06/05/16

O mito do multiplicador keynesiano e a Grande Depressão

Eu me arrependo de ter ensinado muitas coisas. Nas aulas de Introdução a Economia, circa 1995, um dos erros foi ensinar o multiplicador keynesiano como 1/(1-c) com c=0,8  . Mentes de 18 anos podem guardar isso para o resto das vidas; e pensam que R$1 de gasto público quintuplica o PIB. Era só um exemplo para facilitar as contas e eu não enfatizava o quão esquisito teria que ser o mundo para que isso fosse verdade.
"Ah, mas e a Grande Depressão". Bem, nem naquela época o multiplicador foi tão grande assim. Vejam o texto recente no Journal of Economic History:
The Multiplier for Federal Spending in the States During the Great Depression
Price Fishbacka and Valentina Kachanovskayaa 
 To estimate the impact of federal spending on state incomes, we develop an annual panel data set between 1930 and 1940. Using panel methods we estimate that an added dollar of federal spending in the state increased state per capita income by between 40 and 96 cents. The point estimates for nonfarm grants are higher and for AAA farm grants are much smaller and negative in some cases. The spending led to increase in durable good spending on automobiles but had no positive effects on private employment.
(Uma versão anterior aberta está disponível aqui.)
Vale lembrar também que a Christina Romer, uns 35 anos atrás, já mostrava que foi a expansão monetária - e não fiscal- que tirou os EUA da Depressão.

04/05/16

100 de nascimento da Jane Jacobs

Ela é a autora do melhor livro-de-economia-sem-tabela que-já-li: The Death and Life of Great American Cities. A Google fez doodle em homenagem. Mais do que merecido.

  

29/04/16

Download e processamento da amostra do Censo 2010 no R

Aqui. Sensacional! Parabéns para Anthony Damico e Djalma Pessoa que escreveram o código!
(Ótimo também que o IBGE colocou o link na página do Censo)

27/04/16

Historical trades, skills and agglomeration economies por Ehrl e Monasterio

Nova versão do paper está on-line. Comentários são bem-vindos!:
Historical trades, skills and agglomeration economies
We exploit differences in the spatial distribution of industrial and liberal occupations in the years 1872 and 1920 to instrument for today's concentration of interpersonal and analytical skills in Brazil. The data suggest that the local supply of knowledge and manufacturing provided by these historical trades favored a growth path that has shaped the occupational structure until the present day, whereby the existence of a large local consumer market was a necessary condition for this development. By means of these instruments, we present causal evidence that the regional concentration of interpersonal and analytical skills generates positive wage externalities. Particularly university graduates and workers without formal education benefit most from these agglomeration economies.

26/04/16

A culpa é da mandioca

Ótimo artigo sobre os determinantes do desenvolvimento no longo prazo.  A batata era a heroína do crescimento europeu, mas agora os tubérculos são os culpados pelo atraso mundo. O argumento é que as batatas são difíceis de serem roubadas; já o cereais, como não são perecíveis, tem que ser protegidos (e também podem servir para pagar os impostos). A matéria ficou interessante porque ouviu também os críticos dessa tese.
Dois pontos adicionais:
- Thales Zamberlan, que me mandou o link, chamou atenção para um possível erro nos dados. Brasil consta nos mapas da matéria e do artigo como sendo uma área propensa aos cereais e com governo complexo antes do Cabral chegar. Estranho. Se erraram isso...
- Os índios brasileiros faziam farinha de mandioca aos montes e, mesmo assim, nunca desenvolveram Estados complexos. (Obrigado pela farofa, a propósito. Talvez a única coisa que sinto falta em Los Angeles).

14/04/16

Dica para quem está começando no R

Ao invés de aprender a usar data.frame, plot e os comandos nativos, comece logo com: data.table, ggplot2 e dplyr. São pacotes bem mais modernos, fáceis e capazes.
Eu dou esse conselho porque comecei no R faz 11 anos e agora estou tendo que reaprender tudo. Dureza para um cabeça já cansada.
  

13/04/16

Conferência da NBER sobre estudos baseados em coorte

Amanhã, aqui na UCLA, mas os papers já estão disponíveis. Muita coisa boa sobre saúde, demografia, cliometria e assemelhados.

The cotton boom and slavery in 19th rural Egypt por Saleh

Paper bacana sobre os impactos da guerra civil americana na escravidão no cultivo do algodão no Egito. (A abolição também chegou tarde por lá: 1877. Fiquei surpreso, pois, baseado no modelo de Domar, eu chutaria que teria terminado bem mais cedo.)

11/04/16

O Gasto Público e o Ciclo da Política Fiscal - 1999-2014 por Orair e Gobetti

O Rodrigo Orair e Sergio Gobetti, colegas do Ipea, já ganharam uma porção dos prêmios com seus trabalhos. O prêmio mais recente (até onde sei) foi o da SOF. Aí vai um trecho do resumo:
Os resultados mostram que, nos últimos 16 anos, a média de crescimento real da despesa primária pouco variou e, em alguns itens, foi maior na fase contracionista (1999-2006) do que na fase expansionista (2007-2014). Isto evidencia não só uma elevada rigidez da despesa, mas certa inércia, associada principalmente aos benefícios sociais (previdenciários e assistenciais), que restringem a margem de manobra fiscal do governo em momentos de ajuste como o atual. Demonstramos ainda que o “expansionismo fiscal”, se medido pelas taxas de crescimento das despesas de custeio e capital, não se acentuou entre o segundo governo Lula e o primeiro governo Dilma, o que contraria o senso comum. Contudo,identificamos uma mudança expressiva no mix da política fiscal: inflexão entre um período cuja redução estrutural do resultado primário foi canalizada predominantemente para investimentos (2006-2010) e um período de maior expansão das despesas de custeio, subsídios e desonerações (2011-2014), que não logrousucesso em sustentar o crescimento econômico. Ou seja, os resultados sugerem que a composição do gasto público – que sintetiza o aspecto qualitativo do gasto – é fundamental para o sucesso de políticas contra-cíclicas e de crescimento, mesmo em contexto de ajuste fiscal como o atual.
Sugiro também os outros ganhadores: no 2o. lugar tem um trabalho que usa a descontinuidade do FPM para estimar o impacto das transferências na desigualdade (fui citado lá) e o 3o lugar trata da qualidade do gasto no bolsa família. Enfim, muita coisa boa. 

01/03/16

Ancestry in Brazil: a surname based method

Aí vai o que andei fazendo nos últimos meses. Apresentei ontem no seminário organizado pelo William Summerhill.
Tudo ainda é super preliminar e os resultados certamente mudarão ao longo do tempo. Comentários e  sugestões são - como sempre - mais do que bem-vindos.

28/02/16

"Um Americano Reconta o Império" Elio Gaspari sobre Summerhill

Na coluna do Elio Gaspari de hoje:
"O professor William Summerhill, da Universidade da Califórnia, é um bruxo da pesquisa econômica. Em 1998, ele publicou um artigo sobre a construção de ferrovias até os primeiros anos da República e virou de cabeça para baixo a sabedoria convencional que envolvia o assunto. Elas foram um operação bem sucedida, fator de grande progresso. Summerhill está de novo nas livrarias americanas com "Inglorious Revolution" (em tradução livre, "Uma Revolução Inglória - Instituições Políticas, Dívida Soberana e Subdesenvolvimento Financeiro no Brasil Imperial").
Trabalho prodigioso de pesquisa lida com um paradoxo: A teoria ensina que os países que honram suas dívidas progridem. Durante todo o Império, o Brasil honrou suas dívidas interna e externa e não progrediu. O crédito do Império em Londres era tão sólido que resistiu até a um rompimento de relações com a Inglaterra.
 Entre os muitos fatores do atraso, um está aí até hoje. O sistema de crédito era controlado pelo governo, mas a banca, concentrada e com poderosas conexões, controlava o governo. Os grandes fazendeiros do café conseguiam dinheiro a 8% ao ano. Na Bahia, a 12%. Em Minas e Pernambuco, até a 30%.
 O artigo das ferrovias, bem como Order Against Progress ("Ordem contra o Progresso"), o livro que resultou de sua expansão, publicado em 2003, não foram traduzidos para o português. Olavo Bilac tinha razão, o português, a ultima flor do Lácio, é esplendor e sepultura."
Todos os elogios às contribuições dele são merecidos! E acrescento: além de tudo , ele é super gente boa, generoso e engraçado. 

24/02/16

Diversos e crise brasileira

Vocês já devem estar de saco cheio de ler sobre a tragédia brasileira, mas aí vão textos bacanas de amigos: