Pular para o conteúdo principal

O erro de Adam Smith e a Yahoo

Um tropeço do Adam Smith foi achar que o trabalho escravo seria intrinsecamente menos eficiente do que o livre. Ele escreveu na riqueza das nações:
A person who can acquire no property, can have no other interest but to eat as much, and to labour as little as possible.
O erro é que o trabalhador livre também quer aproveitar o máximo e trabalhar o mínimo que puder.* Sem supervisão, os assalariados também fazem corpo mole. Foi isso que o pessoal da Yahoo descobriu. Tinha carinha usando o tempo de trabalho para cuidar da sua nova empresa. (O CC escreve também sobre o assunto.)
Sim, eu sei que existem firmas como a Valve, sem hierarquia, patrão, horários, nem nada. Fantástico, mas certamente tudo depende da tecnologia e da função de produção. De qualquer forma, essas empresas são exceção. Para um discussão histórica do tema, ver Marglin "What do bosses do?" e a réplica do Landes "What do bosses really do?"

A propósito: falando em Teoria da Firma, que pena que o Alchian se foi. O Teorema Alchian-Allen é um dos meus favoritos.

*Em sentido análogo, a escravidão com frequência usava incentivos positivos.

Comentários

Anônimo disse…
O Alchian foi embora sem um Nobel. Deveriam ter dado para ele ano passado, em vez daquela premiação patética - pô, elaborar listas até minha avó sabe.

Postagens mais visitadas deste blog

Capitalismo de compadrio não é um problema cultural

Eu costumo dizer -  um pouco brincando- que "cultura não importa". No caso da discussão sobre o crony capitalism, no entanto, eu falo a sério: a chave está nos incentivos econômicos.
O historiador econômico Stephen Haber resume isso bem na introdução de um livro jóia sobre o assunto. A lógica é a seguinte: em termos ideais, quando há boas instituições, os empresários sabem que não serão expropriados pelo governo. Este taxa todo mundo, ganha o seu, mas não distribui privilégios. Logo, não há sentido em ser amigo do governo,  nem financiar campanhas.
Agora, quando as instituições são ruins e o poder discricionário do governo é grande, surge um dilema. Como o empresário vai investir se sabe que uma hora qualquer as regras podem mudar contra si? Sem investimento, não há o que tributar.  A solução mútua é transformar o governo em sócio de alguns empresários. Assim, cria-se um compromisso crível: o governo não vai passar a perna nas empresas de quem é "amigo" pois tem u…

A regra dos dois desvios

Ao que parece, a regra será a minha maior (e única) contribuição ao Saber Universal. Eu a reproduzi no verbete "Brigas, críticas e debates" do meu magnum opus "Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado" ( Atualização 2017: O livro está fora do ar porque uma segunda edição, expandida, será publicada em breve). Aí vai:

" "Nunca brigue se o adversário estiver a mais de dois desvios padrãode você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico." Se você não sabe o que é desvio padrão, nenhum problema. Traduzindo: nunca brigue se o adversário for muito melhor ou pior do que você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico. Se o adversário é muito mais inteligente ou conhece muito melhor o assunto, ouça-o com atenção, faça as perguntas relevantes e aprenda. Não é vergonha. Agora, se o sujeito é burro ou ignorante no assunto, o melhor é desconsiderar. Afinal, qual é a…

Colistete e o atraso educacional brasileiro

Ficou ótima a matéria da Revista Piauí com o perfil do Renato Colistete e sobre sua tese de livre-docência (pdf).
Ele é um pesquisador sensacional, gente boa e orientador de 9 entre 10 dos novos pesquisadores em histórica econômica. Já estava no tempo de ele ter reconhecimento de um público mais amplo.
Aproveite e leia o seu blog . Quando a tese estiver on-line, eu aviso.