Pular para o conteúdo principal

Contra a lei da uniformização, viva o terno e gravata!

Estudo mostra que os trabalhadores que usam uniforme de firma:
  • Ganham 24% menos do que os que não usam;
  • Sofrem 99 trilhões mais acidentes de trabalho do que os demais.
Para melhorar a situação, a solução é óbvia: esporte fino para todos os trabalhadores brasileiros!
{
Sim, isso não faz sentido algum. Nos últimos dias, contudo, muita gente tem usado o  raciocínio análogo quando acha que a terceirização é a culpada dos baixos salários.
Para saber mais sobre a lógica da terceirização: aqui e aqui.
}

Comentários

Anônimo disse…
Terceirizar trabalho e terceirizar produção/serviços são coisas essencialmente diferentes, o arcabouço da economia industrial dá pouco ou nada de informação sobre a situação trabalhista da terceirização.

A terceirização diminui o poder do trabalhador dentro do ambiente de trabalho: se não se submeter a algo, a sua terceirizada pode só tirá-lo de um lugar e alocar em outro; quanto maior a terceirização, mais difícil se torna escapar desse ciclo, e, no equilíbrio, o ambiente de trabalho torna-se mais autoritário e o trabalhador é forçado a submeter-se a mais do que seria caso não houvesse a terceirização. Isso deve aumentar a chance de acidentes e o trabalho insalubre, inclusive.

A situação de responsabilidade mal-definida também diminui a capacidade de cobrança dos seus direitos. No limite, a questão na justiça torna-se muito mais difícil de resolver quando envolve três partes e não apenas duas. Quando atrasam salários ou quando os direitos trabalhistas são ignorados, a contratante e a terceirizada jogam uma para a outra a responsabilidade, e esse é um dos principais mecanismos pelo qual a terceirização precariza o trabalho, deixando o trabalhador perdido entre duas empresas que lavam as mãos, e sobrecarregando a Justiça Trabalhista.

Por outro lado, o mais óbvio, a terceirização dificulta a organização dos trabalhadores na hora de realizar cobranças e poder de barganhar, o que leva a menores salários e condições de trabalho no equilíbrio. Isso acontece tanto em relação aos trabalhadores da contratante - que sabem que podem ser substituídos por terceirizados a qualquer momento, e em menor quantidade caso já haja terceirizados - quanto com os trabalhadores da contratada - cuja situação é deixada confusa, já que nunca é claro com quem deve se organizar e com quem negociar.

Então, enfim, não vamos ignorar todo um lado do assunto pra fingir que o "outro lado" só está falando bobagens. Existem riscos óbvios pro salário e pras condições de trabalho caso a terceirização se expanda.
Anônimo disse…
Sobre o artigo do Pêssoa, concordo que a terceirização seria ótimo pra atividades especializadas. Mas segue sendo terrível pra grande maioria.

Há fortes razões e evidências pra se crer que aqueles, terceirizados ou não, com qualificação média/baixa tenderiam a perder salários, direitos e condições de trabalho com a fragilidade gerada pela terceirização pra eles.
"Há fortes razões e evidências pra se crer que aqueles, terceirizados ou não, com qualificação média/baixa tenderiam a perder"

Obrigado pelo comentário.
Onde estão as fortes evidências?
Claudio disse…
É, eu também queria ver as "fortes evidências". Ficou devendo...
Anônimo disse…
Olha, eu sei de trabalho sobre bancários (recebem cerca de 1/3 dos não-terceirizados, não têm auxílio-creche e PLR), entre os eletricitários (ganham cerca de 20% menos, sofrem a maioria dos acidentes e mortes).

De resto, está na frente de todo mundo que vive no Brasil o fato de que terceirizados ganham menos, não achei que fosse uma questão discutível. Pode-ser questionar o nível, mas é evidente que ganham menos.


Aliás, eu pergunto: se não diminui os benefícios, a segurança jurídica e os salários, porque os empresários estão defendendo tanto a terceirização?

Se os terceirizados não vão ganhar meno nem ter menos direitos, e ainda incluem a fatia da empresa, qual o sentido de contratar terceirizados tanto como contratam? Se não é economizar, é qual? Vai ser bom pros negócios por qual motivo?
Anônimo,

Esses trabalhos comparam atividades iguais? Se não o fazem, entram no mesmo erro que motivou o post e não contam como evidência.

A defesa pelos empresários não é um bom guia para saber se uma política deve ou não ser adotada. Eles defendem o protecionismo que só prejudica os trabalhadores. Mas, por vezes, defendem mudanças que geram eficiência e reduzem a incerteza jurídica.

Por outro lado, só pq trabalhadores se opõem, não quer dizer que a mudança é ruim. Lembre-se que os luditas achavam que defendiam o operariado. Às vezes, certos grupos defendem o seu interesse restrito e não o da maior parte da população.
Anônimo disse…
Concordo, mas a questão que não fecha é o que a terceirização da atividade fim faz pra aumentar a eficiência e certeza jurídica?

Se não for pra pagar menos, porque querer tanto a terceirização? Pra trabalhos especializados faz todo sentido, e acho ótimo, mas essa é a minoria dos terceirizados. O que leva uma empresa a contratar um terceirizado pra trabalhar 40h por semana fazendo a mesma coisa que um contratado, se não for redução de custos? Qualquer empresário sabe que é mais barato contratar terceirizado porque eles ganham menos pra fazer a mesma coisa. Infelizmente faltam estudos acadêmicos melhores pra apontar isso, mas é uma realidade gritante.

Regulamentar a terceirização pode ajudar a definir regras, mas segue deixando o trabalhador enfraquecido. Só o fato de ter dois "chefes" já complica a situação dele, e dos chefes, num ponto básico de qualquer teoria de governança. Qualquer questão jurídica e de responsabilidade solidária, independente do quão bem regulamentado, vai gerar mais dor de cabeça do que se envolver só duas partes. Ademais, sobram histórias por aí empresas terceirizadas sem patrimônio dando calote nos funcionários e depois quebrando e deixando todos a ver navios.

Eu realmente gostaria de acreditar que a terceirização da atividade fim não vai diminuir salários, segurança e condições de trabalho, mas é justamente esse o argumento principal dos empresários (não na mídia, claro). Se quiser discutir que a liberalização vai ser boa no longo prazo e etc, tudo bem, mas no curto e médio prazo é muito difícil ver qualquer coisa que não a precarização de milhões de postos de trabalho.
"O que leva uma empresa a contratar um terceirizado pra trabalhar 40h por semana fazendo a mesma coisa que um contratado, se não for redução de custos?"
É a redução de custos, mas isso não significa redução de salários. (Afinal, a empresa sempre poderia contratar funcionários pagando o salário da terceirizada +R$1, né?).
Só que , ao invés de ter que contratar funcionários de limpeza, material, equipamentos, a empresa apenas contrata uma outra firma especializada.
É como se a terceirizada fosse uma fornecedora de um insumo qq, só que trabalha dentro da empresa.

Postagens mais visitadas deste blog

Capitalismo de compadrio não é um problema cultural

Eu costumo dizer -  um pouco brincando- que "cultura não importa". No caso da discussão sobre o crony capitalism, no entanto, eu falo a sério: a chave está nos incentivos econômicos.
O historiador econômico Stephen Haber resume isso bem na introdução de um livro jóia sobre o assunto. A lógica é a seguinte: em termos ideais, quando há boas instituições, os empresários sabem que não serão expropriados pelo governo. Este taxa todo mundo, ganha o seu, mas não distribui privilégios. Logo, não há sentido em ser amigo do governo,  nem financiar campanhas.
Agora, quando as instituições são ruins e o poder discricionário do governo é grande, surge um dilema. Como o empresário vai investir se sabe que uma hora qualquer as regras podem mudar contra si? Sem investimento, não há o que tributar.  A solução mútua é transformar o governo em sócio de alguns empresários. Assim, cria-se um compromisso crível: o governo não vai passar a perna nas empresas de quem é "amigo" pois tem u…

A regra dos dois desvios

Ao que parece, a regra será a minha maior (e única) contribuição ao Saber Universal. Eu a reproduzi no verbete "Brigas, críticas e debates" do meu magnum opus "Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado" ( Atualização 2017: O livro está fora do ar porque uma segunda edição, expandida, será publicada em breve). Aí vai:

" "Nunca brigue se o adversário estiver a mais de dois desvios padrãode você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico." Se você não sabe o que é desvio padrão, nenhum problema. Traduzindo: nunca brigue se o adversário for muito melhor ou pior do que você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico. Se o adversário é muito mais inteligente ou conhece muito melhor o assunto, ouça-o com atenção, faça as perguntas relevantes e aprenda. Não é vergonha. Agora, se o sujeito é burro ou ignorante no assunto, o melhor é desconsiderar. Afinal, qual é a…

Colistete e o atraso educacional brasileiro

Ficou ótima a matéria da Revista Piauí com o perfil do Renato Colistete e sobre sua tese de livre-docência (pdf).
Ele é um pesquisador sensacional, gente boa e orientador de 9 entre 10 dos novos pesquisadores em histórica econômica. Já estava no tempo de ele ter reconhecimento de um público mais amplo.
Aproveite e leia o seu blog . Quando a tese estiver on-line, eu aviso.