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Manual / Aulas

Aulas


Para os alunos

No cursinho, você estava acostumado com aquelas aulas show, músicas e piadas. Na faculdade, você não encontrará nada disso. Uma boa parte das aulas será muito chata mesmo.
Acredite se quiser, professor universitário é o único tipo de professor que pode entrar em sala de aula sem nunca ter tido uma aula de didática. Depois de escrever uma tese, ele passa em um concurso com uma prova didática que só testa se ele conhece o conteúdo, não é louco e pronto. Quando acorda, ele tem sessenta pré pós-adolescentes na sua frente e tem de entretê-los por quatro horas. Essa falta de preparo explica uma parte daqueles péssimos professores que você terá de enfrentar. Aqueles que dão boas aulas apenas copiam os melhores professores que tiveram ou são intuitivos.
Em algumas áreas, é bem-aceito fazer rodinhas de alunos para discutir o tema. Eu ainda não vi qual é o valor didático disso. Uma coisa é ter um debate para valer, em que todos leram os textos relevantes e estão prontos e motivados a debater. Outra é usar o tempo de aula para papos-cabeça intermináveis nos quais trocam-se preconceitos e visões confusas sobre o universo e tudo que o cerca. Na hora, pode parecer divertido, mas você verá que esse é o método de enrolação ensino dos piores professores.
Eu sei que, frente às aulas chatas, a tentação para ficar no YouTube é grande. Contudo o professor, lá na frente, sabe muito bem diferenciar a cara de quem está tomando notas relevantes daquela de quem está matando tempo com o último vídeo viral. Você não está em um cinema, e sim em um teatro. Cada conversinha, cada risada serão registradas. Ele vê tudo, ora bolas. Se você se importa com a imagem que o professor tem de você, evite esse comportamento.
A única coisa que eu sempre perdoo dos alunos é o sono em sala de aula. Eu mesmo dormi em ótimas aulas e em palestras dos melhores pesquisadores. Ademais, quem já não dormiu no cinema, vendo uma produção de milhões de dólares?

Para os professores

Uma piada entre professores: "Sabe qual é a diferença entre o professor e o aluno? Uma hora". A piada é tão sem graça quanto verdadeira (ao menos de vez em quando). Por vezes, os professores têm de ensinar uma matéria que nunca estudaram ou mesmo viram. Da mesma forma que um músico de banda de baile consegue aprender uma música nova rapidamente, um professor "auleiro" facilmente pega a manha de aprender um novo ponto. Se ele é meio procrastinador, acabará deixando para preparar a aula na última hora.
Superestime o tempo de aula. Nada pior do que ver o seu material terminar na metade da aula e você ter de ficar embromando o resto do tempo, ou ser obrigado a fingir uma apendicite. Com a experiência, você se tocará que a sua produtividade aumenta, ou seja, você conseguirá transmitir o mesmo conteúdo em menos tempo. Você evitará aquelas explicações mais enroladas e com maior possibilidades dos alunos (e você) se perderem. Isso, óbvio, cria o problema de tornar a sua aula mais curta. Oh, o preço do sucesso... Nenhum problema, nessa hora, você já pode utilizar o tempo para outras atividades: piadas, comentários sobre atualidades e embromações em geral.
Sempre, fale olhando para os alunos. Se você precisar ler algo no quadro ou no projetor, leia em silêncio, vire-se e, só depois, fale com os alunos. Ler olhando para o quadro não funciona e só sugere insegurança, assim, você perderá o seu público.
Quando surgir um questionamento ao qual você não saiba responder, diga que não sabe e que responderá na próxima aula. Note: você verá que isso será um evento raro mesmo. A maior parte das perguntas se repete ou é muito maluca mesmo. Nas perguntas repetidas, finja que está ouvindo a pergunta pela primeira vez e responda como se você fosse muito sábio. Já para os malucos e suas perguntas, o negócio é segurar o riso e trazer a pergunta para o mundo dos normais. Resista, igualmente, à tentação de brigar ou ridicularizar.
Você também terá de decidir qual será o seu personagem como professor. Como sabemos, os tipos de pessoas no mundo são limitados. As pessoas mudam de aparência e de endereço, mas existe um número limitado de personalidades na Terra para escolhermos. Quando se trata da escolha do seu personagem como professor, o número de modelos é bem mais restrito.
Existem dois tipos de professor que vale a pena evitar, quer como professor, quer como aluno. Um é o deslumbrado com o poder que possui. É um poder limitado ao número de alunos e ao semestre que eles estão cursando, é bem verdade, mas é poder. Mais poder do que qualquer um de nós está acostumado a exercer. Alguns – inexperientes e/ou com problemas de caráter – divertem-se exercendo esse poder de forma destrambelhada. Viram pequenos hitlers, mas sem a Polônia para invadir, passam a exercer seu sadismo com os alunos. Eles são reconhecidos porque ficam tristes quando um aluno vai bem na prova.
No outro extremo da distribuição, estão os professores populistas. Tal como os políticos em campanha, esses usam as benesses para encobrir o verdadeiro desinteresse pelos alunos, sua carência afetiva ou ambições na política universitária. Distribuem nota dez, gostam muito de ouvir os alunos e adoram uma autoavaliação. No fundo, não têm nada o que ensinar. Fique longe.
Felizmente, os dois tipos são os casos raros. Em geral, vale o segredo. Enfim, os professores exigentes o são porque consideram que isso é o certo. Ele foi pago para ensinar um conteúdo e espera que os alunos tenham aprendido. Para um professor normal, nada mais triste do que corrigir uma prova ruim e descobrir que não foi totalmente bem-sucedido na tarefa. O que os professores mais novos não percebem é que – por melhor que seja a sua aula – sempre haverá um conjunto de alunos que se nega a aprender.
Um alerta final: ao menos 1% da humanidade é composta por doidos de pedra. O mesmo acontecerá com os seus alunos. Como você lidará com muita gente, é certo que algum cruzará seu caminho e, com um pouco de azar, algum cismará com você. Tente evitá-lo ou ao menos nunca ficar sozinho com ele. Lamento, mas não há nada mais para fazer aqui. Talvez, uma oração ou um despacho, mas não garanto que funcionem.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

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