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Mostrando postagens de 2016

Em defesa da Fundação de Economia e Estatística

A biblioteca da FEE e suas publicações são essenciais para pesquisas sobre a economia e a história econômica do Rio Grande do Sul. Sua publicações sempre me foram utilíssimas e a biblioteca me traz ótimas memórias. Foi nos textos clássicos dos grandes Alonso e Bandeira - pesquisadores da FEE - que eu  e muitos outros aprendemos sobre as questões regionais do RS. E, hoje, há novas gerações de pesquisadores da FEE produzindo muita coisa interessante.
Torço mesmo que o -necessário  -ajuste fiscal no RS não leve à extinção da FEE. Seria uma pena. Podem dizer que minha visão é  tendenciosa, uma vez tenho muitos amigos lá (nenhum deles me pediu para escrever isso) e trabalho em instituição semelhante. Que seja.  Mesmo assim, seria um erro acabar com a FEE.

Adam Smith e as desigualdades inatas

Como escrevia bem, o danadinho:




O que fazer quando a variável de alocação é manipulada?

Um monte de papers tem usado as faixas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) como estratégia de identificação em regressões de descontinuidade. Eu já escrevi que isso não é nada recomendável, uma vez que é evidente  a manipulação da população dos pequenos municípios, especialmente a partir de 2000. Vejam aí o histograma da primeira divulgação do Censo de 2010. Fica claro que, sei lá como, os prefeitos conseguem que seus municípios pulem para a faixa superior do FPM. (Tem uma galera que faz  até escolhas com honestidade ,digamos, elástica para passar no teste de manipulação de McCrary).

Agora, um trabalho novo propõe um método que permite utilizar regressão com descontinuidade, mesmo quando há manipulação da variável de alocação. Parece muito bacana:

Bounds on Treatment Effects in Regression Discontinuity Designs under Manipulation of the Running Variable, with an Application to Unemployment Insurance in Brazil
 François Gerard, Miikka Rokkanen, Christoph Rothe
A key assumption…

Teoria econômica do fazer m*rda

Por que um manifestante faz algo que evidentemente é contra seus objetivos declarados? Ontem opositores da PEC 55 atearam fogo em carros civis, destruíram pontos de ônibus, placas de sinalização, picharam o museu e tudo mais. Isso só contribui para afastar a opinião pública da sua causa.

Hipótese: o vândalo age para elevar seu status dentro do grupo. Como o status é vago, quebrar um banheiro químico sinaliza: "Vejam só! Eu sou mais comprometido que vocês!".E daí se isso afasta a população? O importante é a posição em relação aos seus pares. Se vocês xingam a polícia, eu jogo pedra. Se vocês jogam pedra, eu esfaqueio um policial... É a mesma corrida por status que faz, sei lá,  que exista carinhas que se endividam para ter o melhor carro do condomínio. Ou aquele que malha até ficar tão bombado que parece o boneco da Michelin.

No caso presente,  contudo, há um descompasso maior entre o resultado dessa corrida individual e o interesse do grupo. A analogia é com o membro do gru…

Cuba é mais rica que o Brasil?

Um texto da internet afirma (não vou incluir o link):
"O povo daquela ilha rochosa bloqueada é mais rico que o povo do continente Brasil. Essa é uma realidade chocante e geralmente desconhecida." O autor recorre aos dados do World Bank que realmente mostram Cuba com um PIB per capita (PPP)  de US$20611 contra US$ 15893 do Brasil.
Obviamente essa estimativa está furada. É tão furada que a ONU - ao calcular o IDH- estimou outro valor que até os órgãos oficiais de Cuba acharam mais razoável:
The 2013 HDI value published in the 2014 Human Development Report was based on miscalculated GNI per capita in 2011 PPP dollars, as published in the World Bank (2014). A more realistic value, based on the model developed by HDRO and verified and accepted by Cuba’s National Statistics Office, is $7,222. The corresponding 2013 HDI value is 0.759 and the rank is 69th. A mesma fonte coloca o Brasil como tendo renda per capita de US$ 15175. Ou seja, Cuba tem a metade da renda per capita brasilei…

Contra a metáfora doméstica na defesa do ajuste fiscal

Eu mesmo uso a analogia com os alunos. Para explicar a regra de ouro da Contabilidade Pública, eu digo "Não pode entrar no cheque especial para pagar o condomínio". Até aí, tudo bem.
Agora, nos debates sobre o ajuste fiscal, tem-se ouvido dos defensores da EC 55 :
"As finanças públicas são como a casa da gente. Não dá para gastar mais do que se ganha." Eu acho uma má ideia recorrer a essa metáfora para o público.  Ora, como toda metáfora e como todo economista sabe, a analogia é imperfeita e a economia não é como a casa da gente. Até aí, também tudo bem. O motivo principal pelo qual sou contra a analogia é que ela é derrubada pelo contra argumento que o leigo entende com facilidade excessiva:
"Ah, mas a diferença é que na economia, o que o governo gasta determina o quanto ele próprio ganha. Quando o governo gasta, o dinheiro da economia gira, gera mais emprego, isso aumenta a arrecadação e - de lambuja- o Brasil será hexacampeão de futebol . " Rejeitar e…

Diversos

Shikida conta a história da blogosfera econômica brazuca. (Discordância: eu não sou mãe/pai de nada.  Foi ele quem motivou que outros econ criassem seu próprio blog.);Orair, Gobetti e Pompermayer - colegas de Ipea- foram premiados pelo Tesouro. Parabéns!  Artigos dos premiados estão aqui;Um guia de estilo para o código em R;Excelente curso de Desenvolvimento Econômico (ignore a parte em russo; os pdf estão inglês); O mesmo autor, Daniel Shestakov, preparou uma ótima apresentação sobre Cliometria.

XI mandamento

Qual XI Mandamento teria tido maior impacto no futuro bem-estar da humanidade? A regra é que deve ser algo que aquele monte de ignorantes do século I pudesse entender e aplicar.
A minha primeira ideia foi: "lavarás as mãos". O Alexandre Chiavenegatto sugeriu "se teu bebê tiver diarreia, darás uma solução com sal e açúcar."  Pensei também em "Não maltratarás os judeus" ou "Respeitarás mulheres e crianças" e alguém recomendou no   "não terás posse sobre outro ser humano". Essas últimas recomendações, que protegem grupos específicos, teriam impactos positivos, mas limitados.
Como gerar impactos globais? As recomendações de saúde pública, na verdade, não teriam grande efeito. Como a humanidade estava na armadilha malthusiana, qualquer melhoria da saúde apenas aumentaria o nível população mundial, mas o bem-estar seria o de subsistência.*
Para incrementar o bem-estar no longo prazo, o jeito seria acelerar a inovação tecnológica. Talvez ess…

XVII JOLATE -Jornadas Latino-Americanas de Teoria Econômica- Brasília - 3-5 novembro

Os meus colegas da UCB organizaram o evento. O Costas Azariades é um dos palestrantes. Vejam a programação:

Sugestões de séries

Minha credencial-hipsterística-moderninha: neste blog eu já recomendava Black Mirror no carnaval de  2013, antes de se modinha.
Aí vão outras recomendações não muito populares:
- Occupied: série norueguesa. Ideia central: russos invadem a Noruega;
- Deutschland 83: um The Americans na Alemanha dividida;
- Nightly Night, série inglesa humor negro com a genial Julia Davis. Ao contrário das outras sugestões, essa não agrada qualquer um.  Ela também fez o bom Hunderby (meio que zoando Downton Abbey).
Sugestões?

"Coffee, Immigrants and Growth in Brazil" por Anna Faria

Proposta: uma restrição "orçamentária" na regulamentação

A PEC 241 contribuiu para mostrar que - com uma restrição orçamentária rígida - R$1 a mais de gasto público em A significa R$1 a menos em B.
Contudo, o legislador não enfrenta qualquer restrição do furor regulatório. Só ontem, aprovaram 20% de motoristas mulheres de uber em Porto Alegre e, no RJ, discutem a obrigatoriedade do café gratuito nos restaurantes.
Minha proposta é criar uma restrição da seguinte forma:para cada nova regra, uma (ou duas, três....) outra tem que ser abolida. (Ou, para evitar malandragens, talvez a equivalência poderia ser entre o número de atingidos pela regra nova e a extinta)
Dei uma googlada e descobri que a Alemanha estabeleceu exatamente isso em 2015.
Atualização: eu devo ter lido e esqueci, mas o Tabarrok já escreveu sobre isso no ano passado. Nos comentários, avisaram que a Inglaterra segue o princípio: one in, two out. Agradeço ao @RodrigoGConejo pelo aviso.

Diversos

Sensacional tese do Pedro Souza "A desigualdade vista do topo: concentração de renda entre os ricos no BR 1926-2013" está on-line. A propósito, o Marcelo Medeiros, orientador da tese, publicou um capítulo no World Social Science Report da Unesco e um artigo bacana sobre educação e os 1%;Meu amigo Ulysses Gamboa, lançou Macroeconomia Para Gestão Empresarial. Eu comi mosca e esqueci de divulgar a lançamento em SP. Recomendo!Belíssimo capítulo do Rodrigo Orair sobre financiamento dos municípios no Brasil de hoje;Revista de Economia de Empresas da UCB está com uma chamada para o número especial de artigos sobre finanças. Autores devem contactar bree.finance@gmail.com;Uma ótima entrevista do Marcos Mendes para o Mercado Popular explicando a PEC 241 (video). Quem estiver ainda com dúvidas, pode ver o vídeo (+ de 4 horas!)  da apresentação dele e do Mansueto no Senado. Vale ver o debate também;Como deixei de ter medo da Lei de Wagner e passei a amá-la; A apostila de econometria apl…

Prêmio Paulo Haddad

O trabalho feito pelo Júlio Lopes e por mim:
Novas medidas de localização a partir da análise de distância de pontos: um estudo empírico para a indústria de transformação de São Paulo ganhou o Prêmio Paulo Haddad no encontro da Associação Brasileira de Estudos Regionais.
O Júlio - do Banco do Brasil-  foi meu orientando de mestrado na UCB. Agradecemos aos colegas da Dirur/Ipea pelo apoio nos dados e à Vanessa Nadalin, também membro da banca. (Ela, a propósito, acabou de publicar um paper bacana sobre vacância urbana em SP)

Música ao vivo é uma taxa

Odeio música ao vivo em restaurantes. Se é boa, não consigo apreciar tranquilo enquanto como. Se é ruim, é ruim e atrapalha a ingestão. Ontem tive que mudar de restaurante duas vezes, porque - após entrar- descobri que havia um infeliz tocando "Nada ficou no lugar..." enquanto outros mastigavam.
Afinal, porque diabos isso existe? Eu acho que a maior parte dos consumidores é como eu (talvez não tão mal humorada): optaria pelo silêncio. Claro que existe um parcela do público que realmente gosta de música ao vivo, mas talvez haja outra explicação.
Lá vai: couvert artístico é um "mal", em vez de um bem econômico. Ambos restaurantes que eu desisti (Coco Bambu e Piauíndia) encheriam de qualquer forma no almoço de sábado. Cobrar o couvert artístico é um jeito de impor uma 'taxa de congestionamento" sem aumentar os preços no menu e evitar as filas. Se eu tivesse ficado, meu excedente do consumidor diminuiria, mas eu deixaria uns R$6 a mais na conta. Vou lá outro …

Diversos

Reduzir a jornada de trabalho vai recuperar os empregos? Por Pedro NeryO que têm na  Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido e na Hungria? Educação financiada por Empréstimos Contingentes à Renda. Por Paulo Nascimento;A ortografia de heterocedasticidade; Só li verdades: .

"Streets are not a city’s veins but its neurology"

Adam Gopnik escreve sobre Jane Jacobs. O melhor texto que li no ano:
"The Jacobs street, a perfect reflection of the miracle of self-organizing systems that free markets create, becomes a perfect reflection of the brutal and unappeasable destruction that free markets enforce." Eu tirei foto da casa em Nova Iorque em que Jane escreveu o clássico "Morte e Vida de Grandes Cidades" . É significante que o local tenha virado uma imobiliária e, nos anos 90, ela reconheceu que não teria mais dinheiro para lá morar.


555 Hudson Street. Tive que pedir para uma moça que pedia dinheiro para o Greenpeace para sair da frente da casa e não atrapalhar a foto. Ela me olhou como se eu fosse maluco por querer fotografar o local.

Manual: uma boa notícia e um pedido

A boa notícia é que a nova edição do Manual de Sobrevivência na Universidade -  atualizada e 40% mais longa-  será publicada em papel por uma editora no ano que vem. Agradeço todas as sugestões e avaliações que o ebook recebeu enquanto estava na Amazon. (Exceto a do sujeito que deu duas estrelas e escreveu algo como "Muito útil, mas só vale a pena ler o livro uma vez". )
O pedido: eu gostaria que o livro fosse apropriado para outras áreas, além da Ciências Sociais Aplicadas. E, para isso, preciso de leitores com experiência em outros campos da vida acadêmica. Quem puder ajudar, por favor, coloque nos comentários o email e a área de atuação para que eu envie verbetes selecionados para validação e sugestões. (Sei que vai ser difícil, uma vez que a maior parte dos 38473234432 leitores do blog são da área de Economia, mas imagino que conheçam outras pessoas)

Os benefícios do FIES

Wilsimara Rocha, Philipp Ehrl e eu estimamos o ganho salarial dos beneficiados pelo FIES´usando PSM. Os resultados foram publicados aqui. (Estamos trabalhando em outra versão, mais parruda e completa.) Antecipando: o limite superior da estimativa é de uns R$307 por mês a mais para quem usufruiu do FIES.
Quem se interessar pelo tema, deve olhar os outros artigos  do Boletim Radar sobre o FIES, com artigos bacanas do pessoal de educação do Ipea e um texto de Vinícius Botelho e Samuel Pessoa.

Los Angeles: uma avaliação generosa

Los Angeles é feia. Muitas áreas tem aquele jeitão de cidade de renda média: fios elétricos à vista, poucas árvores e uma repetitiva falta de padrão. Totalmente voltada para os carros, suas quadras imensas, com  ruas principais largas demais, afastam os pedestres. Em cada área comercial, a mesma repetição de cartazes mal feitos e que misturam as grandes marcas conhecidas, com propagandas de lojas que ninguém gostaria de ter como vizinhas. Sem contar os imensos cartazes de propaganda do último filme ou show do Netflix. Tudo feio mesmo.


Nem as atrações são lá grande coisa. Hollywood Boulevard, Chinatown e Venice são como zoológicos em que turistas vão em busca de estrelas ou do exótico e só os encontram em versões fajuta, cansada e fracassada. Até em Beverly Hills, é mais provável encontrar outros ônibus de turismo do que uma celebridade. (A propósito, não vi nenhuma). A cidade tem lá um centro, mas é melhor que não tivesse. É o inferno para dirigir, tem uns três prédios interessantes,…

Salário médio dos trabalhadores com nível superior pode cair mesmo que todos formados tenham aumento? Sim!

Imagine que havia dois países: um rico e outro pobre. É possível que o consumo per capita de grãos caia, mesmo que ambos países tenham aumentado o consumo por habitante?
Por incrível que pareça, sim. Imagine que os habitantes do país rico comiam 20 quilos por habitante e os do pobre, 10 quilos e que ambos tinham a mesma população (1 milhão). A média de consumo per capita é 15 quilos, né? (20*1+ 10*1)/(1+1). Cinco décadas depois, o país rico apenas dobrou de população enquanto a população do pobre foi multiplicada por 8. E suponha que o consumo do país rico aumentou para 21 quilos e o consumo do país pobre passou para 13 quilos. Como fica o consumo per capita do agregado? =(21*2 + 13*8)/ (2+8)= 14, 6. Viram? Mesmo que ambos os países tenham tido um aumento, as mudanças na composição fizeram com que a média agregada caísse de 15 para 14,6 kg por habitante!
Pela mesma razão, o salário médio dos trabalhadores com nível superior pode cair, mesmo que todos os formados tenham aumentos salar…

Sobrenomes e ancestralidade no Brasil

O meu Texto para Discussão Ipea está on-line:
TD 2229 - Sobrenomes e Ancestralidade no Brasil  Este trabalho apresenta um método de classificação da ancestralidade dos sobrenomes dos brasileiros nas seguintes classes: ibérica, italiana, japonesa, alemã e leste europeia. A partir de fontes históricas diversas, montou-se uma base de dados da ancestralidade dos sobrenomes. Essas informações formam a base para a aplicação de algoritmos de classificação de fuzzy matching e de machine learning nos mais de 46 milhões de trabalhadores da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) Migra de 2013. A imensa maioria (96,4%) dos sobrenomes únicos da Rais foi identificada com o processo de fuzzy matching e os demais com o método proposto por Cavnar e Trenkle (1994). A comparação dos resultados do procedimento com dados sobre estrangeiros no Censo Demográfico de 1920 e a distribuição geográfica dos sobrenomes não ibéricos reforçam a acurácia do procedimento. Comentários são - como sempre- bem-vindos…

Cuba, um país desenvolvido (em 1957!)

Reproduzo aqui o post do Brad DeLong em que ele sintetiza o que todo mundo deveria saber. (Brad DeLong, à propósito,é um professor Berkeley de esquerda - para padrões americanos)
"The hideously depressing thing is that Cuba under Batista--Cuba in 1957--was a developed country.  Cuba in 1957 had lower infant mortality than France, Belgium, West Germany, Israel, Japan, Austria, Italy, Spain, and Portugal. Cuba in 1957 had doctors and nurses: as many doctors and nurses per capita as the Netherlands, and more than Britain or Finland. Cuba in 1957 had as many vehicles per capita as Uruguay, Italy, or Portugal. Cuba in 1957 had 45 TVs per 1000 people--fifth highest in the world. Cuba today has fewer telephones per capita than it had TVs in 1957.  You take a look at the standard Human Development Indicator variables--GDP per capita, infant mortality, education--and you try to throw together an HDI for Cuba in the late 1950s, and you come out in the range of Japan, Ireland, Italy, Spain…

Quem escreveu isso? essa ninguém acerta sem googlar!

Dica: O texto é de 1957.

Schumpeter dando bronca no Samuelson

Dei um pulo em Duke para ler os arquivos do Douglass North sobre o Brasil. Mas é claro que tirei um tempo para ver a correspodência entre os grandes economistas do século XX. (Meu plano para a aposentadoria é ficar aqui só lendo fofoca. Tem muita coisa).
Vejam só essa carta que do Schumpeter que o Samuelson guardou:


Quem será?

No relato de viagem do Douglass North no Brasil (1961) ele conta que encontrou no Rio com uma economista brasileira que:
1- Tinha acabado de ser recuperar de um mental breakdown;
2- Era a principal economista mulher do Brasil;
3- Treinada nos EUA, ex-estudante do Benjamin Higgins;
4-  Achava que o Furtado era "brilhante, mas não sabia Economia";
Alguma suspeita? (Não deve ser a MC Tavares. Ela não estudou nos EUA)
PS. Ele diz que o primeiro nome é Maria.

Atualização: Respondido! o @rodrigolach descobriu uma Maria José Paiva que estudou em McGill e foi aluna do Higgins.  Muito obrigado.

O declínio do charque no RS: eu estava errado

O Thales acabou de publicar:

Was it Uruguay or coffee? The causes of the beef jerky industry's decline in southern Brazil (1850 - 1889)
ABSTRACT: What caused the decline of beef jerky production in Brazil? The main sustenance for slaves, beef jerky was the most important industry in southern Brazil. Nevertheless, by 1850, producers were already worried that they could not compete with Uruguayan industry. Traditional interpretations attribute this decline to the differences in productivity between labor markets; indeed, Brazil utilized slave labor,whereas Uruguay had abolished slavery in 1842. Recent research also raises the possibility of a Brazilian "Dutch disease",which resulted from the coffee export boom. We test both hypotheses and argue that Brazilian production's decline was associated with structural changes in demand for low-quality meat. Trade protection policies created disincentives for Brazilian producers to increase productivity and diversify its cattl…

Manual / Humildade científica

Humildade científica
Tal como eu, você não tem nem ideia de como uma fechadura funciona. Portanto, não seja arrogante a ponto de supor que compreendeu o funcionamento do universo. Você poderia gastar um bom tempo lendo os clássicos da epistemologia para entender que não se deve escrever "o trabalho provou" ou "demonstrei" em trabalhos empíricos. Existem boas razões filosóficas para isso e a história da ciência mostra que a arrogância está a um passo do ridículo. Enfim, por enquanto, sem querer entrar em questões mais profundas, o melhor é ser (ou fingir ser) humilde nas suas conclusões. Escreva "o trabalho apresentou evidências em favor da hipótese", ou "as evidências sugerem" ou semelhantes. Por mais acachapantes que sejam as suas evidências, tente ser comedido nas conclusões. Arrogância, cedo demais na carreira, transforma-se em um sinal de imaturidade e desconhecimento das regras do jogo. Manual de sobrevivência na universidade: da graduação …

Manual / Gráficos

Gráficos
Os gráficos cumprem papéis distintos ao longo da pesquisa: no primeiro momento, eles são seus amigos para lhe ajudar a encontrar gremlins. Ou seja, aqueles erros de digitação ou coisas estranhas que costumam invadir os seus dados. Um histograma é o meu predileto. Se você observa picos esquisitos em alguns, vale a pena olhar com cuidado os dados-fonte. Às vezes, valores como 88888888888 ou 999999999 são usados para representar valores em branco ou não disponíveis. Um graficozinho inicial, ao revelar erros de importação, já me salvou de boas horas ou dias de trabalho. Quando você estiver confiante de que seu banco de dados está limpinho, é hora de entrar no processo exploratório de dados. Nessa fase, você busca padrões, relações entre variáveis, diferenças relevantes entre períodos ou qualquer coisa que possa ser importante para o seu problema de pesquisa. Ao longo de sua pesquisa, faça gráficos e os faça em quantidade. Guarde aqueles mais relevantes e que lhe dizem algo. Fina…

Manual / Graduação

Graduação
A vida na graduação Dois extremos: você estudou em colégios privados e, agora, tem todo o tempo da vida para fazer a graduação em uma faculdade pública; ou você é um dos alunos trabalhadores que, depois de se aporrinhar no trabalho, cursa Contabilidade nas Faculdades Reunidas de Unistalda. Se está na primeira categoria, você tem a expectativa de que a universidade será uma sequência de festas, churrascos, porres e sexo ocasional. Você não ficará decepcionado. A qualidade dos eventos varia de acordo com os cursos, mas você se divertirá mais do que nunca na sua vida. Tire os primeiros dois anos de curso para aproveitar, amadurecer e queimar os hormônios e os neurônios. A partir daí, já está na hora de tomar vergonha e pensar no futuro. Afinal, ao se formar, você será um desempregado. Por sua vez, se você é o estudante-trabalhador-que-come-pastel-e-suco-de-dois-reais, a universidade também será o melhor período da sua vida. Você não poderá festear tanto, afinal, faltará energia…

Manual / Google

Google
Tem certeza que você sabe usar o Google? Já vi gente fazendo buscas assim "quero todos os artigos bons sobre o assunto x". Dá dor no cérebro ver alguém fazendo isso. Existem alguns recursos os quais eu duvido que você use e são fundamentais para você encontre aquele texto que o Periódicos Capes não tem. Basta colocar o título entre aspas e um "filetype:pdf", e o Google encontra o texto na página do autor ou de algum congresso. Isso resolve meus problemas uns 80% do tempo e poupa uma ida à biblioteca (se o texto for mesmo útil, recomendo que você obtenha a versão publicada do artigo). Dicas de busca para o Google Frase inteira. Basta colocar o trecho entre aspas para buscar o trecho:
"estrutura social": Busca as páginas com o termo "estrutura social". Busca exata. Impede o Google de tentar adivinhar o que você quer e de corrigir os seus erros de digitação:
"econômia": encontra todas as páginas em que ignorantes, analfabetos e toscos…

Manual / Formatura

Formatura
A festa de formatura existe para satisfazer e quebrar as finanças dos seus pais. A regra geral é que a formatura é tão mais importante quanto menos esperado é o feito. Da mesma forma que o Fernando Alonso não comemora tanto a vitória quanto o Rubinho. Nos últimos anos, há uma tendência a festas cada vez mais elaboradas e de gosto mais questionável. Em um ano, balões coloridos caem do teto, no ano seguinte, um helicóptero solta pétalas de rosa sobre os formandos. No final das contas, o dinheiro é seu - ou da sua família - e você pode gastar nas extravagâncias que quiser. Mas é uma boa ideia não se deixar levar pela competição com outras festas e pela última moda. Qualquer um que faça o discurso em uma formatura, orador ou paraninfo, tem apenas uma obrigação: ser breve. A maior parte da plateia não está lá por você e sim pelos outros (Alguns apenas esperam o jantar e a festa). A maior parte das formaturas ocorre nos dias mais quentes do verão, e um discurso breve é mais memorá…

Manual / Estudo

Estudo
"Quem lê, não estuda", um professor meu dizia. Isso é a pura verdade, ficar só lendo a matéria não resolve nada. Você lê, lê, lê o mesmo parágrafo e a cabeça começa a viajar. Depois de algum tempo, você se autoengana que entendeu a matéria, mas não lembrará de nada em um par de horas. Esse princípio vale para todas as áreas, mas a tentação de só ler é maior naquelas em que dá para estudar deitado, ou seja, as ciências humanas. Não fique só na leitura. Faça exercícios, explique a matéria para você mesmo, elabore resumos. Qualquer coisa é melhor do que só ler os textos da disciplina. Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Frequência

Frequência
A maior parte das universidades brasileiras cobra presença dos alunos de graduação. Isso não acontece nas universidades dos EUA nem da Europa (Portugal, eu não sei. Mas Portugal fica perto, porém não exatamente na Europa). Como professor, eu tenho sentimentos opostos sobre a presença. Claro, incomoda que, nas vésperas da prova, apareça um monte desconhecidos querendo aprender o conteúdo em dois dias. Isso ocorre quando a presença não é cobrada. Por sua vez, é um tanto peculiar que adultos sejam cobrados por estarem onde escolheram estar. Os argumentos para defender a cobrança de presença são estranhos. Quando comecei a dar aulas, um coordenador me disse que eu deveria cobrar presença porque "se um aluno cometer um homicídio, ele pode usar a sua lista de chamada como prova para escapar da cadeia". Ele falava sério. Eu recomendo que você assista à aula. Se você for estudioso, será uma oportunidade de tirar dúvidas e perceber as nuanças do tema apresentado. Se você n…

Manual / Escrita

Escrita
Alguém já disse que o texto fácil de ler foi difícil de escrever. Aqueles que dizem que "adoram escrever", raramente, escrevem bem. Escrever bem é trabalho e, como tal, não é prazeroso. Escrever é difícil porque, quando você coloca as ideias no papel, as incoerências, falhas do argumento e mesmo sua ignorância ficam claras. Escrever um texto com sentido implica em superar essas falhas. Lamento, mas essa é a dor do parto do texto, especialmente, o científico. Sim, existem exceções: pessoas que escrevem muito bem sem esforço. Essas exceções, exceções são, ora bolas. A má notícia é que esse talento é inato. Não adianta nem tentar ser um grande escritor. Ou você nasce com o talento ou não. A boa notícia: ser um escritor bem bom é quase fácil. Basta você seguir algumas regras simples e seu texto vai ser bom o suficiente para que todos gostem. Um texto bom convence as pessoas. O mundo é um lugar muito interessante e existem muitas coisas melhores no mundo do que ler um tex…

Manual / Epígrafe

Epígrafes
A função daquela frase entre aspas é mostrar para o leitor quem você é sem que ele tenha o trabalho de ler o texto. Capriche.A melhor fonte de epígrafes está no seu próprio caderno de campo. Nas suas leituras, se você fez direito, deve haver uma frase muito boa que se encaixa bem no espírito do trabalho.Eu já vi de tudo como epígrafe: trechos da bíblia, poesia e letras de música. Mas nada de pegar aquelas frases compartilhadas no Facebook com máximas atribuídas ao Gandhi, Chaplin ou ao Einstein. Por via de regra, eles não foram os culpados por aquelas frases com milhares de "Curtir". Livros de citações também devem ser evitados porque as boas frases já foram usadas.Resumindo, a epígrafe é o chapéu da tese. Bem-escolhida, ela marca o seu trabalho; mal-escolhida, a epígrafe só mostra que você é um babaca.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

Manual / Email

E-mail
Naum ixcreva com ortografia da internet. Parece q vc eh um idiota. Huahuahahau;Nunca mande aqueles e-mails com pedidos para crianças doentes, dia do amigo, correntes ou qualquer outra coisa com arquivos PPT para os pesquisadores.Se for mandar mensagem para a sua lista de amigos, coloque os endereços no campo "Com cópia oculta" ou "Cco" (Bcc, se o seu programa de e-mail é em inglês). Isso impede que algum dos seus destinatários, um mais mal-educado, use a lista de e-mail que você mandou para distribuir lixo aos seus amigos.Na comunicação na academia, não use endereços eletrônicos engraçadinhos ou que revelam seus desvios de personalidade. Ex.: pitbull82@hotmail; beto_flamengista@yahoo.com.br; 30cm20anosSM@uol.com.br.Não use a letra maiúscula. Nunca. Quando você trava o capslock parece que você está GRITANDO. Não use o capslock, nem quando você quiser gritar no e-mail. Afinal, berrar com os outros é feio (veja a última recomendação).Cuidado com o tamanho dos an…

Manual / Defesas

DEFESAS Enfim, a hora se aproxima. Você já está prestes a entregar a versão para a banca, não aguenta mais ver a cara do orientador (e vice-versa). Chegou a hora. Fique tranquilo. Se o seu orientador aceitou que você vá para a banca existem duas possibilidades: a) Seu trabalho é no mínimo razoavelmente bom e, apesar de sofrer, você será aprovado no final das contas. Uma coisa que qualquer orientador morre de medo é de passar vergonha na frente dos colegas. b) Seu orientador é doido ou um mau-caráter (ou ambos) e quer levar você para os leões como jantar. Se isso acontecer, o que é muito improvável, você não tem muito que fazer. De qualquer modo, você vai ter de fazer o seu melhor na apresentação. A sua defesa é tão importante quanto a sua primeira vez. E tão apavorante quanto. Outra semelhança: por mais que você tenha praticado, as outras partes são mais experientes do que você. A principal diferença – eu imagino – é que na tese ninguém estará bêbado. Procedimentos para uma defes…

Manual / DCEs e centros acadêmicos

DCEs e centros acadêmicos
Frequente o DCE se você tiver dois interesses: maconha e sexo com pessoas de hábitos de higiene pouco rigorosos. É natural que isso atraia a sua atenção durante alguma fase da sua vida (um final de semana, de preferência), mas o DCE traz riscos para a saúde. Você vai ver a barba crescer e você vai começar a achar que as camisetas do Che Guevara lhe caem bem. Se você ficar muito tempo no CA, você se transformará no homo oligo-sapiens passeatotum e em tudo aquilo que você, em 15 anos, repudiará. Existe gente que pensa que o DCE é o primeiro passo em uma carreira bem-sucedida na política partidária. De fato, vários políticos bem-sucedidos passaram pelas reuniões esfumaçadas do DCE. Mas correlação não significa causalidade e muitos políticos fracassados, que hoje não ganham nem eleição de síndico, também passaram pelos DCEs. Politicamente, os DCEs ocupam o espectro político entre a extrema esquerda e a esquerda-que-perdeu-o-senso-de-realidade. Os que se dizem ind…

Contra o Ensino de Economia

O ótimo Bernardo Guimarães escreveu um post em defesa do ensino de Economia na escola. Se entendi bem, a vantagem seria - além de fornecer a base para o aprendizado posterior-  que o curso serviria de contraponto às besteiras ensinadas em História e Geografia.
Eu sou contra a proposta por alguns motivos:
Prático: qualquer tentativa de ensinar Economia terá efeitos opostos.  Dada a má qualidade das escolas do Brasil de hoje, as chances do professor só falar bobagem e o curso se transformar em pregação são imensas. Seria ótimo se vários bernardoguimarães ensinassem  Economia para os adolescentes, mas a realidade é que os professores disponíveis estariam bem aquém disso. (Sem contar que  muita gente com diploma de economista na parede não entende vantagens comparativas. E algo me diz que exatamente esses iriam para o ensino médio). Empírico: mesmo nos EUA de hoje, onde - como lembra o Bernardo- as crianças aprendem Economia na escola, o discurso protecionista de dois candidatos presidenc…

Manual / Dados

Dados
Nos cursos universitários, você tem a oportunidade de aprender as técnicas apropriadas de análise estatística. Mas, às vezes, os professores se esquecem de transmitir alguns dos cuidados básicos. Faça gráficos Antes de começar a trabalhar, faça um gráfico dos seus dados. O primeiro motivo é que as coisas mais estranhas acontecem: erros de codificação, problemas com vírgulas, intervenção divina. Se houver valores anormais, eles aparecerão nos seus dados. Um bom jeito é fazer um histograma rápido para entender a distribuição das variáveis. O outro motivo para fazer o gráfico é entender a relação entre as suas variáveis de interesse. O quarteto de Anscombe mostra quatro conjuntos de dados que têm média, variância e correlação muito próximas mesmo. Contudo, como é fácil ver, a relação entre as variáveis é completamente distinta. Faça então uns plots com as variáveis relevantes para o seu estudo. Dicas gerais Faça um arquivo de controle de seus dados, com a fonte precisa dos dados e …

Quanto custou o Baile da Ilha Fiscal?

A lendária @verineas fez a pergunta no Twitter e eu respondo com prazer. O jeito mais tranquilo, sem se preocupar com as maluquices da inflação brasileira, é transformar para libra, deflacionar e depois voltar para R$. Vamos lá:
O baile custou 100 contos de réis (a Vera me informou). A taxa de câmbio de 1889, segundo o Ipeadata, era de 26,4 pence por mil-réis. Então 100 contos =2.640 mil pence. Aí tem uma armadilha: até 1971, o sistema monetário inglês não era decimal e havia 240 pences por libra. Logo, 2.640 mil pence = 11.000 libras (a preços de 1889)Para deflacionar a libra, basta ir no site Measuring Worth: essas 11.000 libras corrigidas pela inflação resultam em 1 milhão de libras de 2015. 1 milhão de libras em 2015= R$4,3 milhão de reais de hoje. Se foram 4500 convidados, dá um custo de quase R$1000 por cabeça. Faz sentido. Ou, em valores relevantes: O Baile da Ilha fiscal custou cerca de 1.075.000 churros, ou seja, 1 churros para cada habitante de Teresina e ainda sobram 307.44…

Manual / Congressos

Congressos
Os congressos são muito importantes, especialmente no começo de sua carreira. Eles são a oportunidade de você conhecer novas pessoas, ter uma panorâmica da comunidade e – o mais importante –perceber se quer fazer parte do meio acadêmico. Se aquele monte de gente parecida com você, discutindo os mesmos assuntos por três dias lhe agradar, é sinal que você está na carreira certa. Alertas: Tem surgido muitos congressos picaretas, com nomes bacanas (Interplanetary Conference on Technology, Media and Science) que são meros caça-níqueis e sem valor acadêmico. Orlando, Acapulco e Las Vegas são destinos comuns. Fuja disso, eles só querem o seu dinheiro. Se você quiser ir para esses lugares, use as suas férias.É muito feio mandar o paper e nem ter planos de comparecer. Sua ausência é, por vezes, perdoável porque as fontes de financiamento tendem a dar a resposta muito em cima da hora. Caso você não possa mesmo ir, faça um favor aos organizadores, avise-os por e-mail assim que souber. …