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Manual / Carta de recomendação

Cartas de recomendação


Ouvi dizer que o Albert Einstein era bastante generoso. Bastava qualquer um pedir uma carta que ele fazia uma elogiando o candidato. O problema é que – com o tempo – suas cartas perderam o valor. Quem apareceria com uma carta de recomendação por ele assinada, já mostrava que era picareta.
Essa historinha reúne os problemas das cartas de recomendação. O valor da sua carta dependerá não só da reputação do professor, como também da sua reputação como fornecedor de cartas. Eu sou um feroz opositor da exigência de cartas de recomendação. Existem tantos problemas nas cartas de recomendação que, no final, não se sabe mais o que elas realmente trazem de informação sobre o candidato. Já soube até de um professor que escreveu uma carta detonando seu aluno "querido" para que ele não fosse aceito em outro mestrado e continuasse na mesma universidade.

Aos recomendados

Em geral, peça cartas para os professores com que você realmente teve contato. A carta que ele escreverá soará sincera e não uma daquelas padronizadas que os professores carentes por atenção às vezes fazem. Leve em conta a reputação e a associação do professor com o curso que você almeja. Se o recomendante for um ex-aluno, com bom desempenho, melhor ainda. Eu sei que o mundo deveria ser mais meritocrático, mas não funciona assim.
Alguns cursos pedem que as cartas sejam enviadas diretamente pelo recomendante. Nesse caso de cartas seladas, o importante mesmo é que – de jeito nenhum – você peça para ver a carta.
Outra coisa: se o professor disse que está sem tempo ou não lhe conhece para fornecer a carta, não insista. Normalmente, ele está só querendo lhe poupar de uma carta que lhe prejudicará.

Aos recomendantes

Se você é um professor produtivo, a solicitação do aluno será mais um daqueles pequenos fardos que lhe tiram a atenção. Escolher os adjetivos apropriados e as hipérboles convincentes tomará uma importante meia hora do seu precioso dia. Se o aluno é muito bom mesmo, peça para ele escrever uma prévia do texto. Depois, você poderá fazer os retoques necessários. Para todos os outros alunos, vai dar mais trabalho corrigir do que fazer uma do início (obviamente, é sempre bom ter um arquivo "carta_de_recomendacao.docx" com os clichês mais utilizados).
Para os alunos que você não conhece, ou não recomendaria, just say no. Escolha a desculpa: "Perdão, mas eu não o conheço bem" ou "Puxa, eu tenho uma briga com alguém da universidade que você quer ir e isso só lhe prejudicará".

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

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