22/03/2017

Por que Tony Ramos faz propaganda de carne?

Tony Ramos nunca teve reputação de gourmet ou mesmo de churrasqueiro. Por que contratá-lo?
Vamos lá.  Os consumidores enfrentam um desafio: saber a qualidade dos produtos. Em vários casos isso não chega a ser muito complicado. Na compra de uma maçã, por exemplo,  ele examina o produto e estima a qualidade antes de comprar.
Outras vezes não é tão fácil. Pode ser que o consumidor só conheça a qualidade depois de consumir o produto (filmes, livros e a maior parte dos bens culturais), ou porque há problemas técnicos na identificação da qualidade (pense em um remédio). Nesses casos, a sociedade desenvolveu seus próprios mecanismos: críticos especializados que dizem se um livro ou restaurante carro são bons, Yelp, ou mesmo órgãos de certificação privada ou pública.
A propaganda é outro mecanismo de sinalizar qualidade. A lógica é a seguinte: a empresa gasta uma fortuna em propaganda- e geralmente alardeia o quanto gastou-  para mostrar ao consumidor: "Ei, olha só, gastei R$25 milhões para o Rei Roberto fazer propaganda da minha marca. Isso mostra que eu estou  comprometido com a minha marca. Se o produto for ruim, eu não terei como recuperar essa grana. "
Quem genialmente sacou esse mecanismo foi o P Nelson em um artigo que já completou 4 décadas:
NELSON, Phillip. Advertising as information. Journal of political economy, v. 82, n. 4, p. 729-754, 1974.
O mecanismo é perfeito? Não. A realidade recente mostrou que nem a certificação governamental, nem contratar artistas por milhões garante 100% de qualidade. Mas quem vai contratar o Tony Ramos para uma propaganda de agora em diante? Antecipando os riscos a suas imagens, os artistas serão mais cautelosos (e/ou) cobrarão mais. Será que vai surgir uma certificação privada para as carnes nacionais?
Enfim, informação assimétrica sempre existirá e não há um mecanismo só capaz de cobrir todas as situações.

Um comentário:

George disse...

Além disso, propagandas refletem no preço final do produto. E parece que ainda há, para o consumidor, a relação de que preço alto é igual a qualidade mais alta.

Ainda ontem, em um supermercado, peguei quatro pacotes da chamada ''linguicinha fina'', sem preços anunciados na gôndola. Seara, Perdigão, Sadia e Excelsior.
Perguntei para o meu filho qual o palpite dele para a mais barata. Apostou na Excelsior, segundo ele ''será mais barata porque não faz propaganda'', pelo menos que ele tenha visto, ao contrário das outras três marcas, sempre presentes em campanhas publicitárias nacionais.
Na leitora dos códigos de barra, ele confirmou o acerto do ''chute''. Neste caso, a Excelsior, além de não fazer publicidade, possui o menor preço, o que para o consumidor pode parecer que a qualidade é inferior, corroborando também o que escreveste: talvez sinalize que a marca não ''aposta'' no próprio produto.

Sobre o Tony Ramos, a empresa também apostou na imagem do ator, no sentido que, se o Tony Ramos compra e indica, até tua mãe pode consumir.

Um grande abraço, Prof. Leonardo.