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Jornais do século XIX viram lixo em Pelotas

Quem me manda o alerta é a Professora Beatriz Loner:
"Há pouco mais de 15 dias, em fins de abril/inícios de maio, a cidade de Pelotas, que até agora tinha se caracterizado por buscar a preservação da história e da cultura da cidade e do país como um todo, foi palco de uma situação completamente absurda e injustificável: a direção de sua biblioteca pública, que é gerida por uma associação privada, simplesmente enviou para reciclagem, uma parte importante da história da cidade e da região!

Livros, jornais, diários e mais monografias e documentos impressos (não se sabe exatamente o total do que foi descartado, nem quem definiu o que seria jogado fora), mas enfim, o suficiente para encher mais de um caminhão pequeno, foi enviado para recicladores. E só não foi parar no lixo mesmo porque, num episódio rocambolesco e pouco explicado, foi “salvo” por um dono de sebo, que imediatamente o comprou e o pôs a venda como uma mercadoria qualquer. Alguns desses exemplares ainda se encontram em sebos da cidade e podem ser conferidos até pelo twitter de alguns pelotenses. Seguramente, este dono de sebo deve ter ampliado seu patrimônio em muito, devido apenas ao que, pelo alto, se soube que foi descartado.

Entre eles, por exemplo, uma das únicas, senão a única coleção do jornal A Federação do ano de 1904. Vários outros anos inteiros deste jornal também foram literalmente jogados fora, sob a justificativa de “estarem duplicados”. Mas a catástrofe cultural vai muito além, pois todos os jornais encadernados, que eram duplos, e que se encontravam no porão da biblioteca, como os jornais Correio Mercantil, Opinião Pública, Diário Popular, também tiveram o mesmo fim. Estes são alguns dos jornais pelotenses mais importantes do XIX e XX séculos, e ficamos agora reduzidos apenas a sua coleção em uso, e cuja digitalização tem sido protelada por interferência direta da própria diretoria. E o que se fará quando estes jornais, pelo uso, se desmancharem? Chorar, pelo visto.....

O raciocínio simplista e redutor de que “eram duplos” e poderiam ser descartados, não convence ninguém, pois todos podem se perguntar por que não foram trocados com instituições congêneres, ou doados para uma outra instituição do estado, como reza seu estatuto de 1991, que em seu artigo segundo, item b), diz que a biblioteca “poderá permutar livros e objetos com outras instituições que estejam de acordo com as suas finalidades”.Quanto a alguns estarem em mau estado, ora, para quem conhece, sabe que há várias técnicas de recuperação de documentos que poderiam ser tentadas, com um pouco de esforço na busca de financiamento.

Esta mensagem, além de denunciar este fato, pretende provocar alguma reação, por parte não só da comunidade técnica e acadêmica interessada na preservação da história do país, mas dos próprios pelotenses, que até agora estão assistindo esta situação estupefatos, mas em silêncio, um silêncio que pode passar por aprovação e gerar a reincidência deste tipo de atitude."
Eu pensava que crimes como esse não mais acontecessem...Que tristeza.
Foi nesses jornais que o Matheus Lisboa, meu orientando de graduação, se baseou para fazer um índice de preços para o RS entre 1870-1882.

Comentários

p. disse…
Me faz lembrar das perdas (em escala menor, naturalmente) da "revolução" "cultural" chinesa.

Um tempo atrás achei em uma biblioteca pública de Belo Horizonte uma versão completa do dicionário biográfico do Sacramento Blake do século XIX (raríssimo) exposta como material de referência para manuseio direto, quando existe uma edição do mesmo da década de 1970. Vai entender.
Matheus Lisboa disse…
Isso é profundamente lamentável! Esses jornais são (eram...) uma grande fonte de dados. É realmente uma tristeza.
Anônimo disse…
Olha, isso deve ocorrer aos milhares ou milhões pelo País. Só uma palavra: impressionante!!!
Dawran Numida
Anônimo disse…
Isso é algo muito triste. Lamentável...
fábio pesavento disse…
E eu que estava procurando preço do sal quebrei a cara, nenhuma novidade no universo brasileiro de produção de dados primários.
Thomas H. Kang disse…
cara, que estupidez, pra não dizer coisas piores.
A classificação "bizarro" cai como uma luva.
Gian disse…
Eu fui um dos pelotenses (ainda que a classificação não me caiba) que acabou por salvar algum exemplar. Aparentemente o "salvador" não era dono de nenhum sebo visto que apenas recolocou no mercado alguns livros mais "líquidos" não segurando exemplares para futura valorização. Alguns outros ele doou para afortunados transeuntes (meu caso) que passavam pela frente do local no qual os livros foram armazenados para distribuição.

Não tive tempo, e nem teria conhecimento, para avaliar os exemplares que iam para a "solução final" mas acredito que dado a quantidade imensa de volumes e a pequena amostra que tive posso dizer que é bastante provavel que livros com valor histórico (além dos jornais) tenham se perdido...

Aliás, no mesmo dia me manifestei no Twitter sobre o acontecido, mas não percebi nenhuma reação. Achei até mesmo que o fato tivesse passado despercebido
Gian disse…
Vício de quem não lê o que escreve: Falei que "salvei" e depois me referi ao cara que receptou os livros como "salvador".

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