Deterioração dos termos de troca

Conversando com os colegas do curso, voltamos à antiga tese Prebisch-Singer da deterioração dos termos de troca: as commodities exportadas pela periferia tendem a ficar mais baratos em relação aos bens importados dos países industrializados. Prometi, então, fazer um post sobre o tema.
A tese tem andado fora de moda, por motivos óbvios. Mas o que a literatura diz? Antes de tudo, percebeu-se que não é mole testar a hipótese corretamente. Afinal, se um grão de soja é (quase) o mesmo durante o século, como considerar o netbook de US$350 que tenho à minha frente. Uma configuração equivalente custava um fortuna faz alguns anos e não existia nada parecido em 1970. Como ajustar para essas mudanças nas qualidades dos bens manufaturados? Ainda: que ponderações usar? Faz sentido agregar todos os bens primários em um só índice? E a qualidade dos dados? Vejamos dois textos recentes:
Jeffrey Willianson e Hadass voltam ao período 1870-1940 e fazem um baita texto , usando dados de painel e tudo mais. Eles agregam os países da periferia em grupos e - depois de muito sofrer - encontram um resultado legal. Em geral, os termos de troca não caíram, mas a volatilidade do preços das commodities foram ruins para o crescimento da periferia.
John Cuddinton et al. aplicam o instrumental de séries temporais aos preços das commodities no século XX e concluem que não há tendência de queda. (Só teria havido uma quebra estrutural na série em 1921). O fato de um preço cair ao longo do tempo não quer dizer, de acordo com a econometria contemporânea, que há uma tendência.
Meu pitaco: se a deterioração dos termos de troca fosse uma fenômeno relevante ele seria mais robusto. Ou seja, deveria resisitir mesmo quando fossem escolhidas amostras diferentes de países, produtos e períodos. Não vale dizer: "o produto x não vale", ou "o aumento recente foi conjuntural" e assim por diante. Enfim, milhões de motivos podem tornar a especialização em commodities um problema, mas a tese Prebisch-Singer não é um deles.

16 comentários:

André disse...

Leonardo, vi em um dos seus posts anteriores algumas regras sobre trabalhos econômicos e uma delas dizia sobre a apresentação de dados para início de conversa. Deste modo, com os dois textos que você linkou, seria impossível que eu discutisse com você sobre a teoria da deterioração dos termos de troca, justamente porque não tenho os tais dos dados para contra-argumentar. Contudo, mesmo sem estes dados, creio que o problema das commodities seja, na prática, a volatilidade do preço delas, principalmente se analisarmos a longo prazo. E isso acaba com qualquer economia, se assim podemos dizer.

Leonardo Monasterio disse...

Olah Andre,
Pois eh, os dados estao lah ou tem a referencia. O problema eh que eh tremendamente complicado testar por conta propria. Essa discussao me lembra aquela outra questao sobre crescimento e democracia/ditadura. Quem entra neste debate perde toda a esperanca de sair vivo. Eh tudo tao sensivel a forma funcional, metodo econometrico e base de dados que - aih vai o meu pitaco novamente - nao deve haver relacao nenhuma mais substantiva.
Abracao,

Duilio de Avila Bêrni disse...

grande tema, Léo! dias atrás, eu vi -não lembro bem- se um automóvel ou radinho de pilha made in china por R$ 1 e pensei: esses comunas vão monopolizar a indústria do mundo. antigamente eu achara que a agricultura iria acabar. agora, ao entender que os chinas serão a indúsria e que o Brasil ganhará dinheirinho vendendo água (soja, frango) a eles, pensei "en el deterioro". parece-me que Alexandre Barros achou tendência num paper de 10 ou 15 anos na RBEco. lendo o post, pensei (como obrigo-me a fazer sempre) num esquema de equilíbrio geral, insumo-produto, Leontief, Sraffa e Smith-trabalho/comandado. precisamos saber se o grão de soja é mesmo o mesmo. há 100 anos, ele não existia no Brasil. e há 20 ou 30 a Embrapa ainda não criara a soja tropical. não posso alongar-me, mas falta coisa. vou para meu próprio blog!
.d.

Anaximandros disse...

sem ir para o meu blog obrigo-me, diz-se de quem nao suporta o obviamentente inapropriado ou incorreto, mesmo assim, a primeira vez que ouvi essa tese dos termos de troca, possuia insensatos 17 anos e acreditava em mula-sem-cabeça e boi-tatá,( incrivel como o ensino de economia no brasil ainda carrega esses mitos) desde lá não confere, os dados nao conferem, entao, sinto muito...

Leonardo Monasterio disse...

Grande DUilio,
Eh verdade, (o) a soja foi um mal exemplo. Outra coisa: como fica essa historia com doenca de custos de Baumol? O atendentes de tele-marketing indianos vao sofrer com isso?

Anaximandros,
Boi ta ta nao existe?!/?

Duilio de Avila Bêrni disse...

rapazes: Anaximandros acha que cometi um grande erro em ir a meu blog? ele foi lá? não acho que nenhum de nós cinco esteja errado, ao contrário. parece haver mais razão em negar a lei da queda da "relação de termos de troca" do que em aceitá-la. tivemos industrialização e desindustrialização no planeta. lembra-nos Leo da maravilhosa história de Baumol ("você não pode elevar a produtividade de um quinteto de cortas, a não ser transformando-o num quarteto"), mas ele mesmo reconhece que um MP3 eleva a produtividade (direta e indireta...) do quinteto. eu acho que o futuro do mundo é mesmo serviços (transportes interplanetários e transplantes de idade...) e que a produtividade neles pode elevar-se infinitamente. ainda assim, acho que o cerne da "capital acumulation" ruma para o "cassino financeiro".
.d.

Anônimo disse...

E a Lei de Thirlwall?

Vale ou não vale?

Porque, se valer (e eu acho que vale), é um grande argumento contra a especialização em commodities.

Leonardo Monasterio disse...

De fato, a especializacao em commodities pode ser ruim por um monte de motivos. (E a industrializacao forçada tb!)
Sobre a lei de Thirwall: mesmo que fosse verdade, vc tem que supor que a elasticidade renda das exportacoes de primarios eh baixa para tirar qq recomendacao de politica.. Ora, a ultima decada mostrou que elasticididade renda das exportacoes de primarios pode ser bem grandinha.

Anônimo disse...

Sobre a lei de Thirwall: mesmo que fosse verdade, vc tem que supor que a elasticidade renda das exportacoes de primarios eh baixa para tirar qq recomendacao de politica.

Fiz essa pergunta porque essa porra dessa Lei aparece em mil papers (especialmente no JPKE -- que a capes considera A1), mas nunca em qualquer paper no JSTOR.

Por que?

Leonardo Monasterio disse...

Olha, eu nao acombanho a trajetoria da lei de Thirwall. A sacada eh otima, mas - tal como outras leis - eu duvido que tenha grande generalidade. Meu querido orientador de doutorado, o Gabriel Porcile, estudou isso para valer. Sugiro qq coisa dele sobre o tema.

Anônimo disse...

Valeu Leonardo

Anônimo disse...

...mas esse Gabriel Porcile é altamente heterodoxo e publica no Journal of Post Keynesian Economics também...

Ele acha que o Brasil e outras economias da Am Latina crescem menos que as asiáticas porque tem restrições do balanço de pagamentos decorrentes da baixa elasticidade-renda das exportações, que é o argumento padrão dos heterodoxos brasileiros em geral de hoje.

Abraço

Anônimo disse...

"Fiz essa pergunta porque essa porra dessa Lei aparece em mil papers (especialmente no JPKE -- que a capes considera A1), mas nunca em qualquer paper no JSTOR. "

Por que o JPKE eh um lixo.

Anônimo disse...

Por que o JPKE eh um lixo.

Mas como é A1, publicar lá deve dar um bom retorno.

Leonardo Monasterio disse...

Perai, soh pq estah no JPKE nao quer dizer que estah errado. Da mesma forma, nem tudo que estah na AER eh certo.
Se vc estah curioso por qq coisa, nao basta se guiar pelo journal, neh?

Groselho disse...

eu acho que está errado.
O ponto da DTT é a diferença ente os salários do Norte e do Sul. É claro que o preço do netbook baixou mais que o da soja. Mas as elasticidades-renda sao diferentes. A demanda por soja nao pode crescer no mesmo ritmo que o da soja - e isso vale para a maioria das comparações com produtos que podem ser feitas.
Além disso, a produtividade na priodução é diferente.
mas o ponto principal é mesmo que há uma transferencia dos frutos do progresso tecnico da periferia para o centro, visto que os aumentos de produtividade nao sao repassados para os salarios.

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