tempo de sua vida. E nada pior do que um colega que arruma confusão nas reuniões, briga com os alunos ou com a direção. Então, nada de conflitos ou polêmicas pelos seus "direitos" com a banca. Não precisa ser humilde; basta não ter uma postura de confronto.
Por fim, mesmo que o número e a qualidade dos candidatos lhe assustem, vale a pena participar. Eu já vi candidatos ótimos ficarem de fora de um concurso porque temeram perder uns para os outros. Na hora final, só os medíocres apareceram e acabaram sendo aprovados. Na dúvida, compareça.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

20/07/16

Congresso Latinoamericano de História Econômica

Esqueci de postar que o congresso está rolando na USP/São Paulo! As conferências são sensacionais: Victor Bulmer-Thomas e Gareth Austin. (Na LSE, Austin era especializado em África, legal saber que ele está interessado em América Latina). 

Easterly sobre o Ha-Joon Chang

A resenha que o  William Easterly fez de um dos livros do Ha-Joon Chang é sensacional. É de 2009 e - por algum motivo - eu comi mosca. Aí vai um trecho:

Fofoca sobre o Chang. Em 2002- acho- ele apresentou em um seminário na Universidade Cambridge um paper em que dava um monte de pauladas no Banco Mundial. Não pelos motivos certos*, mas apresentando uma interpretação conspiratória do trabalho dos economistas do Banco. Para azar dele, o gigante sociólogo e gente boa Michael Woolcock estava na plateia. Na perguntas, Woolcock retrucou algo como você-me-desculpa-mas-eu-trabalho-lá-e-não-é-nada-disso. Em vez de defender o seu ponto, ele deu para trás e disse  "É..eu exagerei, nem acredito tanto assim. Foi só por retórica. " Papelão.

*Ver os trabalhos do próprio Easterly e do Lant Pritchett.


Manual / Coautoria

Coautoria


Conforme as ciências ficam mais complicadas e a especialização cresce, nada mais natural do que contar com o apoio de seus colegas de ofício. A complementaridade entre os autores faz com que você aumente a sua produtividade e dê um gás ao seu currículo.
Em certas áreas, o número de coautores ficou ridículo. Existe um texto da área de Física com 2.991 autores. Imagino que para produzir aquele punhado de páginas foram necessárias milhares de horas, em dezenas de laboratórios. Então, nesse caso, não há problema.
Qual o número ótimo de coautores? A escolha do número de coautores é complicada. Coordenar o trabalho de vários autores cresce exponencialmente, especialmente quando o texto for mesmo feito a várias mãos. E as chances de incluir um mala que vai encher o saco dos outros também cresce. Cuidado, então, ao convidar, porque desconvidar é bem problemático. Quanto mais gente no projeto, maiores as chances dos aproveitadores se esconderem na lista de autores.
Algumas áreas, geralmente ligadas às Ciências Biológicas, costumam definir muito bem quem faz cada parte da pesquisa. Tipo: Fulano matou os ratinhos, Sicrano os ressuscitou e Beltrano eliminou os ratos zumbis. Isso é uma prática bem interessante, mas pouco usual nas ciências humanas e sociais aplicadas.
A questão da ordem dos autores varia muito. Em algumas áreas, o normal é a ordem alfabética; em outras, em ordem de contribuição para o artigo. Claro que medir isso é muito complicado. Afinal, cada um tende a superestimar a sua relevância para o trabalho final e isso pode gerar conflitos.
Quando a ordem alfabética não é seguida e todos tiveram a mesma contribuição, eu sugiro privilegiar os autores que estão nas fases iniciais da carreira. Uma exceção: nos trabalhos com grandes equipes, o coordenador do laboratório costuma ser o último da lista. Ele é também o "corresponding author", ou seja, aquele que é - no final das contas – o responsável pelo artigo.
O mais normal é que o seu orientador seja coautor na sua primeira publicação. Nesse caso, a fronteira ética é tênue. Quando o orientador efetivamente participou da confecção da versão para submissão, é certo que ele deve constar como coautor. Agora, quando ele lhe orientou, mas não contribuiu com uma vírgula adicional para a versão submetida, existem aqueles que acham isso errado. Eu não vejo muito problema, afinal, ele contribuiu para o conteúdo do seu trabalho. Deixo essa discussão em aberto.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

19/07/16

Manual / Ciência e picaretagem

Ciência e picaretagem


Richard Dawkins, citando um editor da New Scientist.
No distante século XX, muita gente sofria de úlcera. Não só a doença era um incômodo permanente, mas também os doentes tinham dietas bem restritas e tomavam remédios diários. Para os médicos, as causas da doença eram o estresse e a alimentação inadequada. Na década de 1980, os médicos Gary Marshall e Robin Waren suspeitaram que a causa poderia ser uma obscura bactéria. Como ninguém acreditava nos pesquisadores, Gary tomou uma atitude radical (e nojenta): tomou um potinho cheio da bactéria suspeita. Bem rápido, ele ficou com uma úlcera horrorosa. Antibióticos o curaram. Em 2005, Gary e Robin ganharam o Nobel de Medicina.
Esse é um bom exemplo do sucesso da ciência. Parece até um filme ruim de Hollywood, mas é uma história real que está de acordo com os sonhos dos cientistas. Gary e Robin tinham uma hipótese que a comunidade científica repudiava, bolaram um teste que poderia mostrar que eles estavam com a razão e acabaram convencendo todo mundo.
Mas será que todo campo científico se encaixa nessa metodologia? Bem, vamos lá. O filósofo da ciência, Karl Popper – o mais influente do século XX – afirmava que hipóteses científicas são aquelas que podem ser mostradas como falsas. Se não houver jeito de mostrar que são falsas, então, não é ciência, é picaretagem. Por exemplo: uma cartomante que diz que a leitura só funciona quando o cliente tiver fé nunca pode ser desmascarada. Quando errar, ela sempre pode culpar o cliente. Um "cientista" que não tem uma hipótese testável ou arruma sempre um desculpa, sempre terá razão, assim, ganhará a discussão. Mas uma vitória em um jogo em que é impossível perder não é vitória.
Em outras palavras, na visão de Popper, uma ciência empírica deve formular hipóteses falseáveis. Deve existir a possibilidade de suas hipóteses se mostrarem falsas. "Amanhã acontecerá um eclipse do sol às 13h", é uma das coisas mais fáceis do mundo de testar.
Já as afirmações "Pena de morte para estupradores reduz o crime" ou "Vitamina C prolonga a vida" são testáveis, mas tremendamente mais complicadas de testar do que as hipóteses mais simples. Muitas outras coisas influenciam a criminalidade e a longevidade, sendo muito difícil determinar a causalidade. Em tese, os estupradores podem matar mais mulheres para que tenham menos testemunhas. Pessoas que tomam vitaminas podem ser mais cuidadosas com a sua saúde, ou mais ricas que as demais. Mesmo assim, ambas as afirmações são científicas porque podem, ao menos em princípio, serem testadas e mostradas falsas.
Já afirmações como "deus nos ama", "os sonhos são expressões do inconsciente" ou a "a luta de classes é o motor da história" não são Científicas com C maiúsculo. As pessoas que acreditam na veracidade delas não podem (e nem querem!) propor testes de suas hipóteses.
O físico Carl Sagan conta uma história que ilustra bem esse problema das afirmações não falseáveis. Um sujeito conta para um cientista que tem um dragão vivendo na garagem. O cientista diz: "Ótimo? Vamos lá ver". Aí o maluco diz: "É, mas ele é invisível!". O cientista replica: "Sem problemas, vamos jogar farinha no chão da garagem para ver as pegadas". E o doido: "Pena que o dragão só voa". Aí o cientista continua: "Vamos jogar tinta no ar!". Resposta: "O dragão é feito de um material cuja tinta não adere...".
Para cada proposta de testar a hipótese "existe um dragão na garagem", o maluco (ou picareta?) vinha com uma saída que tornava impossível testá-la. O cientista foi incapaz de provar que o dragão não existe, mas de forma nenhuma isso prova que o dragão está lá. Exatamente o contrário é verdadeiro. Uma hipótese passível de refutação é simplesmente não científica. Chame a polícia ou o hospício.
Um ponto importante na visão popperiana é que você só pode falsear ou deixar de falsear uma teoria. Por mais observações que estejam de acordo com a sua hipótese, não há como ter certeza de que se está sempre certo. Pode ser que as hipóteses sejam válidas só em algumas situações e não em outras. Veja a Física que aprendemos no ensino médio. Aquelas leis de Newton funcionam em um monte de situações. Além de lhe tirarem o sono na véspera da prova, as leis servem para calcular quantas horas vai demorar uma viagem, ou a trajetória aproximada de um tiro de canhão. Agora, as leis perdem o sentido quando tratamos do muito pequeno, ou do muito rápido. Não é que o velho Newton errou no sentido trivial do termo, mas apenas que a sua teoria tem limites de validade. Dr. Einstein e cia. tiveram de vir em socorro e ampliaram o objeto da Física.
Por mais que se tenha evidências de que uma hipótese científica é verdadeira, nunca se pode bater o martelo em favor de uma teoria. Só dá para bater o martelo "contra" uma teoria. Nunca a favor. Corte os termos "prova", "comprova" e "verifica" de seu vocabulário. Você só consegue não falsear uma hipótese. Existem profundas explicações de Filosofia da Ciência para isso, mas, por enquanto, basta você assumir a humildade científica. Lembre-se que o ser humano não passa de um macaco ridículo, medroso, em um pedaço de terra que gira ao redor de uma estrela irrelevante. Achar que você entendeu uma lei definitiva da natureza ou da sociedade seria muita pretensão.
Tem gente que diz que a psicanálise estaria no mesmo nível da cartomancia: afinal, qualquer coisa que aconteça pode ser explicada por um analista hábil. A psicanálise, junto com boa parte da Antropologia, não tem hipóteses testáveis. O negócio é interpretar os eventos dos indivíduos e das sociedades. São ciências interpretativas que não fazem previsões. Esses campos almejam dar sentido às coisas. Quando um antropólogo vê cerimônia em uma ilha perdida do pacífico, ele tenta entender qual o papel daquele ritual, interpretá-lo.
Por mais que eu seja fã da visão popperiana, penso que as antropologias ou as psicanálises da vida não devem ser rotuladas como não científicas. Tudo bem que elas não apresentam hipóteses falseáveis. Julgá-las pelas métricas da Física ou da Medicina seria maldade e rotulá-las como não científicas seria perder um tanto do conhecimento humano. Elas são outro tipo de ciência e só.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

18/07/16

Manual / Caderno de campo

Caderno de campo


Os antropólogos levam o caderno de campo muito a sério. Na verdade, toda a Antropologia se baseia nele. A propósito, se você é antropólogo, pule essa seção porque ela não vai lhe ensinar nada novo.
A ideia é você ter um caderno em que vai anotar, em ordem sequencial, todos os dias de pesquisa. Você escreverá aquilo que você fez, pensou em fazer, referências que esbarrou, comentários sobre artigos que leu e gostou ou não gostou. Tudo isso deve ser anotado no caderno.
Não pense que você se lembrará das suas atividades durante a sua pesquisa. Em duas semanas, os textos que você passou os olhos vão para o mesmo inacessível lugar da sua cabeça em que você guarda a sobremesa que você comeu na semana passada. Ou seja, estão perdidos para sempre. Um caderno de campo bem-mantido é como uma memória externa que lhe impede de repetir passos já dados, além de guardar aquelas ideias que parecem interessantes no momento que você as tem (se a ideia é boa, ou não, você só descobrirá depois. Mas o importante é que você a tenha por escrito). Nossa memória é tão pouco confiável que, muitas vezes, só acredito que fui eu que escrevi porque seria muito difícil acreditar que um hacker invadiu o meu computador para acrescentar trechos no meu caderno.
O caderno não é um fim em si mesmo. É só um instrumento e não vale a pena gastar muito tempo mantendo-o organizado. Usar canetas de cores diferentes para cada tipo de anotação ou fazer desenhos caprichados acabam se tornando uma forma de procrastinar o trabalho sério mesmo.
Seja, contudo, rigoroso no caderno. Imagine que está escrevendo não para você, mas para uma outra pessoa que assumirá o seu trabalho no futuro. De certa forma, isso acontecerá. O seu eu-futuro é outra pessoa, bem parecida com você, mas ele daqui a dois meses (ou dois dias) não lembrará do que você sabe hoje. Seja generoso com o seu eu-futuro. Anote tudo de forma detalhada para que ele possa refazer os seus passos, caso isso seja necessário.
Qualquer caderno serve, contanto que ele sempre esteja com você, o tempo todo da pesquisa. Eu sou a favor do caderno em espiral de tamanho médio. Os cadernos em espiral ocupam menos espaço e ficam melhor quando abertos ao lado do computador.
Uma alternativa ao caderno de campo tradicional é você manter um arquivo digital em seu notebook. As vantagens são possibilidade de backup e o uso do recurso de busca dentro do arquivo. Mas o problema é que você provavelmente não anda com o seu notebook todo o tempo. Além disso, o tempo de boot ainda é um desestímulo para que se anote isso tudo que vem a sua cabeça.
Tablets são uma opção intermediária: não servem para longas notas, mas são ágeis o suficiente.; Enfim, não existe solução única. Cada um descobrirá a melhor forma de ter um caderno de campo. O importante é tê-lo.
Manter um blog público sobre a sua pesquisa é uma opção menos desejável. Pois, além de todos os problemas do notebook e de conectividade, a falta de privacidade restringirá os seus movimentos e pensamentos. A única vantagem é que outras pessoas da blogosfera poderão lhe ajudar. De qualquer forma, converse com o seu orientador antes de fazê-lo.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado