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Mostrando postagens de Maio, 2015

Por que o raio gourmetizador atacou? Culpa da bolha imobiliária

Para entender a hipótese, preciso voltar a uma das sacadas mais bacanas da Economia: o Teorema Achian-Allen, ou paradoxo das maças. Eu o expliquei assim em um  capítulo de livro (p.53; pdf gratuito grande):
Custos de transporte podem gerar efeitos curiosos. O teorema de Alchian-Allen (1967) ilumina um desses fenômenos. Esses autores buscaram uma resposta a um mistério econômico: por que em uma região produtora de maçãs são encontradas apenas as de pior qualidade, enquanto as melhores são exportadas? O motivo é simples: como o custo de transporte é o mesmo para maçãs boas ou ruins, o frete torna as maçãs boas mais atrativas. Um exemplo numérico com o caso dos vinhos torna tudo mais claro. Supondo-se que existem dois tipos de vinho: o Château Caro custa $ 50,00 e o Château Vagabundo, $ 5,00. É razoável supor que os custos de transporte são os mesmos para qualquer tipo de vinho; por exemplo, $ 5,00. No local de produção, a relação de preços vinho bom/vinho ruim é de 10 para 1. No mercad…

Como a maldição do petróleo ataca?

Em países com instituições ruins, o boom do petróleo aumenta os incentivos para cursar direito, administração e humanas:

Christian Ebeke, Luc Désiré Omgba, Rachid Laajaj, Oil, governance and the (mis)allocation of talent in developing countries, Journal of Development Economics, Volume 114, May 2015, Pages 126-141, ISSN 0304-3878, http://dx.doi.org/10.1016/j.jdeveco.2014.12.004.  Abstract: This paper sheds light on the relationship between oil rent and the allocation of talent, toward rent-seeking versus more productive activities, conditional on the quality of institutions. Using a sample of 69 developing countries, we demonstrate that oil resources orient university students toward specializations that provide better future access to rents when institutions are weak. The results are robust to various specifications, datasets on governance quality and estimation methods. Oil affects the demand for each profession through a technological effect, indicating complementarity between oil…

Corrupção= monopólio + poder discricionário - accountability

Já dizia o ótimo Klitgaard na década de 1990. É uma equação simplista, mas muito verdadeira. Ah, se certas organizações poderosas levassem isso a sério...
Sugiro fortemente Tropical Gangsters: One Man's Experience With Development And Decadence In Deepest Africa , sobre o tempo do Klitgaard como consultor do Banco Mundial e surfista na África.

A política regional custa duas vezes o Programa Bolsa Família

Aqui.

POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO BRASIL: uma estimativa de custos Luiz Ricardo Mattos Teixeira Cavalcante

O objetivo deste trabalho é estimar os custos fiscais das políticas de desenvolvimento regional adotadas no país. Procura-se, inicialmente, delimitar o conceito de política regional para fundamentar a proposição de um método de apuração dos custos associados aos instrumentos empregados no Brasil. Em seguida, calculam-se, para o período entre 2009 e 2013, os custos fiscais anuais das políticas de desenvolvimento regional. Estima-se que esses custos alcançaram, em 2013, R$ 53,8 bilhões. Esse valor, que corresponde a 1,11% do produto interno bruto (PIB) e a cerca de duas vezes o custo do Programa Bolsa Família naquele mesmo ano, resulta da soma de incentivos fiscais de R$ 31,7 bilhões, de incentivos financeiros de R$ 14,2 bilhões e de investimentos diretos do Governo Federal (mais do que proporcionais à participação das regiões menos desenvolvidas no PIB) de R$ 8,0 bilh…

Entrevista com a Claudia Goldin

Quem gostou (ou detestou)  o estudo da FEE sobre disparidade de gêneros deveria ler a entrevista da grande historiadora econômica Claudia Goldin. Na verdade, todo mundo deveria ler.
Não só é uma bela panorâmica do mercado de trabalho norte-americano no século XX (que, em larga medida, o Brasil repete (com defasagem))*, como também, uma lição para os pesquisadores:
"The world is filled with mysteries, and somehow I have this incredibly optimistic view that I can figure them out" *Como vocês podem ver, tento introduzir múltiplos parênteses na língua portuguesa.

Chamada da RBEE: número especial sobre Economia Regional

Prazo: 31 de outubro de 2015. Aí vai:   O corpo editorial da Revista Brasileira de Economia de Empresas (RBEE) está organizando uma edição especial desse periódico sobre Economia Regional, a ser publicada no primeiro semestre de 2016. Convidamos todos os interessados a submeterem artigos para essa Edição Especial da RBEE.
A RBEE é uma publicação do Mestrado e Doutorado em Economia da Universidade Católica de Brasília. Atualmente, a RBEE está classificada como B3 no sistema QUALIS-CAPES da área de Economia. Além disso, ela está indexada em algumas das principais bases de dados internacionais, incluindo EBSCO Publishing, EconLit e ProQuest.
As submissões, com identificação completa, informação para contato e afiliação institucional dos autores, devem ser enviadas para o E-mail rbee.regional@gmail.com, com o assunto “Edição Especial RBEE” e especificação da área de submissão no corpo do e-mail. A data limite para submissões é 31 de outubro de 2015. Ao realizar uma submissão, os autores de…

Ciência e fraude: um caso recente

Parecia um resultado sensacional. O experimento mostrava que bastaria uma conversa para trocar a posição das pessoas sobre assuntos controversos. O papo com um entrevistador abertamente gay mudaria a opinião do entrevistado e o efeito persistiria no longo prazo.
O problema é que o estudo, tudo leva a crer, é uma fraude. Outros pesquisadores mostraram que o autor inventou os dados. Ou melhor, ele pegou outra base de dados, colocou ruído e inventou a narrativa. O texto que revela a fraude é quase um conto policial. Vale muito a leitura. (Além de vir como código em R!)
 Meus pitacos:

Isso é a Ciência no seu pior e também no seu melhor. De um lado, mostra que a busca pelo sucesso na profissão pode levar gente inteligente a cometer crimes. De outro, mostra o funcionamento dos filtros da ciência. A fraude foi identificada e os autor será - certamente - punido. O evento revela um dos meus medos com os métodos quantitativos novos (randomized control trials, regressões com descontinuidade etc.…

Nova edição do Manual: o que incluir?

Pensei em fazer um nova edição do Manual de sobrevivência na universidade para lançar em 2016. Alguns verbetes envelheceram rápido em apenas dois anos, eu já escrevi alguns mais e novos assuntos apareceram.
Eu pensei em focar a nova edição na análise de dados, mas não sei se combina ou deveria ser outro livro.
Meus 7.722.282 de leitores, sugestões de verbetes?

Web scraping para seres humanos

Mesmo sem saber nada sobre o assunto, com umas oito horas de trabalho,  eu fiz um código no R que: 1) leu milhares de páginas na internet; 2) selecionou as informações que eu precisava; 3) pôs tudo em formato de tabela.
Acreditem: você não precisa ter menos de 25 anos para aprender isso, nem ser um gênio da computação. É moleza, desde que você tenha as ferramentas certas. As duas que eu usei foram:
- rvest: todas as funções necessárias em um só pacote; - selectorgagdet: ele te mostra onde pescar a informação que você deseja nos arquivos html. Esse post e o próprio demo do rvest explicam o básico. Em breve, eu postarei aqui alguns resultados do processo. (Ainda falta gastar umas 20 horas limpando os dados...)

Debates imaginários (que eu sempre ganho)

Amigo imaginário: "Dinamarca tem política industrial, logo o Brasil tem que ter também." Eu: "Sim, mas e o Myanmar também deve ter?"  Amigo imaginário: "Não, porque a qualidade do governo lá é muito ruim. Assim é pouco provável que vão conseguir escolher os setores estratégicos ou os 'winners' decentemente. É provável que possíveis benefícios terminem sendo dissipados pela corrupção ou outras distorções." Eu: "Ah, você percebeu que o recomendável de política industrial depende da qualidade do governo? Com instituições ruins, o melhor é não fazer política industrial e sim colocar as fichas coisas básicas tipo: saneamento, infraestrutura e educação." Amigo imaginário: "Percebi! Você me convenceu! Como eu aprendo conversando com o você!" Eu: "Obrigado!"
FIM
 Envie este texto do grande historiador econômico Douglas Irwin para aquele seu amigo que acha que o Chang é a grande referência em política industrial. Vejam este t…

"Competição, Instituições e o Declínio do Império Português na Ásia" por João Gabriel Ayello Leite

Por que diabos Portugal perdeu seu Império na Ásia?
Aí vai o resumo da dissertação, orientada pelo Bernardo Mueller, da qual eu fui banca nesta segunda-feira na UnB:

"Competição, Instituições e o Declínio do Império Português na Ásia" João Gabriel Ayello Leite Os portugueses foram os primeiros europeus a estabelecer uma presença colonial na Ásia, no começo da Idade Moderna, e os últimos a se retirarem do continente. Apesar de sua presença longeva, o auge do poder português na Ásia ocorreu no século XVI. A rapidez e a assertividade com que os portugueses estabeleceram o monopólio sobre a rota marítima pelo Cabo da Boa Esperança e o domínio sobre as rotas comerciais asiáticas mais lucrativas de seu tempo talvez só seja rivalizada pela forma com que foram deslocados pelos seus competidores europeus. As teses tradicionais que procuram explicar o declínio da presença portuguesa na Ásia enfatizam fatores diversos como recursos econômicos, população, cultura e o contexto asiático.…

HistData: o pacote mais sensacional possível

Michael Friendly (o nome diz tudo) fez o favor de juntar um monte de bases históricas muito inusitadas em um só pacote para o R. Ele  traz desde os dados do Cavendish (1798) para a calcular a densidade da Terra, as medidas de altura do Galton (o da falácia), o mapa da cólera do John Snow, um experimento maluco do Jevons e mais um monte de outras bases.

Econometria e Feminismo: uma discussão sem motivo no RS

Está causando confusão no Rio Grande do Sul um estudo de duas pesquisadoras e um pesquisador da FEE que aplica Oaxaca-Blinder nas PNAD (pdf). O resultado é o seguinte:

Existe uma diferença de 21% de salários entre homens e mulheres no RS;Um terço dessa diferença persiste mesmo controlando por um monte de características observáveis dos trabalhadores (observáveis= variáveis que estão no banco de dados). Ou seja, provavelmente essa disparidade é resultado de discriminação por parte do empregador.
Esse resultado soa bastante favorável às causas feministas. Afinal, o estudo mostra que de fato há discriminação contra as mulheres no mercado de trabalho.
Bom, qual é a fonte da briga? Os controles. Uma das variáveis usadas nas regressões é o tempo dedicado ao trabalho doméstico. Eles gastam 4,6 horas por semana e elas, 15,7. É óbvio que isso já é reflexo dos papéis de gênero na sociedade. (Mais uma vez, fosse eu militante feminista, ficaria feliz que trouxessem esse dado escandaloso à luz. Du…

Cuidado com os instrumentos!

Variáveis instrumentais sofrem de tragédia dos comuns;Chuva nem sempre é o instrumento tão legal quanto se pensa;Como evitar a armadilha dos instrumentos fajutos;Para compensar as leituras mal-humoradas: o meme Daron Acemoglu facts. (Não li os textos (ainda). Postei apenas porque as abas estão já abertas por mais tempo do que deveriam estar e eu me sinto culpado pela procrastinação)

No Reversal of Fortune in the Long Run: geography and spatial persistence of prosperity in Colombia 1500-2005

Smith sobre colonização

No meu esforço desesperado de auto-promoção, reproduzo aqui um  trecho -não revisto- sobre Adam Smith, tirado do artigo que Philipp Ehrl e eu estamos trabalhando. Sério, vejam só as sacadas do autor escocês, em especial a nota de rodapé 4.

Espero que ainda em maio o texto esteja disponível como TD Ipea. (Viram? Consegui falar de Smith sem tratar da treta com certa comentarista esportiva-econômica).

Aí vai:
"
Comocostuma acontecer,énaobra deAdam Smith ondeseencontraaorigem deideias relevantespara aEconomia.Nocapítulo“On Colonies” de“ARiqueza das Nações”(SMITH,1776),investiga ahistória dacolonização, suafunçãoeconômica eaté acenacomumatipologia preliminar baseada naHistória Antiga. Smithescreveuocapítulodurante aRevoluçãoAmericana(1765-1783)e,portanto, suapreocupação sevoltaparaexaminar opapeldestas easconsequênciaseconômicasdos “presentdisturbances”(SMITH,1776, p. 186)paraaeconomiainglesa[1].Aofazerobalanço dosbenefíciosdascolôniaspara aEuropa,eleapontaoaumentodadiversidadedebens e…

Anúncios diversos

Chamada para o 62nd  North American Meetings of the Regional Science Association International em Portland;Site novo da Associação Brasileira de Estudos Regionais e Urbanos. Em breve, a chamada para o encontro anual estará no ar;Edital aberto para o mestrado e doutorado em Economia na UCB (nota 5 na Capes). Como vocês sabem, eu sou professor por lá.

Feminismo empiricista

Brasília à noite

Foto tirada ontem pela astronauta Samatha Cristoforetti que está na ISS.
Vejam que a foto reforça o meu ponto de que a cidade não é tão planejada assim. O desenho original está cada vez menos evidente.

O efeito McGreevey

Não é só no Brasil que esse tipo de coisa acontece. Apresento-lhes "El Efecto McGreevy":
Teorema: Si un académico gringo asegura que x es verdad sobre Colombia, los estudiosos colombianos rotundamente afirman que x no es cierto.Prueba: An Economic History of Colombia 1845-1930.
Corolario: Se acabaron los gringos que escriben sobre la historia económica de Colombia.  (Glossário: "dar papaya" = "deu mole" ou "deu bobeira")