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Manual / Escrita

Escrita


Alguém já disse que o texto fácil de ler foi difícil de escrever. Aqueles que dizem que "adoram escrever", raramente, escrevem bem. Escrever bem é trabalho e, como tal, não é prazeroso. Escrever é difícil porque, quando você coloca as ideias no papel, as incoerências, falhas do argumento e mesmo sua ignorância ficam claras. Escrever um texto com sentido implica em superar essas falhas. Lamento, mas essa é a dor do parto do texto, especialmente, o científico.
Sim, existem exceções: pessoas que escrevem muito bem sem esforço. Essas exceções, exceções são, ora bolas. A má notícia é que esse talento é inato. Não adianta nem tentar ser um grande escritor. Ou você nasce com o talento ou não. A boa notícia: ser um escritor bem bom é quase fácil. Basta você seguir algumas regras simples e seu texto vai ser bom o suficiente para que todos gostem.
Um texto bom convence as pessoas. O mundo é um lugar muito interessante e existem muitas coisas melhores no mundo do que ler um texto científico. Portanto, a sua primeira tarefa é capturar a atenção do leitor e convencê-lo de que o seu artigo diz algo interessante.
Para cativar o leitor, você não precisa ser um gênio da língua portuguesa. Basta que você escreva de forma clara em um texto estruturado e claro. Lembre-se: leitor descansado = leitor feliz = leitor generoso. Isso também não é fácil, mas - seguindo algumas regras (e quebrando outras) - é tarefa perfeitamente alcançável:
  • A maior parte dos textos que você gosta foi reescrita e retrabalhada várias vezes. Alguém também já disse: "Não existe texto bem-escrito, só texto bem reescrito". Não se envergonhe de fazer isso, é uma necessidade.
  • Tenha um leitor cobaia da sua área. Se ele não entendeu o texto, a culpa é sua. Repetindo: a culpa é sua. Reescreva o texto.
  • As duas partes mais importantes do seu trabalho são o Resumo e a Introdução. São nelas que o leitor vai primeiro passar os olhos para descobrir a razão de ser do seu paper.
  • O texto é escrito ao contrário da ordem de leitura. A Introdução e o Abstract são as últimas partes escritas de qualquer trabalho científico. Só depois de concluir é que você poderá dizer o objetivo do trabalho. Se você é totalmente linear e faz questão de fazer tudo na ordem, ok. Mas lembre-se que será trabalho perdido. Você terá de trocar tudo.
  • Parece uma obviedade, mas você precisa aprender a usar o seu processador de texto. Hoje é mais raro, mas era muito comum ter gente que fazia o recuo da primeira linha usando Tab ou vários espaços. Aprenda a usar os estilos do Word. Sua vida vai ficar bem mais fácil.
  • No corpo do texto, cada parágrafo deve ter uma ideia e - de preferência - ela deve ser exposta na primeira frase. A nossa professora de escola já tinha nos ensinado que para cada ideia deve corresponder um parágrafo, mas ela - talvez pensando que continuaríamos escrevendo textos narrativos como "Minhas férias"- esqueceu-se de falar desse truque da primeira frase em textos argumentativos/expositivos. Ou seja, logo na abertura o parágrafo, já deve dizer a que veio. As frases seguintes são apenas para desenvolver e detalhar o que foi dito no começo. A última frase do parágrafo é também muito importante. Ela deve retomar a ideia inicial ou abrir caminho para o próximo parágrafo. Às vezes, essa estrutura de parágrafo não vai ser possível. Tudo bem. Mas tente se obrigar a pensar no texto dessa forma.Você pode repetir palavras. Eu sei que a sua professora ensinou a evitar isso, mas é pura perda de tempo ficar buscando sinônimos para palavras que, ao longo do seu texto, têm de ser repetidas. O leitor pode até achar que você está falando de outra coisa se o sinônimo não for perfeito.
  • Fingir profundidade com frases longas e palavras obscuras ou vagas funciona com uns figurões de algumas áreas das ciências humanas. Para mim, os textos dos grandes "intelectuais" só fazem com que os meus fusíveis mentais rompam na tentativa de proteger a minha cabeça. Isso gera sono ou o desejo de incendiar o livro. Esses figurões alcançaram tanta importância que os leitores suam para entender aqueles parágrafos incompreensíveis. Como você não tem esses seguidores, o jeito é ser bondoso com o leitor e se esforçar para tornar a leitura mais fluída possível.
  • Alguém disse "escrever é cortar palavras"; É a mais pura verdade. Releia o texto e procure primeiro pelos advérbios. Eles são os candidatos a serem cortados primeiro. Eu costumo fazer uma busca por "mente" e apago os que não são essenciais. Tenha cuidado também com o "queísmo", aquela mania de colocar "que" desnecessários nas frases.

Resumo

Ao invés de começar o Resumo dizendo que:
"O tema da influência da televisão na saúde mental de adultos tem sido muito discutido ultimamente e é bastante interessante. Em vários estudos, por todo o mundo, encontrou-se evidência que a exposição... (bocejo)... (bocejo)... (ronco)".
Diga:
"Cada hora diária a mais na frente da televisão aumenta as chances de ter esquizofrenia em 16%. Esse resultado foi obtido a partir de um banco de dados com..."
Não ficou melhor?

O arquivo lixo

Uma das coisas mais preciosas quando se escreve é um arquivo chamado "lixo.docx". Quando você escreve, tem horas que você se solta e começa a ter ideias que parecem sensacionais. Depois, relendo o texto, você verá que elas não são tão boas assim. Você fica tentado a apertar o Delete, mas não quer perder o seu suado trabalho. A solução é copiar o trecho para o arquivo lixo.
Você vai notar que a mera existência do arquivo lixo lhe deixará mais solto na hora de escrever e também mais corajoso na hora de cortar o seu texto na revisão. De tempos em tempos, passe os olhos no arquivo e veja se há alguma ideia que deve ser recuperada para o texto principal ou ampliada.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

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