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O problema com o Über

A crítica contra o Über - ou contra qualquer serviço de transporte com livre entrada de ofertantes- é que ele piora uma ineficiência já existente. Os carros  utilizam um recurso comum, o espaço da rua, sem pagar nada por isso. Cada motorista considera seus custos privados, sem levar em conta que marginalmente piora o trânsito para todos. Da mesma forma que um lago tende a ser utilizado até não sobrar um peixinho, uma rua tende à saturação. Em ambos casos, o problema decorre da ausência de preços para um recurso escasso. 
(Os táxis também têm o mesmo problema, contudo, como há um  número fixo de licenças, as consequências sobre o trânsito tendem a ser menos graves.)
A solução - repito - é cobrar pela utilização das vias. O  pedágio urbano corrige essa falha do governo (que gera uma falha de mercado). Preços distintos por local e horário poderiam resultar na quantidade ótima de Über, taxis ou carros de passeio nas ruas.
Eu chuto que ainda vai levar ainda uns 20 anos para que isso chegue às nossas cidades. Para não ofender os eleitores, será algo disfarçado como um desconto no IPVA para aqueles cujo GPS indicar que não andaram nos locais/horários críticos. Espero estar certo.

Comentários

Anônimo disse…
"(Os táxis também têm o mesmo problema, contudo, como há um número fixo de licenças, as consequências sobre o trânsito tendem a ser menos graves.)"

Esse argumento tem uma falha fundamental: se as licenças de táxis são fixas isso implica em mais carros particulares na rua.

Desse modo, o Uber diminui o número de carros em trânsito, não o contrário.
A "falha fundamental" só ocorreria se a substituição para cada táxi indisponível MAIS DE UM carro entrasse em circulação. Você acha isso plausível?

O mesmo no caso do Uber. Existe alguma substituição entre viagens de carro particular e Uber, mas dizer que diminui o número de carros é exagero.
Anônimo disse…
O Uber e similares (como Lift etc) têm sido grandes auxiliares no problema do tráfego urbano e não o contrário como o post deixa a entender.

E eles tem inovado bastante. O Uber lançou há pouco o Uber Pool, em que passageiros dividem o mesmo táxi:

http://blog.uber.com/uberpool
Felipe disse…
Tirando medidas como ampliação de faixas e construção de viadutos, existem políticas públicas em trânsito que não ofendam os eleitores? Minha impressão é que o único jeito de mudar as coisas é adotar a medida e insistir nela até que os motoristas se sintam adaptados à nova realidade.

Pegando o exemplo de Brasília: há alguns anos foram introduzidas faixas para ônibus. No início eu ouvia reclamações todos os dias, mas agora parece que as pessoas entendem que elas estão lá e é assim que as coisas vão ser no futuro. (Apesar de que eu imagino que quem não pega ônibus ainda não entende pra que elas servem...)

Um contraste é o esquema que tinham para estacionamento pago nas áreas centrais de Brasília (que era chamado de "vaga fácil"). Durou só dois meses: rapidinho a justiça encontrou irregularidades no projeto e acabou com ele, sem dúvida pressionado pela opinião popular.

No fim das contas, acho que o melhor jeito de fazer as pessoas verem os custos reais das coisas é... cobrar por elas. Não entendo de economia, mas me parece que repassar o custo de uso de vias públicas explicitamente cria incentivos mais saudáveis do que escondê-los no IPVA.
Esse congestionamento não tende a ser minimizado com as formas de compartilhamento de veículos - com a opção de motorista, Uber, ou sem, Zipcar - e, futuramente, os carros autodirigidos?
Anônimo,
Meu ponto é que o Uber piora, pq é bom demais, uma falha de governo.

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Felipe,
Pois é, precisa alguém com muita coragem para fazer as medidas que realmente melhoram o trânsito. A mala do Ken Livingtone teve a coragem.
http://en.wikipedia.org/wiki/Ken_Livingstone

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Gian,

Eu não entendo direito isso. Só sei que essas coisas de trânsito geram, muitas vezes, paradoxos muito estranhos. Vou postar sobre o Braess paradox em breve.

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