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Los Angeles: uma avaliação generosa

Los Angeles é feia. Muitas áreas tem aquele jeitão de cidade de renda média: fios elétricos à vista, poucas árvores e uma repetitiva falta de padrão. Totalmente voltada para os carros, suas quadras imensas, com  ruas principais largas demais, afastam os pedestres. Em cada área comercial, a mesma repetição de cartazes mal feitos e que misturam as grandes marcas conhecidas, com propagandas de lojas que ninguém gostaria de ter como vizinhas. Sem contar os imensos cartazes de propaganda do último filme ou show do Netflix. Tudo feio mesmo.


Nem as atrações são lá grande coisa. Hollywood Boulevard, Chinatown e Venice são como zoológicos em que turistas vão em busca de estrelas ou do exótico e só os encontram em versões fajuta, cansada e fracassada. Até em Beverly Hills, é mais provável encontrar outros ônibus de turismo do que uma celebridade. (A propósito, não vi nenhuma). A cidade tem lá um centro, mas é melhor que não tivesse. É o inferno para dirigir, tem uns três prédios interessantes, mas os habitantes só vão para lá a contragosto. Apesar de ser tão antiga quanto San Francisco, a cidade não faz qualquer esforço de guardar seu passado: o estúdio principal do Chaplin hoje é ocupado por uma padaria sem qualquer referência ao fato. Ou seja, não há muito o que ver e imagino que os turistas saiam de lá não muito satisfeitos.

Mas a cidade é bem mais do que isso e muito melhor do que o primeiro contato faz crer. A Grande Los Angeles tem uma área de 87 mil km2,o que equivalente a dois estados do Rio de Janeiro. Vivendo lá é possível descobrir a diversidade de suas vizinhanças. Só para ficar nas étnicas: Artesia, a área dos imigrantes indianos, tem supermercados inteiros voltados para a comunidade. Koreatown é ainda maior, com shopping centers e toda cultura local. Existem até uma área que concentra os imigrantes de Belize. A diversidade é o principal atrativo de Los Angeles.

Aldous Huxley disse que a Los Angeles era composta por 19 subúrbios em busca de uma metrópole (Não, a frase não é da Dorothy Parker). A frase está errada porque essas vizinhanças estão satisfeitas em si mesmas. As dimensões em área e população são tão descomunais que as tornam autossuficientes. Quase tudo pode ser feito na sua própria vizinhança. Mais ainda, concordo com o Tyler Cowen: é uma ótima cidade para caminhar. Não para flanar. O jeito certo é ir de carro para alguma dessas vizinhanças e lá caminhar.

E, acima de tudo, Los Angeles é uma cidade que funciona. Sim, às vezes os engarrafamentos são infernais, mas as freeways ligam as vizinhanças de um jeito relativamente eficaz. A prova disso é que a proximidade com uma das grandes vias é um atrativo locacional. A cidade prova que não existe um só jeito de uma cidade funcionar. Nem todas as cidades serão compactas, densas e baseadas em transporte público. Jane Jacobs é bacana, mas não é a solução geral.

A cidade me mostrou que economias externas não precisam de uma densidade extrema. E ela- tal como qualquer cidade que funciona- está mudando. A mesma Venice dos turistas e dos doidões cansados, virou um micro Silicon Valley, com direito a Google (ocupando o hangar em que o Spruce Goose foi construído), e uma penca de empresas startups que deram certo, como a Snapchat.

Uma ironia: o sprawl de Los Angeles é o resultado do transporte público. Foi o sistema de bondes que fez com que as pessoas fizessem o seu sonho. Morassem longe, em casas grandes, mas com bom acesso  ao resto da cidade. (O carro e as freeways só chegaram depois. O documentário Uma cilada para Roger Rabbit explica a conspiração que teria acabado o sistema de bondes (apesar da versão ser questionada). Ainda hoje, contudo, a cidade tem o terceiro maior sistema de transporte público dos EUA em número de passageiros.

Sobre a história de Los Angeles, recomendo muito esse filme de 1972: Reyner Banham Loves Los Angeles:

Para uma visão contemporânea e também apaixonada da cidade, sugiro  City of Gold, sobre Jonathan Gold, o sensacional crítico gastronômico de Los Angeles.

Comentários

Anaximandros disse…
Grande Léo, lendo seu relato fiquei imaginando como seriam os comentários sobre as demais cidades que já contaram com a tua presença por mais de 6 meses no mínimo. Fica a dica e a torcida, um conjunto de crônicas generosas sobre as cidades que o Monastério viveu por algum tempo com desenhos de artista anonimo de copa....grande abraço e obrigado pelo retrato, s.
Obrigado!! Eu queria escrever mesmo era uma defesa: "Brasilia, a cidade não planejada."

Abraços,
leo.
muito bom. Tambem acho que as proximas (e passadas) cidades merecem um post tambem!
Germano Neto disse…
Legal o artigo. Morei lá por dois anos, e demorei para começar a enxergar suas belezas e sentir suas externalidades positivas.
De qualquer forma, aproveito para recomendar aqui o City of Quartz, e o Planning Los Angeles. Dois livros que falam muito sobre a história da cidade e o seu planejamento urbano.

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