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Econometria e Feminismo: uma discussão sem motivo no RS

Está causando confusão no Rio Grande do Sul um estudo de duas pesquisadoras e um pesquisador da FEE que aplica Oaxaca-Blinder nas PNAD (pdf). O resultado é o seguinte:

  • Existe uma diferença de 21% de salários entre homens e mulheres no RS;
  • Um terço dessa diferença persiste mesmo controlando por um monte de características observáveis dos trabalhadores (observáveis= variáveis que estão no banco de dados). Ou seja, provavelmente essa disparidade é resultado de discriminação por parte do empregador.

Esse resultado soa bastante favorável às causas feministas. Afinal, o estudo mostra que de fato há discriminação contra as mulheres no mercado de trabalho.
Bom, qual é a fonte da briga? Os controles. Uma das variáveis usadas nas regressões é o tempo dedicado ao trabalho doméstico. Eles gastam 4,6 horas por semana e elas, 15,7. É óbvio que isso já é reflexo dos papéis de gênero na sociedade. (Mais uma vez, fosse eu militante feminista, ficaria feliz que trouxessem esse dado escandaloso à luz. Duvido que a diferença, sei lá, na Finlândia seja tão grande). *
Só por isso acusaram as autoras e o autores de machistas por supostamente "naturalizarem as diferenças entre os gêneros". Ora, quando um estudo controla para certas características, não quer dizer que os pesquisadores concordam, apoiam ou as consideram naturais. O objetivo é decompor a disparidade naquilo que os dados explicam (que é diferente de concordar, apoiar ou naturalizar ) daquilo que deve ser discriminação pura e simples no mercado de trabalho.
Na verdade, o estudo poderia até servir de base para uma agenda muito mais interessante do que brigar com os dados ou com a pesquisa. Com ele pode-se dizer, por exemplo, que as disparidades salariais entre homens e mulheres seriam menores se as atividades domésticas fossem mais equilibradas entre os gêneros.
Em suma: leiam a Claudia Goldin, a grande historiadora econômica da desigualdade de gêneros, antes de arrumar brigas sem razão.
* Decidi não linkar os críticos do estudo.

Comentários

Anônimo disse…
A fonte da briga foi a existência de erros conceituais na análise que confundiram todo mundo. Se os autores fizessem a análise que tu fizestes aqui, creio que evitariam a polêmica, inclusive seriam elogiados pelos dados levantados.

Mas em nenhum momento definem que vão isolar o efeito discriminação, e sim o "efeito de gênero", e não se dão ao trabalho de falar sobre as várias características observáveis que fazem parte do efeito total de gênero, como trabalho doméstico.

Quando um trabalho não deixa claro o que está fazendo, define conceitos de forma errada e faz uma análise que omite pontos importantes, ele está ruim. E são erros mais graves ainda em um trabalho voltado ao público geral e de diversas áreas do conhecimento, que vai ter dificuldades em ler e interpretar para além do que está dito ali.
Grato pelo comentário.
Eu não vi erros conceituais, nem falta de transparência dos métodos. Só vi os autores seguirem o padrão dos trabalhos da área. (Basta comparar com os demais)

De fato, comunicar com o público leigo é difícil. Mas as pessoas - sei lá o porquê - interpretaram o que não estava escrito.
Anônimo disse…
Chamar a discriminação de "efeito de gênero" eu nunca vi na literatura utilizando Oaxaca, ao menos não sem definir claramente que efeito é esse. A palavra discriminação, que é o que está sendo calculado ali, sequer aparece no relatório. Independente dos termos, não há nenhuma preocupação em explicitar esses conceitos. Numa leitura direta, a análise infere que o efeito de gênero é 7% e o resto é explicado por questões que não são de gênero (como trabalho doméstico e etc).

A tua interpretação, correta, vem do fato de que tu conhece a literatura e o método; sem essa noção prévia, apenas pelo que os autores dizem é impossível um leitor inferir isso.
Anônimo disse…
Caro anônimo,
Basta ler a literatura de discriminação que foi iniciada pelo Gary Becker: A discriminação salarial implica que os trabalhadores discriminados recebem salários que são menores do que os não discriminados em função de características que não afetariam a produtividade do mesmo como, por exemplo, a variável categórica "gênero do indivíduo" (gender effect).

Quando se falou "efeito gênero", os autores se referiam ao efeito desta variável apenas.

Se a dúvida era em relação ao um termo, possivelmente ambíguo, usado em uma notícia, bastaria pedir aos autores um esclarecimento pontual e não acusá-los de má fé, machismo e etc em público. Nada justifica o chilique.
O termo "discriminação" foi utilizado pelos autores nas páginas 10 e 11 do relatório.
Anônimo disse…
Perdão, quis dizer que o termo "discriminação" não aparece no informe nenhuma vez, apenas no relatório - nesse, a definição do que se calcula está correta e bastante semelhante à definição usual da literatura.
Fernando B S disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando B S disse…
Antes de criticar precisamos ter um pouco de cautela. Vejam um estudo sobre o mesmo tema do Departamento de Labor dos EUA aqui: http://consad.com/index.php?page=an-analysis-of-reasons-for-the-disparity-in-wages-between-men-and-women

"Economic research has identified numerous factors that contribute to the observed difference between wages paid to women and wages paid to men, commonly called the gender wage gap."

A decomposição de O-B é utilizada para medir "gender wage gap". O artigo seminal é este: Oaxaca, R. (1973, October) Male-female wage differentials in urban labor markets. International Economic Review, 14(3):693-708.

Os autores utilizaram a base adequada para estudos deste tipo no Brasil (PNAD) e utilizaram a metodologia mais usada para este caso. Cabem questionamentos (para fortalecer o bom trabalho e não para acusar) sobre os procedimentos de seleção (inicial e final) das variáveis (e diagnósticos e testes de validação das hipóteses), mas notem que são as mesmas que foram utilizadas no estudo acima, isto é, foi um excelente ponto de partida.

Como escreveu um colega, se há dúvida é necessário fazer questionamentos antes de acusações impensadas e muito sérias.

Ciência deve ser usada com neutralidade, sem ideologia ou culto a autores.

"É preciso questionar e aderir a um conjunto simples de regras: testar ideias, experimentando e observando, desenvolver as ideias que passam pelo teste, ajeitar aquelas que não passam, seguir evidências onde quer que nos levem e questionar tudo." (Neil deGrasse Tyson).
Anônimo disse…
Acabei de ler o tal relatório e o texto no site da FEE.

Nenhum problema com a utilização do método, mas fazem uma confusão monumental:
"A diferença de rendimentos que se deve às características distintas observáveis entre os
indivíduos não pode ser atribuída a um possível preconceito que o empregador tenha em relação a
uma determinada característica individual."
Ou seja, ou eles não entendem a diferença entre gênero e sexo ou, acham que Deus fez homens e mulheres diferentes logo as diferenças são (em grande parte) "naturais".

E a FEE aparelhada como está publica isso como documento oficial.
Em nenhuma parte do relatório eu vi referência ao fato das diferenças observáveis serem "naturais" ou "criadas por deus".

O controla pelos observáveis (ie. variáveis no banco de dados) permite que se separe na desigualdade o que é discriminação POR PARTE DO EMPREGADOR e o restante (que tb é influenciada pela desigualdade entre gêneros causada pelo machismo, entre outras coisas.)
Jorge Browne disse…
Pois é Monastério, mas os autores negam que a diferença salarial é explicada pelo gênero ao atribuírem as diferenças às variáveis observadas, como se elas não fossem justamente resultado das relações de gênero no mercado de trabalho.

Uma análise bem feita proporia justamente o contrário, que dos 20% desta diferença salarial, 13% vem do gênero.

JBrowne
(o anônimo das 09:51 era eu)
Jorge Browne disse…
Só para acrescentar, a chamada do estudo é “FEE analisa a renda do trabalhador gaúcho”. Mas não foi "a FEE", foram dois assessores da Presidência (fizeram isso também em outros temas polêmicos, daí o aparelhamento).

Se tivessem publicado como Pessoa Física e não Jurídica nada disso estaria ocorrendo...
Caro Jorge,
Eu ainda não li no texto que os autores "negam que a diferença...". Enfim, eu ainda mantenho a posição original de que houve uma má interpretação dos resultados. (Claro, pensando ex-post, talvez fosse melhor explicitar algumas coisas para a população não especializada).
Valeu.
Leo

(Eu não entro na questão institucional de como divulgar, pq cada órgão tem a sua política de autoria. )
Anônimo disse…
Prezados Leonardo Monastério e Jorge Browne,

Em primeiro lugar, o texto é explicito ao comentar que as características observáveis não são consequência do preconceito do empregador, e não entra na questão de ser preconceito da sociedade, algo totalmente fora do escopo do trabalho. Assim, o estudo buscou analisar se as características observáveis eram responsáveis por parte do diferencial de renda, e encontro que em torno de 13% deve-se a elas.

Isto fica bem claro na passagem que Jorge Browne citou
""A diferença de rendimentos que se deve às características distintas observáveis entre os
indivíduos não pode ser atribuída a um possível preconceito que o empregador tenha em relação a
uma determinada característica individual." A parte DO EMPREGADOR é crucial, pois em o estudo analisa somente a possível discriminação do EMPREGADOR e não da sociedade.
Cansa ficar repetindo pra quem não quer entender.

Em segundo lugar, todos na FEE possuem a liberdade de lançar trabalhos como pesquisadores da FEE, sem censura nenhuma, na atual gestão, desde que o presidente dê o aval. Toda a pesquisa feita por pesquisadores da FEE, dentro da FEE, é DA FEE, com pesquisadores responsáveis por ela. Só porque ela não se conforma com as idéias da esquerda (se as feministas fossem espertas, elas usariam essa pesquisa a favor delas), acusam de absurdos que emanam da plena ignorância sobre o funcionamento da instituição.
Ao contrário das gestões anteriores, onde o PT fazia censura prévia, e mudava as palavras utilizadas, assim como era feito na ditadura, para sempre conformar aos interesses do PT.

A verdadeira discussão atual é que a atual gestão é não-ideológica cientificamente e apartidária, e os petistas (90%) estão com medo da instituição deixar de ser um braço ideológico esquerdista, vide os novos estudos. Não é uma discussão esquerda e direita, e sim liberdade cientifica ou não.

Outro ponto importante é que a atual gestão permite todos os estudos e assim a pluralidade, algo INEXISTENTE nos anos anteriores. Não houve pluralidade anteriormente, ficando claro isso na própria prova do concurso da FEE feita em 2014, um absurdo em termos de conteúdo ideológico e heterodoxo.

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