29/06/15

Bicicletas, privadas e humoristas

Disse um humorista: "Nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta". E acrescentou: "Um pobre menos pobre rende mais dinheiro para você e mais tranquilidade nos passeios de bicicleta."
Imagino que ele tenha relacionado pobreza com violência. Como eu não tenho dados sobre roubos de bicicleta, vou ver se a pobreza e a taxa de homicídios estão correlacionadas.
Enfim, sem nem pensar na suposta causalidade do título, já dá para ver que a afirmação não resiste a cinco minutos de análise de dados.
Outra coisa: se a redução da pobreza por si só realmente reduzisse a violência, esta teria caído fortemente no Brasil dos últimos anos, né? Afinal, a pobreza caiu muito e a violência não (Na verdade,  a violência até aumentou nas regiões em que a pobreza mais caiu).
Que tal lutar pelo fim da pobreza como um fim em si mesmo?

Planejamento e Políticas Públicas - PPP número 44

Aqui.
Olha aí o sumário:

  • DIMENSÕES E QUALIDADE DOS CURSOS SUPERIORES EM ÁREAS DE CTEM NO BRASIL ENTRE 2000 E 2013 Paulo A. Meyer M. Nascimento, Divonzir Arthur Gusso
  •  DINÂMICA DA EFICIÊNCIA PRODUTIVA DAS INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE ENSINO SUPERIOR Edward Martins Costa, Francisco de Sousa Ramos, Hermino Ramos de Souza, Luciano Menezes Bezerra Sampaio
  •  INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO: O CASO DAS UNIVERSIDADES ESTADUAIS PARANAENSES Carlos Eduardo Caldarelli, Marcia Regina Gabardo da Camara, Claudia Perdigão
  •  ASSOCIAÇÃO DO ENSINO PROFISSIONALIZANTE COM RENDIMENTO E EMPREGO: MINAS GERAIS (2009 E 2011) Bárbara Avelar Gontijo, Ernesto Friedrich de Lima Amaral
  •  ELASTICIDADE DA POBREZA: APLICAÇÃO DE UMA NOVA ABORDAGEM EMPÍRICA PARA O BRASIL Erik Figueiredo, Ana Cláudia Annegues, Wallace Souza
  •  REGRAS DO GOVERNO BRASILEIRO SOBRE SERVIÇOS DE TELESSAÚDE: REVISÃO INTEGRATIVA Angélica Baptista Silva, Ana Cristina Menezes Guedes Carneiro, Sergio Ricardo Ferreira Síndico
  •  ANÁLISE DE POLÍTICAS PARA AGLOMERAÇÕES NO BRASIL E EM PAÍSES EUROPEUS SELECIONADOS Ana Lucia Tatsch, Janaina Ruffoni, Vanessa de Souza Batisti, Lucimar Antonio Teixeira Roxo
  •  POLÍTICAS DE COTAS NÃO RACIAIS AUMENTAM A ADMISSÃO DE PRETOS E PARDOS NA UNIVERSIDADE? SIMULAÇÕES PARA A UERJAlvaro Alberto Ferreira Mendes Junior, Fábio Domingues Waltenberg
  •  PROPOSTAS DE DINAMIZAÇÃO DO AMBIENTE ECONÔMICO MUNICIPAL A PARTIR DA ANÁLISE DOS DETERMINANTES DE ATRAÇÃO DE INVESTIMENTOS: UMA ABORDAGEM EXPLORATÓRIA PARA O ESTADO DE SÃO PAULO Bruno Brandão Fischer
  •  IMPACTO DOS DETERMINANTES DAS PARCERIAS PÚBLICO PRIVADAS EM ECONOMIAS EMERGENTES Rodrigo Nobre Fernandez, Ronald Otto Hillbrecht, Gabrielito Menezes, Felipe Garcia Ribeiro
  • CAPACIDADE AMBIENTAL NO NÍVEL SUBNACIONAL: O CASO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Bruno Milanez, Clarissa Reis Oliveira
  •  GESTÃO DA DÍVIDA PÚBLICA, REPUTAÇÃO FISCAL E RISCO-PAÍS: EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS PARA O BRASIL Gabriel Caldas Montes, Bruno Pires Tibert

25/06/15

Atlas Digital da América Lusa

Aqui, mas veja antes o tutorial (pule para 2:30) para se impressionar.  Eu já tinha postado sobre o projeto faz anos e o projeto avançou muito mesmo
Nesta semana, tive o prazer de almoçar com os Profs Tiago Gil, coordenador do Atlas,  e  Fábio Pesavento, autor de "Um pouco antes da Corte: a economia do RJ  na segunda metade dos setecentos".  (O Fábio talvez seja o único historiador-econômico-rato-de-arquivo-surfista-golfista que pisou ou pisará o planeta Terra. Figuraça).

24/06/15

"Avaliação da Qualidade do Gasto Público e Mensuração da Eficiência"

O livro foi lançado ontem está disponível para download gratuito no site da Secretaria do Tesouro. A publicação já estava sendo preparada faz um bom tempo pelos organizadores: Fabiana Rocha, Fabiana Rodopoulos e  Rogério Boueri ( meu amigo e ex-chefe no Ipea).
Os autores dos textos são os craques na discussão sobre eficiência -com ênfase em DEA-  no Brasil. Tem até uma introdução a utilização de análise envoltória de dados no R (cap 10).

16/06/15

R versus Stata

Meu amigo Lucas Mation definiu muito bem:
"O Stata é aquela bicicleta híbrida, barata, que não quebra, pneu fininho, fácil de pedalar, melhor coisa para ir pro trabalho em boas ruas.
 Já o R é uma bike feita em casa pelo seu vizinho, tudo meio torto, pesada, tem que pedalar pacas... Só que você conecta um módulo de dirigível e vai voando por cima do trânsito." 
(Lucas é ciclista, ás no Stata  e recém-quase-convertido ao R) 

North American Regional Science Conference 2015 Portland Call for Papers

Aqui. (Eu quero ir para Portland para saber se Portlandia é ficção ou documentário e se é verdade que se pode encontrar hipsters como esse nas ruas.)

08/06/15

Por que a Argentina ficou pobre?

É um dos grandes enigmas da história econômica. O novo texto abaixo faz um resumo das teses e testa uma hipótese: os períodos de boom exportador geram uma demanda por populismo:
Commodity Price Booms and Populist CyclesAn Explanation of Argentina’s Decline in the 20th Century
Emilio Ocampo
 Argentina’s economic and institutional decline has long posed a conundrum to economists and social scientists. In particular, it challenges theories that seek to explain cross-country growth differences over time. Those theories that claim that institutions have a first-order effect on growth cannot explain the persistent economic decadence of a country that in 1930 was among the most institutionally advanced in Latin America. Theories that claim that that education and growth precede inclusive institutions face a similar problem, since Argentina was one of the most educationally advanced countries in Latin America. The same can be said of theories that claim that social capital is the determinant factor that explains long-term growth. This paper emphasizes the key role played by recurrent cycles of populism in pushing the country into secular decadence and posits that, in Argentina, rising commodity prices have driven the cycles of populism. Key words: Populism, commodity cycles, Argentina, inequality, institutions, social capital, economic growth, economic decline.
A dica foi do Shikida. 

02/06/15

Maluf e o saleiro

Eu defendo a proibição capixaba do saleiro à mesa dos restaurantes. Supondo que sal realmente faz mal à saúde, meu argumento é:
  • Como a demanda por sal é muito inelástica, uma taxa pigouviana não reduziria o consumo. Logo, um nudge, um empurrãozinho é recomendável. Quem realmente quiser mais sal, deve apenas pagar o imenso custo de dizer :"Seu garçom, por favor, o saleiro".
Os contra-argumentos seriam:
1) "Não funcionará porque as pessoas andarão com sal na carteira, ou aumentarão o consumo de coisa pior."
2) "Se hoje o governo se proíbe o sal, amanhã vão nos obrigar a comer whey com espinafre. Como traçar a fronteira?!"
São, na verdade, os contra-argumentos conhecidos: a) não vai adiantar; b) o efeito será contrário ao desejado; c) outras liberdades serão ameaçadas (Hirschman ®) .
O ponto 1 é empírico. Ele se baseia na ideia de que o efeito Peltzman anularia completamente qualquer intervenção. Pode ser.
 O ponto 2 é um pouco mais complicado. Antes de tudo, nem toda externalidade deve ser corrigida. Primeiro, seria desejável aplicar a troca coaseana. Se não for possível, é preciso considerar as falhas de Estado. A competência do Estado em identificar as externalidades e compensar os atingidos é bem limitada. Isso deveria ser levado em conta em qualquer análise.
Em suma, não há um limite definido para intervenção do estado. Cada caso tem que ser analisado de acordo com os benefícios e custos envolvidos. A vacinação obrigatória é um caso evidente de sucesso da intervenção estatal na saúde pública. Já colocar fiscais para obrigar todo mundo a caminhar 1 hora por dia seria bizarro. Em uma sociedade aberta, essas questão são decididas aos trancos e barrancos, com erros e acertos.
O que a história mostrou é que o meu querido Hayek errou na sua previsão. O welfare state não levou ao totalitarismo. As sociedades souberam combinar economias abertas, competitivas, com intervenções sensatas na saúde pública. (O google me ensinou que restrições à adição de sal são comuns na União Europeia.)
Para vocês verem como o tempo mudou, aí vai um vídeo antigo do "doutor" Maluf defendendo a restrição ao fumo e o uso do cinto de segurança. Vejam como os jornalistas moderninhos parecem dinossauros frente a um Maluf sensato:
Claro que em um país em que a maior parte da população não tem esgoto adequado, é campeão mundial de homicídios, protecionista, e políticas públicas horríveis parece (e é) um luxo bobo discutir o saleiro. Mas, ô diabos, esse é o assunto do dia.

31/05/15

Por que o raio gourmetizador atacou? Culpa da bolha imobiliária

Para entender a hipótese, preciso voltar a uma das sacadas mais bacanas da Economia: o Teorema Achian-Allen, ou paradoxo das maças. Eu o expliquei assim em um  capítulo de livro (p.53; pdf gratuito grande):
Custos de transporte podem gerar efeitos curiosos. O teorema de Alchian-Allen (1967) ilumina um desses fenômenos. Esses autores buscaram uma resposta a um mistério econômico: por que em uma região produtora de maçãs são encontradas apenas as de pior qualidade, enquanto as melhores são exportadas? O motivo é simples: como o custo de transporte é o mesmo para maçãs boas ou ruins, o frete torna as maçãs boas mais atrativas. Um exemplo numérico com o caso dos vinhos torna tudo mais claro. Supondo-se que existem dois tipos de vinho: o Château Caro custa $ 50,00 e o Château Vagabundo, $ 5,00. É razoável supor que os custos de transporte são os mesmos para qualquer tipo de vinho; por exemplo, $ 5,00. No local de produção, a relação de preços vinho bom/vinho ruim é de 10 para 1. No mercado consumidor, com frete, a relação de preços passa a ser de 5,5 ($ 55,00/$ 10,00). Ou seja, em termos relativos, o vinho bom fica mais barato no mercado distante do que no local. Portanto, o vinho bom tenderá a ser exportado e o ruim ficará para consumo local. O teorema de Alchian-Allen significa, assim, que uma tarifa fixa leva a uma substituição de bens de pior qualidade pelos de melhor qualidade. Pela mesma lógica, o teorema prevê que, ao pagar pelos serviços de uma babá para ficar com o seu filho, um casal não vai jantar em uma lanchonete barata, e sim em um restaurante mais caro (como o custo de contratar a babá é fixo, a ida à lanchonete ficaria relativamente cara).
O custo de um quiosque ou de uma loja para o vendedor de brigadeiro funciona como um custo de transporte para o vendedor de vinho. Não importa a qualidade do que é vendido, o preço por metro quadrado é o mesmo.  Como o preço dos aluguéis aumentou nos últimos anos, o produto de baixa qualidade* encareceu relativamente frente ao de alta qualidade. Em outras palavras, o brigadeiro gourmet ficou relativamente mais barato frente ao brigadeiro genérico. Os lojistas viram essa oportunidade e aplicaram o raio gourmetizador em tudo.

* "Qualidade" significa que o consumidor pensa que o produto é melhor. Não quero dizer que os produtos "gourmetizados" são objetivamente melhores. (Exceto as paletas mexicanas. Essas todos mundo sabe que são melhores do que os picolés.)




28/05/15

Como a maldição do petróleo ataca?

Em países com instituições ruins, o boom do petróleo aumenta os incentivos para cursar direito, administração e humanas:

Christian Ebeke, Luc Désiré Omgba, Rachid Laajaj, Oil, governance and the (mis)allocation of talent in developing countries, Journal of Development Economics, Volume 114, May 2015, Pages 126-141, ISSN 0304-3878, http://dx.doi.org/10.1016/j.jdeveco.2014.12.004. 
Abstract: This paper sheds light on the relationship between oil rent and the allocation of talent, toward rent-seeking versus more productive activities, conditional on the quality of institutions. Using a sample of 69 developing countries, we demonstrate that oil resources orient university students toward specializations that provide better future access to rents when institutions are weak. The results are robust to various specifications, datasets on governance quality and estimation methods. Oil affects the demand for each profession through a technological effect, indicating complementarity between oil and engineering, manufacturing and construction; however, it also increases the ‘size of the cake’. Therefore, when institutions are weak, oil increases the incentive to opt for professions with better access to rents (law, business, and the social sciences), rather than careers in engineering, creating a deviation from the optimal allocation between the two types of specialization. Keywords: Oil rent; Governance; Rent-seeking; Tertiary education
Talvez seja uma mera coincidência sem qualquer significado, mas acabo de ler essa notícia da Petrobras.

27/05/15

Corrupção= monopólio + poder discricionário - accountability

Já dizia o ótimo Klitgaard na década de 1990. É uma equação simplista, mas muito verdadeira. Ah, se certas organizações poderosas levassem isso a sério...
Sugiro fortemente Tropical Gangsters: One Man's Experience With Development And Decadence In Deepest Africa , sobre o tempo do Klitgaard como consultor do Banco Mundial e surfista na África.

Resgate da Reforma Política – Diversidade e Pluralismo no Legislativo

Eu não sei nada sobre o assunto, mas os ótimos consultores do Senado prepararam um e-book bem interessante sobre a reforma política: aqui. (Obrigado ao Alexandre Rocha).

26/05/15

A política regional custa duas vezes o Programa Bolsa Família

Aqui.

POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO BRASIL: uma estimativa de custos
Luiz Ricardo Mattos Teixeira Cavalcante

O objetivo deste trabalho é estimar os custos fiscais das políticas de desenvolvimento regional adotadas no país. Procura-se, inicialmente, delimitar o conceito de política regional para fundamentar a proposição de um método de apuração dos custos associados aos instrumentos empregados no Brasil. Em seguida, calculam-se, para o período entre 2009 e 2013, os custos fiscais anuais das políticas de desenvolvimento regional. Estima-se que esses custos alcançaram, em 2013, R$ 53,8 bilhões. Esse valor, que corresponde a 1,11% do produto interno bruto (PIB) e a cerca de duas vezes o custo do Programa Bolsa Família naquele mesmo ano, resulta da soma de incentivos fiscais de R$ 31,7 bilhões, de incentivos financeiros de R$ 14,2 bilhões e de investimentos diretos do Governo Federal (mais do que proporcionais à participação das regiões menos desenvolvidas no PIB) de R$ 8,0 bilhões. Mais de 55% desses custos são destinados à região Norte, especialmente em decorrência dos incentivos fiscais concedidos às empresas instaladas na Zona Franca de Manaus (ZFM).  
Sobre os (imensos!) impactos regionais do Bolsa Família:
Silveira‐Neto, Raul M., and Carlos R. Azzoni. "Social policy as regional policy: market and nonmarket factors determining regional inequality." Journal of Regional Science 52.3 (2012): 433-450.