Empreendedorismo e Desenvolvimento

Cláudio Shikida, meu amigo e ex-co-bloggeiro, escreveu hoje em um post muito interesssante:
"...há que se remover as barreiras institucionais, mas há que se pensar também no porquê da mentalidade do brasileiro ser tão anti-empreendedora."

Eu discordo totalmente. Antes de tudo, os brasileiros são tão empreendedores quanto qualquer outro povo. O que muda são as restrições e os incentivos. O que é o tráfico de drogas senão o desejo de ficar rico enfrentando riscos altíssimos e trabalhando duro? A pesquisa que motivou o post do Cláudio mostra apenas que os universitários não são doidos. É melhor um emprego público do que se arriscar a ser empresário no Brasilzão.
Além disso, eu sou cético acerca da idéia de que a falta de empreendedorismo, por si só, é empecilho ao desenvolvimento. Li outro dia um trecho do Gerschenkron que diz o seguinte:
The generalization may be ventured that adverse social attitudes towards entrepreneurs do not significantly affect the process of Industrialization unless they are allowed to become crystallized in governmental action.

Ou seja, a postura anti-empreededora só é importante quando é capaz de mudar as instituições.

6 comentários:

Kron disse...

Leo, hoje ouvi hoje uma reportagem na BAND NEWS falando que 63% das universitários querem fazer concursos públicos. Com a atual estrutura, fica difícil ser empreendor. Os impostos são elevados e a burocracia dificulta a legalização dos empreendimentos. Para os pequenos empresários os custos são proporcionalmente elevados. Ou vc busca o porto seguro dos concursos (esta é minha situação atual) ou, no caso do desemprego, vira empresário informal. Mas eu acho que o problema maior é que no BRasil existe a mentalidade de que o melhor é ser funcionário público. É complicado existir um capitalismo verdadeiro em um país onde ninguém quer correr risco. O sujeito passa em um concurso público e fica na contagem regressiva para a aposentadoria ou fazendo greve para protestar contra os salários baixos ou estudando para um outro concurso que pague mais durante o expediente de trabalho. AH sim, ainda lutam para manter os tais "direitos adquiridos", que eu prefiro chamar em certos casos de "privilégios adquiridos". Eu até hoje não entendo pq funcionário público tem direito à licença prêmio.

Leonardo Monasterio disse...

Pois eh, Kron.
Eu discordo de vc tb.
A questao nao eh de mentalidade; eh de incentivos. A mentalidade diz que eh bom ser func. publico; pq afinal de contas eh muito bom ser funcionario publico.
Imagine um pais em que a agua da torneira estah contaminada por hepatite. Aih vc olha os carinhas tomando coca-cola e diz: "olha lah, eles tem uma mentalidade apegada a tomar tomar coca". Nao, o problema estah na agua e nao na mentalidade.
A questao eh que isso implica em recomendacoes de politica distintas. Se vc acha que o que falta eh empreendedorismo, o negocio eh o SENAC oferecer cursinho. Se o problema eh sao os incentivos, o negocio eh acabar com todos o sistema S e reduzir um tantinho o custo-brasil.

Kron disse...

Sim Leo, no fundo acho que me expressei mal. O que quero dizer é que mesmo quando os incentivos, traduzidos por salários mais elevados, são maiores no setor privado do que no público, um número considerável de pessoas prefere permanecer como funcionário público. Já vi pessoas falando coisa do tipo: "Aqui ganho pouco, o serviço é uma merda, mas meu salário está garantido". Existe uma certa aversão ao risco, mas mesmo quando esse risco diminui, as pessoas parecem preferir a segurança. Bom, serviço público raramente cobra produtividade ou desempenho, o que funciona como um local bom para quem não quer correr riscos. Quer ver outro exemplo? Há alguns anos atrás a lei protegia muito o inquilino. A inflação era elevada e fazer contrato de aluguel era uma complicação, principalmente na hora da renovação. Hoje, ainda que seja menos complicado retirar um inquilino do imóvel, ficou muito mais fácil alugar uma casa ou apto. Além disso, o valor do aluguel medido em termos do valor total do imóvel caiu consideravelmente, entretanto, a mentalidade do brasileiro não mudou. Todo mundo (com exceção de algumas pessoas que estudaram economia e entendem alguns conceitos elementares) sonha com a casa própria, por mais que morar de aluguel seja vantajoso. Não temos mais inflação elevada, a lei melhorou, a oferta de imóveis para locação é grande, mas alguns conceitos permanecem quase que imutáveis. QUando digo que adoro morar de aluguel, quase todo mundo acha isso um absurdo.

Leonardo Monasterio disse...

Ok, Kron, vamos a questao do aluguel.
Eu acredito que existe uma certa inercia na cabeca dos carinhas e eu concordo que todo mundo sonha com a casa propria. Mas, no final das contas, estah todo mundo alugando, nao está? Entao, as preferencias reveladas mostram que as pessoas aceitam aluguel na boa.(Bem, escrevendo isso vejo que estou errado. A aversao ao alugel se mostraria no seu preco.)
Hmmm... nao sei. Soh sei que eh bom para pessoas como eu e vc (alugadores nomades) que a maior parte das pessoas queira casa propria. :-)

Kron disse...

Isso é verdade. Cara, eu estou morando num apto muito novo, num locla que ele dizem que é a Barra da Tijuca (só p/aumentar o IPTU), mas tenho certeza que é Jacarepaguá, por módicos 600 reais. E toda hora estão lançando um novo emprrendimento. Isso me deixa feliz pq sei que a tendência com esse aumento de oferta é o aluguel se manter em baixa.

Mas voltando à nossa discussão sobre o termo "mentalidade". Talvez fosse mais fácil pensar nisso como uma espécie de heurística ou regra mental difícil de mudar, ainda que outras isntituições mudem. Como na parábola da água exemplificada por vc, pode ser que mesmo que esta venha a ser tratada e não apresente nenhum risco para a população, na mente das pessoas permanecerá a idéia de que a Coca-Cola é melhor. Conheço pessoas que preferem pagar mais caro por um remédio de marca, ainda que o genérico seja (ou deva ser) absolutamente igual.

Eu lembro que na minha infância minha mão sonhava que eu fizesse concurso p/o Banco do Brasil. Eu só virei func. público aos 34 anos, depois que meu salário na iniciativa privada, medido em termos do salário do funcionalismo, deixou de ser atraente. QUando comento que se em termos relativos o setor privado voltar a ser atraente, eu deixo a ANP, a maioria das pessoas fica horrorizada.

Marcelo Passos disse...

Salve Leo, salve Kron, salve Londres e a Zona Oeste carioca.
Só para meter o bedelho na discussão, eu, como o Kron, virei funcionário público para ganhar apenas um pouco mais (contando os benefícios) do que ganhava dando aulas. Pesou na decisão, como bom leitor do Frank e do Varian, a maximização intertemporal do meu bem-estar e o velho e bom custo de oportunidade de trabalhar 6 horas por dia e poder ter uma segunda atividade (consultoria ou aulas). Aqueles ativos intangíveis que cada um atribui um peso subjetivo "x" ou "y" na sua função de bem-estar, na prática, contam para cacete.
Concordo com o Kron que, no caso da classe média brasileira a velha e boa estabilidade do emprego público ainda seduz muito.
Concordo também que o sonho da casa própria tem muito de fetiche. Mas não custa lembrar que a lei brasileira oferece incentivos a quem possui casa própria. Protege, por exemplo, a moradia de um criminoso. O sujeito comete peculato, rouba Deus e o mundo e na casinha dele nenhum juiz toca. Também não é possível, no Brasil, utilizar a moradia como garantia de empréstimo, tal como a lei americana prevê.
Quanto o empreendedorismo brasileiro, concordo com o Leo, que é questão de incentivos. Lido frequentemente com médios empresários agropecuários paranaenses e, olha, os caras são valentes, hem. Heróis anônimos não seria exagero. Enfrentam vários riscos (climáticos, de mercado, MST etc.)e ainda tem que aturar a burocracia da administração pública, do porto de Paranaguá, a carga tributária elevadíssima, juros altos e subsídio zero.
Fico imaginando o que aconteceria na Grã-Bretanha se o governo não protegesse as plantações de batatas (sem ironias) dos agricultores ingleses.
Se tributassem o malte, então, seria um Deus no acuda!
Ai da Rainha!
Abraços.

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