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A estranha inversão nos programas de transferência de renda

Houve um tempo em que dar dinheiro diretamente para os pobres era coisa da direita, Milton Friedman, Banco Mundial e gente de que cheirava a enxofre. O discurso da esquerda era que os pobres queriam mesmo era revolução, reformas de base e mudar-tudo-que-está-aí. A estrutura produtiva (ou fundiária) era a fonte de todos os males e qualquer tentativa de alívio era uma farsa.
Bem, aí vem o bolsa família e todo mundo muda de lado. A esquerda diz que amava programas de transferência de renda desde criancinha e a direita  passa a odiá-los. São agora mais um passo no caminho da servidão e mero populismo.*
Tem um conto do Pirandello** em que dois caras passam um dia discutindo e vão para sua casas pensando no assunto. No dia seguinte, voltam à mesma discussão, mas com as posições invertidas.

* Sim... eu fiz um monte de generalizações e existem exceções de ambos os lados.
** Se o conto não for do Pirandello, deveria ter sido.
*** Nos comentários, eu reproduzo a opinião do Mercadante sobre renda mínima em 1996.

Comentários

"Para o programa de renda mínima, há dois caminhos possíveis. Um é o caminho neoliberal, que entusiasma o Delfim, o Roberto Campos, o Friedman e tantos outros.... vamos fazer uma medida compensatória, que é dar uma quantidade de dinheiro e o sujeito que se vire. Não tem emprego, não tem política social, não tem sistema de Saúde, não tem sistema de Educação. (..) Eu sou contra esse caminho e acredito que nós temos que recuperar a visão do Estado cumprindo políticas sociais estratégicas, junto com a possibilidade de um programa de renda mínima."

A Mercadante em "Globalização Selvagem e o custo Brasil". in Silva, Luís Inácio Lula da (coord.) (sic) Custo Brasil: mitos e realidade. São Paulo: Vozes, 1996
(coord.) (sic) foi ótima! Hahahaha!
Anônimo disse…
É sempre bom lembrar da entrevista memóravel da grande economista do PT, Maria Conceição Tavares:

Folha - Por que o documento divulgado no último dia 10 pela equipe do ministro Palocci causou mal-estar entre os ministros da área social ao falar na focalização dos programas sociais?
Maria da Conceição Tavares - Causou mal estar em todo mundo. Não sou da área social e estou histérica. Temos políticas universais há mais de 30 anos. Somos o único país da América Latina que tem políticas universais. A focalização foi experimentada e empurrada pelo Banco Mundial na goela de todos os países e deu uma cagada. Não funciona nada. Desmontaram o sistema de saúde pública do Chile, que era o melhor da América Latina, desmontaram a Previdência e fizeram fundos de pensão e deu outra cagada, desmontaram o sistema de ensino público e foi a mesma coisa.

Ainda fizeram a mesma coisa na Argentina. Chile e Argentina tinham historicamente os melhores programas de saúde e de educação e cobertura geral de políticas universais. Desmantelaram e obrigaram a fazer focalização.
Anônimo disse…
Acho que o Mercadante não mudou de opinião não. Ele claramente defendia renda mínima (bolsa-família), mais programas universais nas áreas de educação, saúde, previdência etc. E acho que continua defendendo a mesma coisa.
Quem realmente mudou foi a direita, que agora demoniza o bolsa-família com argumentos tacanhos.
Anônimo disse…
É castigo ou pagamento de promessa que você anda lendo Mantega, Mercadante e afins? Pode ser pelo emprego também, sei lá...Se tivessem ao menos uma contribuição importante... Mas tudo bem, como se diz, tudo é válido...
Anônimo das 14:49,

Tá, mas olha o tom do Mercadante: " junto com a POSSIBILIDADE de um programa de renda mínima"... EAlém disso, na prática, os últimos 10 anos mostraram que o governo apostou muito mais no BF do que nos ganhos em saúde e educ.

Anônimo das 21:40
É perversão mesmo. Eu tb assisto Luciana Gimenez, Jerry Spinger. Só assim me sinto culto e esperto.
Sergio Quintela disse…
Eu também assisto o Luciana by Night! :)
E ela saiu na Veja desta semana, alias pelo fato dela ter participado do The View nos EUA. Então somos vanguarda! :)

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" "Nunca brigue se o adversário estiver a mais de dois desvios padrãode você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico." Se você não sabe o que é desvio padrão, nenhum problema. Traduzindo: nunca brigue se o adversário for muito melhor ou pior do que você em qualquer dimensão: conhecimento, ideologia, inteligência ou porte físico. Se o adversário é muito mais inteligente ou conhece muito melhor o assunto, ouça-o com atenção, faça as perguntas relevantes e aprenda. Não é vergonha. Agora, se o sujeito é burro ou ignorante no assunto, o melhor é desconsiderar. Afinal, qual é a…

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