29/03/2017

Jornalismo de dados é insuficiente (continuação)

O post anterior rendeu respostas da Tai Nalon e do Sergio Spagnuolo, que trabalham no AosFatos.
  1. Antes de tudo, eu só critico o Aos Fatos só  porque admiro o esforço e  os objetivos do projeto; 
  2. Tai Nalon, as bases utilizadas no estudo não são as mesmas. Ambas tem como fonte a Rais, mas Stein et al usaram a base da Rais identificada (também chamada de Rais-Migra) que tem os dados completos do indivíduo e do vínculo empregatício. Isso permite seguir o mesmo trabalhador a cada ano. Já o Dieese usou os dados agregados da Rais (de forma irresponsável). 
  3. O problema não é falta de dados. A Rais identificada é uma base de 70 milhões de observações por ano que permite resolver problemas empíricos bastante complicados. (A propósito, o método de identificação dos terceirizados feito por Stein et al é apropriado, na minha opinião) 
  4. Sérgio apontou que todo mundo erra, inclusive o Ipea. Ele não precisava citar artigos dos meus colegas de trabalho. Poderia citar os meus erros. Veja aqui aqui duas lambanças que eu mesmo fiz, identifiquei e corrigi. Imagine quantos erros eu devo ter deixado passar?! Além desses erros triviais, devo ter cometido muitos outros metodológicos. Contudo, isso é diferente de escrever um trabalho não-científico. Seria como comparar um erros de um astrônomo com um de um astrólogo. (Um astrólogo nunca erra, pois a astrologia já é um erro em si )  
  5.  Aí vai o meu ponto: eu não espero que jornalistas saibam dessas manhas da pesquisa empírica e das bases de dados. O meu ponto é que vocês deveriam ter o apoio de pesquisadores antes de equiparar o panfleto do Dieese e o trabalho de Stein et al. Ora, os leitores vão ao site do AosFatos pela credibilidade que vocês têm. Se o conceito de "Verdadeiro" passa a significar "há um estudo que afirma", qualquer coisa é válida porque sempre existe um estudo mal feito para ser citado. No site vocês dizem que "Verdadeiro" significa "declaração condizente com os fatos e que não carece de contextualização." O panfleto do Dieese não se enquadra na categoria. Um economista, sociólogo quant ou demógrafo bem treinado teria percebido isso imediatamente.
  6. Se a ideia do AosFatos for reproduzir as conclusões de estudos não importando sua qualidade, então sugiro que vocês explicitem isso para o leitor. Se for checar a veracidade das afirmações de políticos e autoridades, aí eu os congratulo porque é disso que o debate público precisa.

Jornalismo de dados é insuficiente

O site Aos Fatos checou se terceirizados ganham menos e comparou dois estudos. Um trabalho diz que os terceirizados ganham -24,7%; e o outro, desprezíveis -3%. O problema é que o site escolheu  dois trabalhos com rigor completamente diferente. Um foi feito pelo Dieese e só compara as diferenças entre ocupações tipicamente terceirizadas e as que não são. Isso é tão científico (ou trivial) quanto comparar o salário de pessoas que trabalham de paletó e de uniforme.
O outro estudo escolhido foi o paper de Stein et al . Este é um trabalho cuidadoso, com microdados da RAIS identificada e que usa as melhores técnicas disponíveis para tentar controlar as diferenças entre os indivíduos terceirizados e os que não o são. 
O texto do Aos Fatos dá o mesmo status a ambos estudos e faz crer que são duas visões sobre a mesma questão. Não mesmo. Claro que o trabalho de Stein et al não é definitivo, perfeito. Nenhum é, mas ele está em outro patamar de qualidade do que o panfleto - uso o termo conscientemente- do Dieese.
Sempre haverá trabalhos ruins. E os bem-intencionados divulgadores de ciência só pioram as coisas quando não separam esse joio do trigo. O público leigo fica ainda mais confuso e incrédulo.
Jornalismo de dados é uma ideia boa, um avanço, mas precisa do apoio de gente com treinamento em outras áreas e não apenas programadores ou web designers. Gente que saiba  que os dados não falam por si e precisam de alguma teoria para guiar as análises e a seleção de estudos de qualidade.

Links:
-O Roberto Ellery deu umas boas pancadas no estudo do Dieese.

22/03/2017

Por que Tony Ramos faz propaganda de carne?

Tony Ramos nunca teve reputação de gourmet ou mesmo de churrasqueiro. Por que contratá-lo?
Vamos lá.  Os consumidores enfrentam um desafio: saber a qualidade dos produtos. Em vários casos isso não chega a ser muito complicado. Na compra de uma maçã, por exemplo,  ele examina o produto e estima a qualidade antes de comprar.
Outras vezes não é tão fácil. Pode ser que o consumidor só conheça a qualidade depois de consumir o produto (filmes, livros e a maior parte dos bens culturais), ou porque há problemas técnicos na identificação da qualidade (pense em um remédio). Nesses casos, a sociedade desenvolveu seus próprios mecanismos: críticos especializados que dizem se um livro ou restaurante carro são bons, Yelp, ou mesmo órgãos de certificação privada ou pública.
A propaganda é outro mecanismo de sinalizar qualidade. A lógica é a seguinte: a empresa gasta uma fortuna em propaganda- e geralmente alardeia o quanto gastou-  para mostrar ao consumidor: "Ei, olha só, gastei R$25 milhões para o Rei Roberto fazer propaganda da minha marca. Isso mostra que eu estou  comprometido com a minha marca. Se o produto for ruim, eu não terei como recuperar essa grana. "
Quem genialmente sacou esse mecanismo foi o P Nelson em um artigo que já completou 4 décadas:
NELSON, Phillip. Advertising as information. Journal of political economy, v. 82, n. 4, p. 729-754, 1974.
O mecanismo é perfeito? Não. A realidade recente mostrou que nem a certificação governamental, nem contratar artistas por milhões garante 100% de qualidade. Mas quem vai contratar o Tony Ramos para uma propaganda de agora em diante? Antecipando os riscos a suas imagens, os artistas serão mais cautelosos (e/ou) cobrarão mais. Será que vai surgir uma certificação privada para as carnes nacionais?
Enfim, informação assimétrica sempre existirá e não há um mecanismo só capaz de cobrir todas as situações.

10/03/2017

Diversos