Capitalismo de compadrio não é um problema cultural

Eu costumo dizer -  um pouco brincando- que "cultura não importa". No caso da discussão sobre o crony capitalism, no entanto, eu falo a sério: a chave está nos incentivos econômicos.
O historiador econômico Stephen Haber resume isso bem na introdução de um livro jóia sobre o assunto. A lógica é a seguinte: em termos ideais, quando há boas instituições, os empresários sabem que não serão expropriados pelo governo. Este taxa todo mundo, ganha o seu, mas não distribui privilégios. Logo, não há sentido em ser amigo do governo,  nem financiar campanhas.
Agora, quando as instituições são ruins e o poder discricionário do governo é grande, surge um dilema. Como o empresário vai investir se sabe que uma hora qualquer as regras podem mudar contra si? Sem investimento, não há o que tributar.  A solução mútua é transformar o governo em sócio de alguns empresários. Assim, cria-se um compromisso crível: o governo não vai passar a perna nas empresas de quem é "amigo" pois tem uma parcela no negócio. É uma solução institucional quebra-galho, que beneficia uns, mas é ruim para a economia como um todo,
No Brasil, os órgãos de controle e a Polícia Federal estão fazendo o melhor para coibir o capitalismo de compadrio, mas eles continuarão a ter muito trabalho se o Estado preservar seu poder discricionário. Quanto maior este for, maior será a pressão para "amizades" governo-empresas. Isso acontece em todo canto, em toda época.
Então esqueçam a explicação culturalista que culpa a mentalidade ibérica- ou a algo no ar do Brasil-  pelo crony capitalism. Reformas que reduzam a possibilidade de arbítrio estatal seriam a maior arma contra o compadrio.

16 comentários:

Unknown disse...

E cultura não influencia instituições? Não me parece que instituições são distribuídas aleatoriamente.

Leonardo Monasterio disse...

Sim. No final das contas, tudo influencia tudo . (E tb estou usando instituições me sentido bem limitado).
Meu ponto é que : "ah, é cultura brazuca" é explicação capenga. Um monte de coisa que diziam que era da cultura brazuca mudou rapidinho.

Anônimo disse...

Como todo economista, vc é um grande picareta.
Cheio de papo furado de história etc e tal.
Honestidade intelectual zero.

Leonardo Monasterio disse...

Anonimo,
Por favor, desenvolva.
Leo.
PS. A parte sobre ser picareta, eu concordo.

Anônimo disse...

Economia, econometria isso tudo eh picaretagem mesmo. o anonimo aí de cima tem razão. estamos errados, leo?

Leonardo Monasterio disse...

Olha, eu não acho que economia e econometria são picaretagem. (Só são picaretagem no sentido de que toda a ciência é: tentativas de bípedes implumes, ignorantes, ridículos, em entender um mundo que é bem mais complicado do que o mais inteligentes da espécie podem e poderão imaginar.)

Anônimo disse...

Os anonimos tem razão. Vcs economistas sempre vem com algum blablala pra justificar esse tanto de teoria mirabolante que todo mundo sabe que não explica nada.
Vc como economistas deveria ter a hombridade de reconhcer que micro, macro e econometria não servem pra nada mesmo.

Ciência é bilogia, física, química, computação. Matemática é uma linguagem. Economia eh pseudociência.

Leonardo Monasterio disse...

"Anônimos contra a Economia que frequentam blogs de Economia: um estudo antropológico-psicológico."

Alexandre Mendes disse...

Olá Sr. Monastério

Se a cultura pode influenciar instituições, porque a cultura não pode ser um dos fatores que podem explicar essa formação? Não no sentido determinista(exemplo: O Brasil é assim por causa da cultura e vai continuar assim para sempre..) mas no sentido de estabelecer uma relação causal(A cultura influenciou essas instituições e agora é preciso adotar tais medidas)
Um exemplo o qual recordo-me foi o livro do Acemoglu, no qual ele disse que não pode explicar desenvolvimento com cultura mas páginas depois ele colocou a Revolção gloriosa como causa das reformas institucionais inglesas....

Abraços do admirador! Desculpe pelo incômodo
Alexandre.

Guido Neves disse...

Acho que o ponto é: com as regras que temos, o capitalismo de compadrio é consequência delas ou é uma questão cultural que independe das regras (o que implica dizer que não teríamos capitalismo de compadrio mesmo com essas regras, caso nossa cultura fosse diferente)?

Embora sejam interligados, pois uma engendra a outra, acredito que há prevalência das instituições sobre a cultura, pois aquelas podem ser mudadas pra melhor (ou pior) devido a outros fatores como ideologia, a necessidade, contexto interno e mundial e até a sorte de surgir algum líder com credibilidade diante das massas disposto a encampar mudanças institucionais, etc.

Leonardo Monasterio disse...

Alexandre,


Antes de tudo, não me chame de sr. Sou velho, mas não preciso ser lembrado disso! :-) E obrigado pelas gentis palavras.

O Guido explicou muito bem o que acredito! Essa visão "ah, é cultural..." como se cultura fosse super permanente e não respondesse a incentivos. quer ver um micro caso de como a cultura mudou? olha esse video do Maluf sobre o fumo. https://www.youtube.com/watch?v=668o_ui6jg8 . A "cultura" do fumo acabou em uma década. (Estou copiando esse exemplo do Lee Alston que contava uma história semelhante sobre jogar lixo nas estradas americanas).

Abraços,
Leo.


Bernardo Mueller disse...

Talvez o melhor jeito de pensar sobre isto seja em termos de uma coevolução entre instituições e cultura, onde coevolução refere a um processo tipo Darwiniano de variação-seleção-replicação. Tem uma resenha excelente no JEL sobre este tema do Alesina e Guliano https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/jel.53.4.898
Um modelo recente que mostra como esta coevolução acontece está em um paper recente do Bisin e Verdier. Note que não é um modelo de otimização sujeito a restrições como tipicamente usamos em economia, mas um modelo evolucionário de trnasmissão de informação onde haverá sempre muitos equilíbrios e onde previsão é geralmente impossível.
https://www.aeaweb.org/conference/2017/preliminary/paper/tAY233RB
Eu tenho um paper com uma aplicação destes temas para a história dos portugueses no séculos 15 e 16. https://extranet.sioe.org/uploads/sioe2017/mueller_ayello.pdf
O Leo conhece um percursor deste trabalho pois foi membro da banca de mestrado do meu coautor Gabriel Ayello. É um bom exemplo de como a ciência funciona. Nos começamos defendendo a hipótese de que o fracasso dos portugueses era devido às instituições e não à cultura, como sustentam muitos historiadores. No entanto, aos poucos fomos nos convencendo de que uma explicação baseada em coevolução de cultura e instituições teria mais poder.
Sobre os comentários dos anônimos, eu sou favorável a uma posição de questionamento permanente à métodos, teorias e abordagens estabelecidas. Mas nunca da maneira obtusa, niilista e sem oferecer alternativas como foi feito.

Leonardo Monasterio disse...

Bernardo,
Obrigado pelos comentários e sugestões. Não conheci os textos sugeridos.
Ficou ótimo o título do paper ! Ainda não vi essa versão, mas vou postar no blog para divulgar.
Abração,
Leo

Luis Pagano disse...

Concordo com você. No Brasil nunca tivemos um real capitalismo, muito menos alguma tentativa de socialismo, tivemos um regime que chamo de CORRUPTALISMO, neste regime, pseudo empresários (digo pseudo pois são avessos aos riscos) se unem a politicos e funcionários públicos corruptos para obter benesses do Estado (benefícios fiscais, financeiros, compras estatais, etc). É a nova/velha politica do café com leite que privatiza lucros e socializa os prejuízos.

Natan Damasceno disse...

Olá professor, desse ponto de vista, a construção dos clássicos sociológicos como "Raizes do Brasil" Sergio Buarque, falham? Ou devemos ser indulgentes considerando alguns pontos?

Leonardo Monasterio disse...

Caro Natan,
Por profissão, eu tendo a minimizar o papel da cultura. Geralmente "é uma questão cultural" é a resposta fácil, mas não nego que tenha o seu papel e que SBH tenha um ponto.
abraços!

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